Mediação: Marila Velloso.

O terceiro dia, com provocação da pesquisadora Marila Velloso, a questão disparadora foi ao encontro de um anseio dos artistas de colocar questões estéticas, mais relacionadas às suas práticas. Segundo Velloso, a principal pergunta é: o que é que nos interessa discutir dentro das escolhas estéticas em formato solo e como isso está correlacionado com a dimensão econômica?

Suscitando, a partir da dúvida inicial, outras indagações: no Brasil, o formato solo tem sido uma emergência em maior escala? Os artistas estão trabalhando por diferentes formas? O quanto esse formato solo é um dispositivo interessante ou eficiente?

É preciso pensar as trajetórias artísticas em um processo evolutivo, ou seja, se transformando no tempo. O processo evolutivo é desse artista que apresenta o motivo de chegar a determinado momento de sua carreira e dizer: a conjuntura precisa ser no formato solo. O solo pode ser compreendido como um modo de modificar a intensidade da ideia do artista, a partir de sua temporalidade: quais são as modificações do corpo ao longo da história?

O que é, por exemplo, assistir o solo Transobjeto, do artista Wagner Schwartz, em uma remontagem dez anos depois de sua estreia? O que é uma emergência solo que se atualiza no tempo? Qual a conjuntura que o artista está vivendo para que determinado formado faça sentido? O que é que tem no formato solo enquanto intensificação que interessa ao artista de certa geração?

Contudo, vale observar que existem alguns traços que marcam uma mudança considerável na produção em dança. Realmente ventos de mudança e trânsito. Hoje em dia, muitos jovens, de outra geração, que estão produzindo e ocupando muitos espaços, furam as membranas das condições de existência e produção. Jovens criadores e coreógrafos, de universidades.

Velloso reforça que é preciso lembrar que são jovens que estão adentrando as programações e já nasceram em alguns ambientes muito distintos do que gerações anteriores. É um momento de reconhecer outras forças se desenvolvendo em também outros universos de dança. Por exemplo, no caso dos cursos de graduação, que não são espaços voltados para o criador, mas que têm componentes curriculares que configuram muitos trabalhos em formatos de solos, duos e trios. Muita produção em circuitos universitários está em constante trânsito. E esse é um pensamento de produção artística em longo prazo, com os prós e contras. É outra realidade, é outro tempo.

É preciso considerar a importância de todas as iniciativas continuarem existindo. Em que medida que isso interessa para discutir esse formato solo no Brasil? Por que a emergência de solo? Talvez não seja um fenômeno em ascensão, aqui no Brasil, mas talvez a questão seja a de perguntar junto ao recorte proposto, aqui, no Modos de Existir.

Ao refletir sobre o fazer solo, a artista Vera Sala expõe que quando se deu conta que queria criar, que tinha questões que a levavam a produzir, mas ainda não tinha ideia de como fazer isso. Os vocabulários existentes, enquanto repertórios, não davam conta. Era preciso, então, entrar na sala e buscar que corpo era aquele que gostaria de discutir como artista. Por não saber do que se tratava, não poderia propor para outras pessoas. Surgia a necessidade de experimentar o corpo que até hoje se faz presente em sua carreira, em forma de alguns fios obsessivos de criação – de partida, um corpo solo.

Ao mesmo tempo em que, ao falar de solo, é preciso pensar nas parcerias. No caso de Sala, por exemplo, o corpo vazou para uma qualidade de espaço. E existem pessoas imersas nesse corpo que é uma qualidade de espaçamento. O espaço seria um jeito de estar corpo em variados formatos. Elementos que permitiriam o acontecimento de outros corpos. Assim, perderia o sentido a palavra solo.

É preciso questionar os mitos do trabalho solo em um registro de individualidade, porque até em processos coletivos, para trocar é preciso ter um lugar de troca, e às vezes o solo é um mecanismo de verticalização que possibilita essas futuras trocas.

No caso das companhias, a questão parece muito consistente: como verticalizar o lugar de fala e voltar para o trabalho em grupo em uma continuidade de troca e questionar as metodologias estabilizadas no coletivo? Os solos de Alejandro Ahmed, Karin Serafin, Patrícia Manata, Lourenço Marques, Roberta Manata, Eliana de Santana, Key Sawao são proposições de artistas de companhia que, em certo momento da trajetória, optaram por uma organização solo.

O que seria, então, pensar as muitas materialidades do solo no fazer de cada artista?

Com Marcos Moraes a pergunta se deu na relação vida e arte. O solo Anatomia do Cavalo surge como uma necessidade de compreender a experiência do artista e da constatação de que o palco ainda se organiza como uma necessidade. Uma curiosidade, porém, é que a proposição artística solo surge em um projeto altamente coletivo, o Cozinha Performática, que propõe a realização de jantares para discussões artísticas com profissionais dos mais variados segmentos artísticos.

Segundo os artistas, parece existir uma diferença no modo como o mercado e os artistas pensam a proposição solo, ou seja, uma coisa é o que se nomeia de solo mercadologicamente e outra coisa é o que se nomeia de solo na fala e na concepção dos artistas. No mercado, solo se apresenta como o “barato e fácil de carregar”, mas, na fala dos artistas, é efetivamente um modo de existência artística. É fundamental pensar as duas instâncias do que se fala/pensa sobre solo. A dimensão econômica é uma parte do que viabiliza a existência do trabalho. A maior facilidade de chegar aos lugares em solo, ou em uma equipe mais enxuta, do que em grupo. Porém, não é discutir quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha, mas analisar as muitas camadas do que está acontecendo.

Existe uma relação de codependência entre artista e instituição: como estabelecer um lugar no modo como o mercado institucional olha para ideia de solo e a diferença da visão do artista? Segundo Marinelli, é preciso salientar a diferença, mas também os pontos conectivos, porque, caso contrário, o que acaba é que o contato entre os lugares de fala acontece de um jeito violento no espaço artista-instituição/instituição-artista.

Outra dúvida, apresentada por Eliana de Santana, é sobre a existência de um mercado, para além dos editais. Já Karin Serafin, além de reconhecer o mercado, afirma que os artistas estão sendo atropelados por ele. O que parece se sobrepor é uma ideia mercadológica de assinatura – o que às vezes determina o fim de alguns formatos que foram mantidos em resistência por anos – uma questão muito presente no atual momento político do Grupo Cena 11.

Os artistas constatam que as conversas sobre condições de existência se tornam uma supremacia na relação com qualquer questionamento ou discussão de natureza estética ou artística.