Modos de Existir da Dança, em seu penúltimo dia, aconteceu no formato previsto: encontro provocativo com o tema “Afetos e práticas do compromisso” e os espetáculos  (Giltanei Amorim e Olga Lamas) e Swingnificado, com o Coletivo Entretantas Conexão em Dança. Mais a performance com Thiago Ribeiro no Bureau Deambulante.

Muitos conteúdos causados por vivências. Convido vocês a me seguirem no relato, uma vez mais.

Para o encontro, os convidados foram Fernanda Carlos Borges, filósofa interdisciplinar; Sheila Areas, representando, também, o grupo DR (além do espetáculo Cornélia Boom, apresentado ontem), juntamente com Cristian Duarte, diretor de Cornélia. Ainda, Andrea Bardawil e Graça Martins representando o espetáculo Graça (apresentado no dia 11 de abril) e Verusya Martins, em nome de Os Filhos dos Contos (também apresentado dia 11).

No entanto, o formato, na vida se modifica. As proposições de Fernanda encantaram a todos, gerando praticamente uma palestra, onde, pontualmente, as participações se deram a partir do que ela nos trouxe.

Com vocês: a teoria do encosto.

Manifestação

Fernanda, primeiramente, introduz a Filosofia do Jeito. Tema de seu doutorado, contextualiza as bases de sua tese e a análise sobre o “jeitinho brasileiro”, além de apresentar a relação com a antropofagia proposta por Oswald de Andrade nos idos do modernismo em terra brasilis. Aqui, o latim vem logo nos ajudar: “jactare”, que é a raiz de jeito, é também a de ejacular, de jorro. Então, jeito tem a ver com o modo de se lançar, colocar-se no mundo. Traz, dessa forma, o corpo como se lança e é afetado pela intenção do outro; um corpo lançado/mergulhado em campos de afeto, que vai lidar com os efeitos produzidos, não só pelas ações, mas por todos os nossos processos imaginários. Pertinentemente explica: o ser humano é um ser aberto, pulsional. A biomecânica do corpo humano não tem, necessariamente, padrões de comportamento naturalmente dados. Na inerente criatividade dos seres que somos, modelaram-se os corpos em sistemas, leis, religiões, como formas de organização. Então, como o corpo lê a sensação e se transforma em percepção?

Em um aparte, que é mais do texto do que do acontecimento, trago a constatação de Fernanda sobre o distanciamento que se deu entre filosofia e corpo, na medida em que a filosofia, como início de um pensamento sobre tudo, se desmembrou em áreas específicas do conhecimento. (Lembro-me agora de um comentário de Márcia Tiburi, durante um café pré-abertura do Modos de Existir, falando o quanto sentiu triste o ambiente de um curso de filosofia na graduação: várias cabeças, suportadas por corpos pouco potentes. Penso, quando poderemos superar as dicotomias?) Para Fernanda, o corpo filosofa anteriormente à colocação em palavras. Na atitude existencial, perderam-se as práticas corporais da filosofia, já que na escola pitagórica – berço da filosofia – havia, notoriamente, práticas corporais.

Mas, como o corpo se coloca e se dispõe no mundo? De que modo podemos nos colocar diante de nossas atitudes? Como lidar com o efeito do(s) corpo(s) sobre nós? Uma vez que estamos mergulhados no campo dos afetos com nosso corpo, em que a intenção, o jeito do outro que sempre afeta, qual é a nossa reação? Sendo que afetar tem a ver com produzir efeito. Nesse lugar, onde os corpos se encontram e produzem efeito sobre o outro, se encontra a base da Teoria do Encosto.

Infestação

As reações corporais estão infestadas de modelos. Fernanda exemplifica, uma vez em que se deparou com uma manifestação da “ciumenta”, em seu corpo. Ao colocar as mãos na cintura e proferir a frase “Onde você estava?”, negou-se a dar continuidade ao modelo da reação e, literalmente, caiu dura, por não ter outra configuração corporal alternativa ao que estava sentindo. Nesse momento, traz Csordas, com uma explicação sobre o esquema motor culturalmente reificado. Mas não somos reféns. Um exemplo de como esse esquema pode mudar é o feminismo, que reestruturou o esquema motor do comportamento feminino. Lembrando que o “médium” sempre afeta os esquemas motores incorporados.

Muitas vezes não percebemos, mas assumimos atitudes amplamente modelizadas por esquemas motores que vivenciamos e reproduzimos inconscientemente. Ao negá-los/acharmos outra forma de resposta, o que aparece como reação corporal? As posturas assumidas corporalmente denunciam a possessão pelo encosto. Em manifestações (que não têm nada de esotérico) assumimos formas que denunciam o encosto do modelo.

Incorporação

Encosto está associado à possessão, incorporação, em todas as religiões. Mas não precisamos nos restringir a isso, digo, a uma explicação coligada à fé. Ao encostarmo-nos a algo, ou sermos encostados por alguma coisa ou alguém, agimos de determinado jeito. Qual? Na exposição de Fernanda, as reações vão se clarificando. As reatividades são facilmente detectadas nessa divertida (?!) forma de encontrar-se com os modelos que assumimos na vida. Mas o que esses esquemas trazem? Como somos influenciados por determinados ambientes? O que cola em nós?

Nessa forma de pensar, como pensamento no corpo/com o corpo, a arte dá espaço para inventar movimentos novos, fugindo dos parâmetros conhecidos, ou, pelo menos, socialmente reproduzidos.  E entra a capacidade de produzir sentidos sem que se remetam ao significado. Dar possibilidades de interpretação, levando em conta que a identificação, por outro lado, pode gerar perda de complexidade.

Maíra traz o exemplo de The Hot One Hundred Choreographers, de Cristian Duarte, no qual os modelos passaram pelas negociações com o corpo do intérprete e as respectivas referências. As revelações estavam dadas, mas a complexidade não se perdia. Pelo contrário, ao passarem pelo afeto daquele corpo, do Cristian, ressignificavam o movimento e a própria (inter)referência.

Perguntamo-nos, então, quais são os “encostos” da dança contemporânea? Em corpos que não existem fora da cultura, quais são os critérios de atribuição de valores? E ainda, os parceiros na criação/realização, podem ser encostos? Como a afetação vai ocorrendo conforme a interferência de um e outro?

Verusya traz o exemplo da criação com o núcleo do Porto de Trás: através da constatação dos encontros (o que os influenciavam), os grupos identificaram as trocas de linguagem. Ressalta que queria trabalhar sem signos, um trabalhar mais simples e maduro. Andrea Bardawil lança: entre encosto e contágio, há diferenças?

Fernanda conclui: o que do encosto me (nos) interessa? O que eu posso fazer para comer o encosto, o que dá potência e o que desativa? Estamos falando em ativar potências de agir. Tomando o exemplo da antropofagia no sentido da transformação das forças em atitudes, a devoração depende de assumir uma posição. Não é um conceito para gringo ver. É, antes, um entendimento de modo, de jeito de agir, que pode ser bem utilizado, desde que vivido/compreendido, não como moeda de troca, mas como crítica e opção de ação a um modelo de esquema motor culturalmente reificado.

Antropofagicamente falando, seguiu-se:

Bureau Deambulante

Saímos em grupo. Guiados por Thiago Costa e acompanhados por um cinegrafista discreto e sua filmadora, vamos caminhando. O papo acontece a partir de estímulos do guia ou entre os componentes do grupo, paralelamente, ou entre todos. Não há regras, mas atitudes de atenção. Entrando em vielas, Thiago ressalta, sutilmente, a poesia sinestésica daquele espaço. Uma folha de tempero de um jardim de uma casa no caminho, um som, uma placa, uma cor berrante na parede. Pororoca de ônibus, ao chegar no entrefluxo da realidade. Faz anotações com giz nas paredes. Puxa referências: alguém já leu o Clã do Jabuti? O que passaria despercebido em uma simples caminhada de um ponto a outro, ganha volume, cheiros e texturas. De dentro de uma casa, alguém irrompe pela rua e pede: nunca fui filmada! Ela fica, com seu uniforme, parada em frente à câmera sorrindo. Fica o tempo que quer, e repete: nunca fui filmada! E nós paramos para ficar com ela. Em uma cidade como São Paulo, em que sempre saímos com um destino, é difícil parar para perceber o caminho. Enquanto passeamos, olho para uma janela. Lá está pendurada uma mandala de fios coloridos. Atrás dela, um adolescente de camisa vermelha. Ele nos vê. Eu o vejo e aceno para ele. Ele acena de volta. A arte se fez naquele gesto trocado em uma rua de São Paulo, na zona sul, que talvez eu nunca passaria. De volta ao SESC, há uma ilha, criada por Thiago, que nos convida a registrar, entre papéis e diversas canetas, o passeio. Desenho, durante conversas, a minha impressão. Ele pede, gentilmente, para ficar com aquele registro. Claro! (sentindo-me importante…) É tudo muito natural, enquanto ele prega, com alfinetes, imagens, peças recolhidas nos pés. Que arte é essa? Leio, em uma das anotações dele, na estação do SESC: “móbiles atmosféricos”. E me sinto pertencente ao que não é computado pelo dia a dia da cidade, mas ao que realmente se dá na vida.

Em uma composição em tempo real, Olga e Gil se entregam a um jogo mediado pelo computador, no qual as simultaneidades se dão no delay e na vida. Um espelho de dois, que distorce, amplia, rarefeita os movimentos. Entre sobreposições, fusões também se dão. Existem os dois e existem (s). Com grande cumplicidade, a poesia acontece pela precisão e pela troca atenta um no outro, outro no um. O movimento isolado de cada corpo é tão interessante quanto seu resultado projetado. Evidenciam-se intenções e se criam imagens que nos deslocam no entre corpos e tecnologia. Às vezes estamos em Lilliput, entre diferentes proporções, mas basta olhar para outro lado para que a mágica ganhe contornos do real. Dá para perder o parâmetro do tempo e do espaço. Estão lá os afetos e as distâncias. Tempos se entendendo para se tornarem o mesmo, apesar de não o serem. Corpos que se sobrepõe em paisagens de olhos, bocas, mãos. Os afe(c)tos  acontecem. Alguma coisa ali me deixou com saudades, não sei bem do quê. Entre atualizações e processos, imagens do que pode ser feito, now! Basta estarmos juntos.

Swingnificado

Poesia não é para compreender mas para incorporar.
Entender é parede: procure ser árvore.

(Manuel de Barros)

Entre jogos de apropriação de movimentos, contaminações e ressignificações, Swingnificado tem gosto de brincadeira coreográfica. O espectador e sua movimentação, a partir de um jogo bem conhecido por todos, é pretexto para o desenvolvimento das ações dos intérpretes. O que, corporalmente para você, significa isso? E “isso” diz respeito a uma forma que será incorporada na dança e servirá de motor para o desenvolvimento do espetáculo. Há grande responsabilidade do público e habilidade dos intérpretes, Gladis, Mábile e Ronie. Tudo tem que dar certo? No nosso caso houve a grama, a gaiola e a cama. Tem o lúdico e o grotesco. Tem o sexy e o sério. Tem o peso no que é falta, no que é revolta e no que não se sabe explicar. Swingnificado traz o riso fácil, o que é difícil em dança, mas não quer dizer que seja simples. Ser e estar não é nada fácil, aliás. Na revelação dos procedimentos, maior responsabilidade se dá. No tabuleiro se resumem fórmulas? O próximo movimento pode sempre surpreender.