Os espetáculos comentados de hoje são Cornélia Boom e Pau Brasil e se encontram depois do relato do encontro provocativo, abaixo.

Este foi um relato difícil de escrever. No encontro sobre autorias, várias questões e embates surgiram a partir de grande clareza de cada um em seus posicionamentos. A conversa gerou subtemas como, método – no sentido de como as obras ou as pessoas se organizam, cultura digital e cultura analógica, comum × diferente. Na mesa, Rubens Velloso, diretor e pesquisador em artes cênicas, e os artistas Sheila Ribeiro, Gustavo Bitencourt, Wagner Schwartz (Receitas e Dúvidas), Giltanei Amorim e Olga Lamas ().

Os autores estão identificados, separados em blocos por questões de organização textual. Mas são blocos porosos que estão em contato. Vozes que, também, se sobrepõem. Às vezes se misturam e querem dizer a mesma coisa. Só que de formas diferentes. Interessante… Neste momento, sou a (co)autora:

Um bloco poroso-textual

Quase como uma resposta involuntária à necessidade da mesa de ontem, de novas proposições e palavras para o fazer cênico, Rubens Velloso, traz várias delas: não chama mais o espetáculo por esse nome, e sim, uma “superfície de eventos”. Fala em “articulações artísticas” no lugar de encenação e em “povoamento da superfície” para designar o público. “Tramaturgia”,  ao invés de dramaturgia. Propõe a substituição de uma cultura que chama de arbórea, pela cultura rizomática. Todos esses conceitos são exercitados em seu trabalho com o Phila 7, grupo que se dedica à pesquisa da telemática, tendo trabalhos desenvolvidos com participantes coautores de diversas partes do Brasil e do  mundo. Um exemplo é a obra Play on Earth, realizada por Rubens e mais dois diretores, um de Singapura e outro da Inglaterra, na qual, simultaneamente, se davam as ações. Na negociação com seus parceiros, Rubens cita desentendimentos e birras, que não foram determinantes para o resultado, senão para evidenciar que a concretização das ideias era mais importante do que a individualidade ou ego de cada um. “Capturar, atualizar e doar” fica como aprendizado de longos meses de trabalho em coautoria. Nesse amadurecimento de relações, Rubens acredita que pode se dar uma inteligência coletiva, que aparece na obra e na vida. E pergunta: o que é mais importante, quem diz ou o que se diz? Vê, na arte, a possibilidade de articulação para reverter processos de pensamentos. Aspira, no entendimento da evolução que produz a própria informação, a um acesso à linguagem primeva, que seria a poética.

Em um pensamento conjunto sobre a importância das designações, ligadas diretamente à coisa expressada pela palavra que a denomina, aconteceu um embate sobre o que fica ao substituirmos uma palavra por outra.  Se mundo fosse chamado de tapete, mudaria sua concepção? E por quê?  E se o mundo ou o tapete deixarem de existir, o que resta? O que é do mundo ou a palavra mundo? No princípio era o verbo, mas será que tanto faz o substantivo?

O que Rubens propõe, porém, não é mera substituição de uma palavra por outra. Está falando de outra coisa que não aquela originalmente. Outra prática que gera outro conceito; e vice-versa; talvez.

Outro bloco

Gil e Olga, do Nó, contam que seu processo nasceu da vontade de negar o “o que vamos fazer” para pensarem no como fazê-lo. Convidaram seis artistas para uma residência na qual todos tinham total liberdade para propor e criar. Com a vontade de deixar livre a experimentação, dizer sim a tudo, e diante do atraso da verba para o projeto, que saiu quando estavam em diferentes partes do mundo, a tecnologia via Skype foi o como possível, usado enquanto aparato para gerar o contato e, com isso, imagens poéticas. A conexão entre todos os artistas se dava através da câmera do computador, sendo, o delay e as falhas de comunicação, material de investigação criativa. A relação entre o fluxo da comunicação/criação mediada gerou um trabalho em tempo real que tem que lidar com, além de seus próprios, os erros involuntários do computador.

Sobre autoria, Gil e Olga sequer a cogitaram, claramente parceiros na negociação via tecnologia, autora ou não, que produziu a possibilidade de fazerem o que queriam: trabalhar-criar juntos.

Terceiro bloco…

Sheila, então, provoca: o Skype é autor também! No seu entendimento, a tecnologia não é só um meio. Em uma noção da coisa como o que está e portanto é, que traz do oriente, Sheila coloca que não acredita em uma inteligência coletiva, mas sim em formas de organização da inteligência: uma é analógica e outra é digital. Na forma analógica, a explicação, a atribuição de vozes e pensamentos e mesmo a definição de inteligência fazem mais sentido do que na outra, a digital, que se dissemina sem se importar com quem, mas replicando o quê(s) e sendo, portanto, autora, uma vez que é transversal e criadora de conteúdos. Segundo Sheila, como você opera no mundo faz a diferença para estar em uma ou outra lógica.

Entre escolher e ser escolhido, por um meio, um vestido ou uma forma de escrever, toda uma cultura, que é pessoal e irrevogável, se dispõe.

Lugares inegociáveis?

Em seres que nomeiam e atribuem valores, o embate se deu: Somos ficções criadas pelo cérebro? Qual a autoria do destino?  Quais os traços do humano que passam pela obra? Eles são escolhidos ou se fazem escolher, pela premência de sua importância para que aquilo seja daquele jeito?

Gustavo traz, então, o processo de Receitas à baila.

Último bloco

Diferentemente do processo de Nó, eles começaram com o “não”. Tinham interesse na ambivalência e na manipulação de códigos pelos artistas. Descobrindo pequenas potências nas metodologias dos três, localizaram nos modos de fazer de cada um o quenão queriam no espetáculo. Assim, foram editando as propostas até que chegaram a um resultado que todos concordavam. Para cada um havia uma motivação, uma chave diferente na criação. Mas, tomando tempo para estarem juntos, as coisas que fizeram sentido para cada um foi o objeto final. Rondando as coisas que produziram, os três se propuseram a se jogar no interesse do outro. O que sai do controle, o que não se espera, descobrir coisas, sem impor o que se acha, foram estímulos. Wagner, a favor de uma filosofia da diferença, sublinha que estar juntos é estar convivendo, mas o sentido das criações é diferente. Andréa Bardawil soluciona: mesmo com a hegemonia de interesses, a vontade de que aquilo acontecesse fez com que estabelecessem princípios que tornava a obra pretexto para a experiência.

Como as pessoas e as obras se organizam, revela diferentes métodos do fazer.

Cornélia Boom

Com signos escancarados como o uniforme do São Paulo e as sapatilhas de ponta, o onde e o quem estão dados. Mas nada é tão óbvio assim. Cristian Duarte/Dr. Cornelius apresenta, em sua direção, uma crítica irônica a um tipo de dança que ganha nuances dramáticas e camadas que atravessam a epiderme, músculos e chegam ao sistema nervoso central. E isso pode doer, às vezes. Mas não deixa de ser divertido. Os tais procedimentos cornelianos, baseados na artista Cornélia Parker, promovem riscos para a bailarina e para a plateia. A sombra se evidencia nos espasmos do corpo. Entre dupla personalidade (médico e monstro, ser e não ser!?) se dão os acontecimentos. Há pulsos internos que transbordam e me fizeram pensar na síndrome de Tourrette… Incontroláveis, irrompem em deformação. O avesso espreita o tempo todo, lembrando-nos o quanto estamos distantes da perfeição. Entre a impossibilidade e o desejo, o que acontece? Uma boneca com defeito pode se adequar? Sheila Areas traz o cômico e o trágico em uma interpretação que fascina pelo domínio técnico, pela entrega corporal e capacidade de comunicação. Um engajamento que provocou torções também em mim. Por fim, no deslocamento espacial daquilo que não se é, na visão do ideal, há na contemplação, uma poesia triste e sensível, uma desolação ácida, que, ao mesmo tempo que corrói noções do belo e do certo, as atualiza.

Pau Brasil

Entre estereótipos de sedução, ele provoca. Tudo tem segundas, terceiras, quartas intenções. Ele é gostoso e incomoda com sua simpatia inabalável. Na juventude, na capacidade muscular, nas insinuações explícitas, Aldren é um corpo que se faz objeto, que quer mostrar seus dotes. Pode provar, freguês, é produto para exportação, ele rebola na sua cara. A plateia especializada mostra-se particularmente tímida. Mas dá água na boca. Como suculenta fruta, ele se oferece. Tudo muito sensorial. Há cheiros, tatos e gostos nessa dança. Ele promete e se você deixar, vai cumprir; será? Até onde você quer/pode/permite-se ir? Em uma sociedade que luta pela liberdade, mas vem se tornando cada vez mais careta e normativizada, o ar brejeiro, a ambiguidade também sofrem açoites. Esse pau em extinção, confronta o desejo e a vergonha. Afronta ao manipular escancaradamente a sua coragem de se manifestar. Pau Brasil é delícia pura. Mas não é só isso.