Mediação: Dalva Garcia e Ana Teixeira.

O segundo dia de conversa, mediado pelas pesquisadoras Dalva Garcia e Ana Teixeira, iniciou com a pergunta sobre os modos de relação com as práticas de conversa/bate-papo já tão arraigadas à produção de dança no país. Para refletir sobre a questão, propôs-se a leitura conjunta do fragmento de Franz Kafka:

Comunidade

Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro veio um e pôs-se junto à entrada, depois veio, ou melhor dito, deslizou-se tão ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e se pôs não distante do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente, estávamos todos de pé, em uma linha. A gente fixou-se em nós e assinalando-nos, dizia: os cinco acabam de sair dessa casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma existência pacífica se um sexto não viesse sempre intrometer-se. Não nos faz nada, mas nos incomoda, o que já é bastante; porque se introduz por força ali onde não é querido? Não o conhecemos e não queremos aceitá-lo. Nós cinco tampouco nos conhecíamos.

Além do mais somos cinco e não queremos ser convivência permanente, se entre nós cinco tampouco tem sentido, mas nós estamos já juntos e continuamos juntos, mas não queremos uma nova união, exatamente em razão de nossas experiências. Mas, como ensinar tudo isto ao sexto, pôsto que longas explicações implicariam já em uma aceitação de nosso círculo? É preferível não explicar nada e não o aceitar. Por muito que franza os lábios, afastamo-lo, empurrando-o com o cotovelo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.

Como lidar com hábitos perceptivos? Hábitos de conduta? Como lidar com o outro?

No conto de Kafka, existe um sexto que quer se juntar a esse grupo de cinco, porém não é possível saber o que vinculou os cinco que já estavam ali.

Na leitura de Rosa Hércoles, o sexto traz para os cinco a noção de alteridade, e ele de algum modo ameaça os padrões de conduta acordados, porque ele seria um outro ingrediente na combinação. E, com um novo ingrediente, essa combinação teria, necessariamente, que mudar. Então, ignorar poderia ser um jeito de neutralizar a ameaça. O outro é entendido como aquele que vai bagunçar “isso aí” ou pelo menos ameaça bagunçar “isso aí” (o que está estabelecido).

Ana Teixeira questiona se esse outro, a ser eliminado, pode ser uma ameaça a ponto dos cinco se perguntarem: mas, afinal, o que estamos fazendo juntos? E a questão se expande: o que vem movendo os artistas? O que está por trás dessa lógica de encontro e conversa já tão habituada nos contextos artísticos?

É preciso questionar que estética é essa dentro de um modo de produção que já está bastante homogeneizado. É como se, dentro desses contextos, já estivessem lado a lado o bate-papo e o espetáculo – com o mesmo peso e a mesma medida. O formato institucional parece estar tão estabelecido que perde o sentido do próprio diálogo.

Ao longo da história da dança o diálogo esteve muito presente. No período clássico, não havia o interesse da conversa, do encontro, porque a voz era do rei que catequizava a sua corte. Com a modernidade, fim do século XIX e início do século XX, passou a surgir entre os artistas a vontade e a possibilidade do encontro.

Os artistas se encontravam em suas casas, em um anseio de aproximação entre pares, com a proposta de compreender qual era a materialidade da dança – a busca por entendimentos de corpo. No Brasil, com a chegada de Maria Duschenes e René Gumiel, a questão de casa se manteve muito importante como um lugar de encontro para entender o que se produz. Os encontros colocavam em questão a criação de técnicas e metodologias, partindo do desejo do artista em falar do seu trabalho, estabelecer trocas. Os bate-papos são altamente ligados à ideia da coletividade do período moderno.

Já no Teatro Galpão, nos anos 1970, a conversa mudou o seu foco. O interesse era o de estabelecer um diálogo com o público, com objetivo de compreender a produção a partir do diálogo artista-espectador. Com a expansão das universidades no Brasil, é possível observar um aumento da necessidade do discurso. A fala torna-se mais institucional, porém ainda alicerçada na vontade dos artistas em encontrar-se.

É em 2006, com a criação do Programa Municipal de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo e a ideia de conversa como contrapartida, que o sentido das conversas parece ter se deslocado. O trabalho artístico passou não ser o suficiente e se sobrepõe a necessidade da figura do teórico para elucidar as questões artísticas. É neste momento que se equaliza a criação com a contrapartida, ou seja, a internalização do entendimento de que é imprescindível a junção de tudo aquilo que é externo ao trabalho como pressuposto do próprio trabalho.

Por que, então, continuar na prática do encontro dentro desses novos contextos que se configuram?

Segundo Karin Serafin e André Masseno, a conversa não é o problema, e sim a institucionalização como obrigatoriedade ou imposição, pois o diálogo pode ser uma estratégia artística. Dependendo de como ela é acionada, esse lugar (institucional) pode ser deslocado. A questão está na negociação que se faz enquanto artista.

Em contraposição, Alejandro Ahmed sinaliza para a questão de que o diálogo pode se tornar uma marca, um acessório. E enfatiza que o principal perigo é o entendimento de conversa como uma legitimação da obra ou uma explicação – o que seria ainda mais vulgar –, tirando do trabalho artístico a sua capacidade de gerar vestígios. Qualquer evento ou acionamento, antes ou depois da obra, mas a ela relacionado, começa automaticamente a reorganizá-la. Trata-se, porém, de repensar as escolhas das formas de compartilhamento do trabalho artístico.

Dalva Garcia enfatiza que a dimensão artística está relacionada a outras camadas políticas e sociais, inclusive à dificuldade do espaço público. É na modernidade que se exacerba a dissolução do espaço público. Com a criação do Estado – o grande administrador das questões individuais – não é possível reconhecer a dimensão do público como um lugar dos iguais, mas sim como o encontro entre indivíduos. É um contexto de mudança: indivíduos juntos que são gerenciados como uma grande família (Estado como pai).

A sociedade passar a ser organizada a partir de grupos com interesses particulares e o público é substituído pela ideia de social – social como simulacros de participação. A alteridade, nessa configuração, passa a ser compreendida quase como um fantasma.

Pensar a questão da conversa ou do diálogo na formatação de cada trabalho implica em um processo de criação: em que medida a conversa se torna um simulacro de participação, que convida a opinião pública, que já não sabe mais pensar, à reprodução de ecos? Ou seja, são modos de produzir que criam hábitos que vão se esvaziando.

Questões emergentes:

  • O que está preestabelecido nos modos de produção dessas conversas?
  • Quando e como o compartilhamento parte do desejo do artista em coerência com o trabalho artístico?
  • A questão da instituição e da reunião dos artistas em uma discussão também tem relação com a viabilidade do encontro?
  • Como mobilizar as formas de compartilhamento viáveis em um país com a dimensão do Brasil?
  • Quais são os acordos afetivos? Quais são os interesses que mobilizam os acordos?
  • Como construir outras lógicas de pensar aquilo que já está dado?