Mediação: Christine Greiner.

A abertura do evento foi realizada pela pesquisadora Christine Greiner, com a proposta de uma conversa que discutisse a questão do solo na dança a partir de uma contextualização política e histórica. Greiner apresentou dois pontos de partida: 1) dança moderna – o que mobilizava um artista a criar um solo naquele momento – início do século 20 até a segunda Guerra Mundial?; 2) proposta do livro Criatividade e outros Fundamentalismos, de Pascoal Gielen.

O solo na dança moderna foi entendido como um acionamento político e existencial. Ou seja, um jeito de movimentar e pensar configurações ainda não reconhecidas artisticamente. A partir disso, da necessidade de criação de outras possibilidades estéticas, é possível observar o surgimento da questão econômica como uma supremacia: a dificuldade em ter um grupo, promovendo a necessidade do “fazer sozinho”.

Algumas das principais noções capitaneadas pela dita contemporaneidade já eram presentes nos contextos modernos. Por exemplo, o conceito de multidão como coletivo de singularidades, muito disseminado pela filosofia italiana, já estava apresentado em Laban, o que pode ser observado na busca por ignições que não fossem a partir de padrões preestabelecidos de movimento, mas, sim, ignições de movimento, como nos diz Elizabeth Schwartz.

O solo de dança moderna apresenta um entendimento múltiplo, com camadas políticas e sociais, o que mobilizava diferentes coisas. A pesquisadora italiana Eugênia Casini Ropa propõe duas importantes características dos solos na dança moderna que se mantiveram enquanto questão: 1) persistência em uma potencialidade regenerativa do indivíduo e 2) o pensamento de coletividade, de comunidade e não só no indivíduo fechado nele mesmo.

Diversos coreógrafos de dança moderna desenvolveram a ideia de pensar em primeira pessoa – se colocar, falar em seu nome. Parecia estar em jogo uma necessidade de expressão das emoções, de introspecção para pensar uma representação pessoal do/no mundo.

Outro aspecto relevante são os estereótipos a serem derrubados: a ideia de solo combatendo a universalidade da dança (balé como uma língua universal). Ou seja, parecia ser indispensável colocar na cena outro corpo, outra sistematização do movimento. É preciso dizer, porém, que alguns artistas de dança moderna caíram em suas próprias universalidades – como a universalidade do movimento.

A relação política dos contextos artísticos pode ser lida a partir da concepção de solo, no sentido de questionar a disciplinarização do corpo, não apenas do balé, mas também no nazismo, por exemplo, como um combate à padronização massiva do movimento. Vale salientar que o corpo político sempre esteve presente no balé, mas com especificidades distintas da dança moderna – inclusive pela relação com os seus contextos.

A partir dos anos 2000, começa a expansão do discurso “eu não quero representar um papel, eu quero estar lá como pessoa”, com coreógrafos como Jérôme Bel, mas é uma questão que já estava na dança moderna. Contexto em que a discussão do solo começa ter um papel importante, não só como um pedaço dentro de um espetáculo, mas como um manifesto político, social e estético.

A partir do breve panorama da questão do solo na dança moderna, é possível refletir, a partir de Pascoal Gielen, outras camadas da produção artística recente:

  • dançarinos como trabalhadores – discussão da natureza do trabalho pós-fordista e não mais uma produção em série;
  • não é mais o artista gênio criador – suspenso da vida cotidiana, mas vale ressaltar a necessidade de sobrevivência, a sobreposição cotidiana, o “pagar contas”.

A palavra de ordem a partir da necessidade de sobrevivência passa a ser criatividade. Os jargões criados são inúmeros: cidade criativa, economia criativa, design criativo etc. O que significa criatividade quando tudo é criativo? A criatividade, segundo Gielen, é apresentada como um fundamentalismo atrelado às necessidades de adaptação e sobrevivência.

Quando a criatividade se transforma em um fundamentalismo, porém, é preciso pensar a diferença entre criatividade e criação. A criação sempre exigiu o “tempo de criação”, e quando o tempo é muito curto, a criação se transforma em exibição.

Modalidades de solo:

  • comprometimento com uma pesquisa a longo prazo – requer um tempo de internalização das coisas, um certo amadurecimento, para se transformar em um compartilhamento público, que necessariamente se transformaria ao ser exposto;
  • comprometimento com a criatividade – o tempo é o tempo do mercado e das necessidades urgentes.

O discurso de artistas e curadores tem sido apropriado pelo compromisso com a criatividade. Conceitos como mobilidade, nomadismo, redes, conexões se tornam cada vez mais presentes no meio da arte como caminhos para a recepção mercadológica. É possível observar que alguns termos acabam se tornando dogmas, impedindo, inclusive, a existência de outros modos de produção. O nômade, por exemplo, é o herói romântico dos nossos tempos: o artista precisa de uma exposição contínua de mobilidade, não pode estar parado (ou em processo de pesquisa e silenciamento).

O que é um solo hoje? Escolha estética, política e filosófica?

A artista Vera Sala propõe que, em muitas instâncias, “solos”, “duos”, “trios” ou “companhias” viraram categorias de mercado e não uma discussão complexa de cada escolha estética. A questão principal, segundo Sala, parece ser: existe solo ou é sempre uma rede de afetos e conexões?

Os caminhos artísticos que levam a escolha do solo são inúmeros. O solo pode ser visto como a materialização circunstancial da pesquisa, em dado momento do trajeto artístico, como no exemplo de artistas que vivem uma realidade de companhia e que em determinado momento sentem uma necessidade artística de produzir um solo. O solo é entendido, nessa perspectiva, como uma forma de materialização temporal.

Segundo o artista Ricardo Marinelli, vale pensar no solo não apenas como um resultado, mas como uma trajetória, um modo de existência, uma demanda concreta de investigação. Porém, existem momentos no caminho do artista em que o pensamento sobre a captação de recurso também se torna relevante e necessário.

O assunto “editais”, muitas vezes colocado equivocadamente como um tema de políticas públicas culturais, são recorrentes no encontro entre artistas no Brasil. A partir da constatação desta reincidência, Alejandro Ahmed conclui:

A gente confunde isso com políticas públicas, como se isso fosse a condição de existência. Foi ensinado assim. O modo como tu recebe a comida passa a ser comer. Então, não tem a ver com gastronomia. O sabor da comida está vinculado a esse jeito de chegar. A gente começou nas últimas gerações a pensar que as coisas só chegam através disso. Por isso, fica tão vinculado que a gente não consegue desassociar. O modo de associação que foi feito pela gente mesmo e que é perverso nesse sentido.

E uma discussão parece se sobrepor: como as questões econômicas, principalmente ligadas à editalização das políticas culturais, se manifestam e se tornam um discurso hegemônico dentro do contexto da dança? Como fugir dessa subjugação do tempo da criação à ideia de exibição e da criatividade como um fundamentalismo?

A relação entre condições de produção e modos de criação é inevitável, porém, segundo Greiner: “o dia em que a gente estiver convencido de que um é subalterno ao outro, aí não vale a pena fazer nada, porque se torna a mesma coisa, achatado igual”.