O exercício de devir-outro me coloca novamente nesse espaço de tradução possível das conversas ocorridas ao longo da primeira edição do Modos de Existir no SESC Santo Amaro. Ao fim e ao cabo, a quem interessa esse precioso espaço de reflexão, convivência e formação de subjetividades? De que “estratégias para ter público” estamos falando? Há uma dramaturgia possível a ser inventada na relação “artista-espectador”? Ou, como colocou Alexandra Itacarambi, diretora da Divisão de Ação Cultural e Educativa do Centro Cultural São Paulo (CCSP): qual a questão do coletivo em relação ao público?

“Há públicos específicos a serem engajados para cada trabalho, o que nos faz repensar questões que vão desde o local do espetáculo até a forma como o divulgamos”, fala Jorge Alencar (Dimenti). O diretor artístico e fundador do grupo de Salvador expõe a preocupação em desmistificar o ato artísitico e cita o Projeto Combo, “uma combinação de diferenças” que inclui obras em diversos formatos. “O clichê do McDonald’s pode ser tão perigoso quanto o do Deleuze”, fala. Neto Machado cita ainda a Rede de Interesse, um plano de comunicação criado pelo Dimenti para encontrar “públicos preferenciais e secundários”. Como pensar a formação de público sem se preocupar com quantidade?

A chave parece estar na situação de afetividade criada a partir da potência criadora do outro. Trago a interlocução de Marcelo Evelin (Núcleo do Dirceu) via comentário nesse blog Santo Amaro em Rede. Como é mesmo que se cria – um espetáculo, uma instalação, um solo, duo, ou o que seja – em coletivo? E onde e como estão os “outros” quando “eu” estou criando a minha coisa? No Projeto 1000 Casas, o exercício é deixar o teatro e transportar esse lugar público – de geração de ficcionalidades – para o lugar de intimidade das pessoas. “Me interessa saber como eu afeto Dona Maria e como Dona Maria me afeta”, fala Bebel, referindo-se ao projeto que visitou cerca de quatrocentas casas de um bairro de Teresina (PI). Um espetáculo precisa necessariamente ser algo para ser visto? Ou pode ser um estopim gerador de um contexto quase performativo?

Thiago Alixandre (Coletivo O12) citou a continuidade na criação de vínculos ao falar do Game Cênico. “É preciso buscar um léxico que tenha a ver com o contexto”, disse ele. Mas a quem cabe essa alfabetização artística? Alexandra Itacarambi falou sobre o projeto Centro Cultural, Seu Próprio (CC,SP), que há cerca de um ano propõe catalisar as impressões do sujeito do/sobre o espaço público. “Queremos lidar com o público de forma que ele faça parte da criação da obra e construa novos trajetos nos espaços do CCSP”, fala Alexandra, citando o trabalho do grupo As Meninas do Conto e a ocupação dos k-poppers. É possível vazar essa questão a nós mesmos enquanto formadores desta “rede de interesses”? Que novas entradas para o fazer artístico foram ativadas nesta edição do Modos de Existir? Um estímulo para engatar afetos a partir da produção desses e outros coletivos.