Depoimento, percepções e dúvidas

Seguindo no relato das atividades, o texto de hoje abarca as várias atividades presenciadas. De início, o primeiro dia da Residência Composição do Comum. Em seguida um panorama da discussão no encontro provocativo, cujo tema foi o título deste post. Mais livremente, minha experiência em Receitas e Dúvidas, espetáculo da noite. O texto é longo, mas pretende ressaltar cada afeto despertado  pelos vários modos de existir. E quem sabe, assim, afetar quem o lê também.

Momento primeiro

Delicadeza seria: distância e cuidado, ausência de peso na relação, e, entretanto, calor intenso dessa relação.

(Roland Barthes, Como viver juntos)

A vivência intitulada Residência Composição do Comum, conduzida por Tiago Ribeiro é baseada em pressupostos desenvolvidos por  João Fiadeiro, coreógrafo português. Com a proposta de desenvolvermos nossos próprios pressupostos ao longo da convivência e do exercício, um espaço demarcado no centro da sala apresenta-nos o vazio  como um potencial. Qualquer coisa pode estar lá. Cheio de possibilidades, um primeiro objeto a ser colocado pode indicar o caminho que aquela composição direciona. A cognição do todo vai mudando na medida em que os objetos são dispostos. Existe a sensação de compartilhamento de uma ideia, mas também é necessário lidar com frustrações, quando o outro não fez o que você queria/achava que é melhor. Lidamos com o passado transcrito nos objetos colocados e com o futuro potencial daquela composição.  Que significados ela vai assumindo enquanto é feita? No aqui e agora, a atitude de contemplação é valorizada. Um estado de observação ativa e analítica se instaura. Tiago ressalta a “reparagem” — reparar — dentro e fora do espaço demarcado, no que está acontecendo. E pede delicadeza, citando Barthes. Isso também serve para o indivíduo: dentro e fora de si, o que acontece? A cada objeto colocado, o que se evidencia? Não devemos temer o óbvio, esse é um caminho rico para encontrar o coletivo. Evidenciar as ações, ter intenções claras são pressupostos para potencializar a possibilidades de significados. Ao testar relações, as responsabilidades crescem, e há de se ter coragem para alguma atitude (mesmo que seja a de só olhar). Quando estou me omitindo? Quando me precipito? Podemos discordar, rearranjar, fazer ajustes, eliminar elementos. Porém, conter os impulsos. Cada ação é uma proposta de encaminhamento, que idealmente deve ser compartilhada. Adiar o fim, para esgarçar as possibilidades é um objetivo. No entanto, às vezes o sistema se fecha de tal modo que não é possível continuar. Como perceber coletivamente que aquilo se esgotou? Há a surpresa de algumas resoluções que atualiza imediatamente o que se estava pensando, apontando em novas direções, mas há também a interação, a sincronicidade de alguém fazer exatamente o que você imaginava. E quando tudo dá certo para todos: Uhu! Esse exercício traz potentes revelações de como nos comportamos em grupo, reflexões sobre referências e qualidades de atitude individual e coletiva. É um treino político, na medida em que questões são sucessivamente criadas pela colocação de objetos e se busca chegar a uma resolução pelo bem comum. Trata da convivência de diferentes com liberdade para se expressar, mas não sem antes pensar no todo, que abrange o ambiente, o passado, os outros que lá também estão e o futuro daquela proposta. A criação de um sentido coletivo, as descobertas de mudanças de modelos vão surgindo dentro do próprio sistema que está sendo criado. Rupturas também podem emergir. Estar em favor de um bem comum cria uma atenção ao outro e ao momento de forma que mudanças de ponto de vista são exercitadas, ao nos deslocarmos ao redor da composição para melhor entendê-la, prevê-la e a encaminhar. Preciosidades testadas no corpo que se desloca, na ideia/solução do outro, no olhar que se apura, na análise de atitudes e impulsos, no reconhecimento do criamos juntos, sem certo ou errado, mas em um caminho de coerência coletiva, mesmo que absurda, fazem acreditar que chegar a um consenso é possível, o que não significa que será fácil. É interessante notar que não há esgotamento de possibilidades da aplicação dessa dinâmica. Tiago aponta também a criação coreográfica nos procedimentos, apesar de ressaltar que João não os usa assim. Apesar de muito pragmática, a proposta traz sutilezas imensuráveis em sua realização e que ecoam, incondicionalmente depois do fim da experiência dentro da sala. É quase terapêutico, ao promover uma conexão intensa de campos entre mim e o outro, entre minhas atitudes e o todo. Entre nós. É um treino de resiliência que ressalta a potência e renova a crença na possibilidade da conquista de um bem comum.

Momento segundo

Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha junto é o começo da realidade.

(D. Quixote de La Mancha)

Fabiana Britto, pesquisadora em dança e professora da UFBA e Alejandro Ahmed, como representante do grupo Cena 11, Raul Rachou e Helena Bastos, do Musicanoar, formaram a mesa sobre “Parcerias, colaborações e temporalidades” no encontro provocativo do dia. Eles têm em comum o tempo de mais de uma década de parceria e colaboração. Aliás, os grupos Cena 11 e Musicanoar compartilham vinte anos de fazer artístico.

No start do papo, Fabiana ressalta que entre dois ou mais há sempre um outro elemento que é a própria relação em si. Na somatória de forças, seja das competências ou na complementação das mesmas, o aspecto da duração possibilita a criação de objetivos construídos durante a própria relação. E o tempo pode ainda desenvolver competências especiais que não são de um ou outro, mas do resultado da interação daquela parceria específica. O perigo reside na homogeneização de repertório, referências, que o tempo de convívio pode promover. Redundâncias internas que entram em loop dentro de um mesmo grupo.

Nas parcerias artísticas, muitas vezes o foco no resultado pode oprimir, abafar a dinâmica das relações. Em tempos de editais e fomentos, a obrigatoriedade de produzir algo sob tais e tais condições ameaça a vitalidade do grupo.

Alejandro conta que o Cena 11 nasceu já como grupo, e no conjunto, que não é alguém nem algo, a relação se dá no entre o de um e o de muitos, ao que ele chama de “lugar fantasma”. Nessa zona ainda há a dimensão de estar no mundo, ocupando um espaço de singularidade que diz respeito à especificidade daquele grupo. Há sempre, o desafio técnico, do treinamento, e a busca de uma desestabilização para desafiar a identidade daquela conformação de pessoas. Para evitar a cilada da repetição e homogeneidade, procuram alimentar a identidade como algo não fixo. Isso também se evidencia em seus espetáculos, com corpos em atos relacionais que estejam vivos em cena na busca do equilíbrio, do como as pessoas se juntam e das diferentes maneiras de estar juntos. Os produtos configuram-se, então, ética e esteticamente como eles são também como grupo. Estar junto é uma condição que todo dia se estabelece novamente. E entender que há uma hierarquia, que é móvel, mas funções são criadas e há que se obedecer para que dê certo a convivência, o que gera a possibilidade de continuar.

O Musicanoar nasceu com a vontade de testar propostas que Helena vislumbrava em sua trajetória artística-acadêmica. Mas nasce com a vontade do outro, pois a solidão do solo a incomodava. Apesar de já ter sido um grupo, a parceria com Raul Rachou foi a que se estabeleceu no tempo, pautada por uma afinidade e confiança que só cresceu com a convivência. A dificuldade da intimidade é, para eles,  a previsão do outro, do saber exatamente o que vai acontecer, mas isso é encarado com a predisposição de colocar questões, para si e para o outro de forma a desafiar o previsível. Diz Raul: “Criar disparos que não se sabe onde vai dar”.

Como no exercício vivido na oficina de Tiago Ribeiro, Composição do lugar comum evidencia que o sistema deve ser construído por proposições que garantam um futuro, que não destruam o que acabou de emergir como possibilidade. Adiando o fim, os fechamentos irredutíveis, as parcerias e colaborações perduram no tempo-espaço, alimentando a criatividade e a convivência. Possibilitar um ambiente em que a pesquisa conduza a novas hipóteses, e não certezas, é uma estratégia para adiar o fim.
Nos exemplos presentes nesse debate, de parcerias acadêmico-artísticas, de convivência de grupo ou pares, evidencia-se o entendimento de que não existem modelos pré-estabelecidos para dar certo, mas sim que, anteriormente, existem modelos de conduta ética partilhados. A compreensão de condutas possíveis e necessárias. E o prazer no desvendamento, momento a momento, das possibilidades, do encaixe, com a clareza de que nada é permanente, a não ser a vontade de continuar juntos.

Terceiro momento

你我他 我们

O espetáculo Receitas e dúvidas, com Gustavo Bitencourt, Sheila Ribeiro e Wagner Schwartz, encerrou a programação.

Uma figura entra em cena. Homem sem rosto, sob a dura máscara que é ao mesmo tempo artesanal em seus relevos e sofisticada em sua confecção. Há alguém por trás dela? Que fantasma habita aquele espaço por trás do véu? As referências vão se cruzando incessantemente em minha mente: lutador de luta livre, influência pré-colombiana, figuras de cinema dos anos 1950, com um certo ar blasé… Materializando-se em uma voz, ele nos lê a receita, logo de cara. A descrição tem aspectos surreais como cigarros que caem do céu e é permeada por sensações e pensamentos dos componentes, chamados pelos nomes reais. Sheila, Wagner, Gustavo, pessoas físicas. Uma dança acontece, em par, com Sheila e Wagner em um jogo de olhares que por vezes se direciona ao espectador. Quem conduz? Os passos estão certos? Um toc-toc dos saltos do sapato marca/desmarca o ritmo. Sheila dança sozinha, em seu vestido brilhante, revelando a vontade de um corpo que está fazendo o que lhe apraz. Há muita sinceridade em tudo. Entre projeções em uma tela que sobe e desce, passagens de Wagner, Sheila, Gustavo, vazios que deixam espaço para só estamos ali, juntos. A eventual falha é bem-vinda, evidenciando um estado de atenção que me fez dar conta de quanto dentro eu estava daqueles acontecimentos que se sucediam sem pressa nem ansiedade. A certo ponto, envoltos por fumaça, que tornou palco e plateia um só lugar, Wagner canta, lindamente. Promove com seu corpo uma viagem pelas articulações, fazendo-me sentir do cóccix ao atlas a vida da coluna vertebral. A vontade que dá é de levantar e dançar também. Muitas vezes, no deboche, na paródia de si mesmos, levaram-me a questionar o meu próprio papel naquele espaço. As dúvidas são nossas também. Na evanescência do que se quer e do que se faz, saí com a impressão de que só se pode estar, para ser pleno na relação e experiência do entre modos e questões.