por Carlinhos Santos, 2016

 

Na segunda mesa do Modos de Existir, o tema foi: Edições e Editoras: Perspectivas de Mercado e reuniu Adriana Banana, do Festival Internacional de Dança – o FID, de Belo Horizonte; José Roberto Barreto Lins, da editora Annablume, de São Paulo; Clívia Ramiro, das Edições Sesc, São Paulo e Sigrid Nora, idealizadora da Coleção Húmus. As provocações foram da pesquisadora Christine Greiner, com mediação de Marcos Villas Boas.

Christine Greiner abriu a conversa provocativamente, afirmando que as perspectivas não são boas para o mercado das publicações sobre dança. “O momento é esquisito, pois nunca houve tanta obrigação de publicação nas universidades por causa do Currículo Lattes. A ideia é que a universidade virou quase um feirão de publicações, mas é preciso seguir por outro caminho.”

A discussão filosófica e intelectual, seguiu Christine, toma outra direção, pedindo algo que tenha relevância, que vitalize o segmento. Segundo ela, a história cultural nega o “quantificável” nas discussões, mas convive com isso o tempo inteiro.

Para as editoras, observou a pesquisadora, a hora é de repensar. Afinal, não se consegue viver só da venda de livros. A equação é complicada pois ninguém compra, mas todos reproduzem. E há, ainda, a dificuldade de distribuição. Outra questão que também emerge é a seguinte: afinal, qual é o tempo dedicado à essas leituras?

Em tempos de pirataria, do embate da permanência dos direitos autorais versus o ambiente da internet, também surgem outras dúvidas: o que vai acontecer com o livro? O livro é algo sem importância, algo que não dá dinheiro? Como o autor vai viver?

As questões retomam velhos embates: escrever e criar não são hobby, ser artista não é hobby. Essas funções geram trabalhos também de caráter imaterial, seja um livro ou uma obra em outro formato. Então, como o artista e o autor estarão vivendo hoje? Com quais apoios? Para não ser refém do mercado, quais seriam as estratégias de sobrevivência ou de manutenção? E, ainda, outra questão imbricada: como fazer para continuar fazendo o que se precisa fazer? Christine sugere uma resposta sintética para as várias questões: “tem que ter relevância”.

Nas Edições Sesc, a relevância e a pertinência dialogam com a programação que as diversas unidades da instituição mantêm. Em suas colocações, Clívia Ramiro destacou que há um pensamento que atravessa as escolhas dos títulos publicados. Além dessa afinação e diálogo com as programações, eles contemplam a perspectiva de que a linguagem da dança é contribuinte da estética de uma comunidade.

Por isso – e para ser significativo na comunidade – os focos das seleções editoriais do Sesc são qualidade, relevância, diversidade e estímulo à pesquisa. Assim, a dança contemporânea e outras demais manifestações do corpo, presentes nas atividades das mais de trinta unidades do Sesc, são pauta, pontos e parâmetros de publicação. A difusão e circulação implicam na perspectiva da mediação.

No Sesc, há publicações de catálogo e uma editora desde 2007. Há, também, co-edições pautadas pelas linhas de atuação da instituição. Para 2016, a perspectiva é o lançamento de dez títulos. “Livros nos quais o mercado não aposta”, frisa Clívia Ramiro. Muitos são livros caros, que igualmente não seriam aceitos pelo mercado. Ela destaca que o papel do editor nesse contexto é o de fazer prospecção, pensando na instituição e no mercado.

Os livros editados pelo Sesc são avaliados por comissões, que emitem pareceres: há um controle de qualidade. Nesse contexto, Clívia destaca o caso do livro Temas para a dança brasileira[1], organizado por Sigrid Nora. O livro contemplou eixos temáticos, a saber: “Crítica de dança e jornalismo cultural”; “Dramaturgia e dança: tendências estéticas e processos de criação”; “Produção em dança: especificidades de um ofício” e “Estratégias de colaboração para a dança no Brasil.”

Sigrid Nora destacou também a Coleção Húmus que começou por demanda do elenco quando ela era diretora da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul, entre os anos de 1998 e 2003. Havia a necessidade da constituição de um mundo referencial, mesmo a Cia. existindo fora do eixo. As indagações moveram a organização do primeiro volume, em 2004, dando forma a um veículo que organizava informações para o mundo – brotava da e atendia à necessidade de sobrevivência.

Isso tomou o formato de uma coletânea de artigos e ensaios que dão visibilidade não só para a produção da academia. Também torna visível os artistas e suas obras. A ideia chegou à quinta edição, lançada no Modos de Existir, desta vez organizada pelo jornalista Carlinhos Santos e dedicada à crítica de dança.

Adriana Banana, do FID, o Festival Internacional de Dança de Belo Horizonte, disse que começou a pensar nas publicações do festival como um gesto contrário à cultura dos catálogos “contrl c + contrl v”, de releases para veiculação em publicações caras. Queria algo mais significativo e acessível. Para tanto, chamou pessoas para escrever sobre os trabalhos programados para o festival. Pessoas vindas das graduações e também muita gente da dança assinam os catálogos do FID.

Mas Adriana também expôs um dilema: continuar a fazer ou não? Para que serve o esforço? Quais são as estratégias para continuar a existir? Quais são as estratégias para chegar ao leitor?

Christine Greiner interveio, afirmando que há, sim, a necessidade de criar a rede. Ou temos que pagar pela publicação? A distribuição é, sim, um problema, o custo dos livros também. “Estamos numa encruzilhada, que é a questão da relevância”, repetiu ela.

Adriana Banana citou a emergência de publicações na área a partir do mote conceitual da crítica e pesquisadora Helena Katz e a afirmação de que “a dança é o pensamento do corpo”. Para ela, a questão é, ainda, o investimento na formação de público para esse tipo de livro, inaugurando também outras economias.

A pesquisadora Thereza Rocha reafirmou que, sim, tem muita coisa bacana acontecendo nesse setor. “Há força de vida nas graduações para alimentar as novas publicações. Não dá para pensar na hipótese de não fazer mais. Existe um descompasso entre os que querem ler e a dificuldade de manter essa rede de publicações. A situação é grave, mas se retroagirmos no tempo, há uma diferença significativa e um crescimento das publicações na dança”, complementou. Para Thereza, leitor de dança não é só aquele que está na universidade e nos moldes acadêmicos. “Há equivalência na distribuição e comercialização de livros de dança como no ‘jabá’ da música?”, questionou ela.

Christine Greiner salientou que “não é o momento de desistir. É o momento de viabilizar, pensar sobre, pois todos querem ser lidos”.

[1] Nora, Sigrid. Temas para a dança brasileira. São Paulo: Edições SESC SP, 2010.