José Roberto Barreto Lins Filho – Editor e diretor da Annablume Editora
texto produzido para a mesa Coreografias Editoriais
Modos de Existir 6 – Publicações
Organizado por Carlinhos Santos, 2016

 

Pensar as relações entre publicação e dança hoje passa por uma reflexão sobre o papel das editoras. Num momento quando levar conteúdos para uma, digamos, esfera pública, se tornou uma banalidade, por que ou para que existem editoras? Se hoje é possível a auto publicação por vários meios, seja em um blog, pelo facebook, construindo e alimentando pessoalmente um site… Ou mesmo encomendando em uma gráfica a diagramação e impressão de seu próprio livro, qual a necessidade do autor de procurar uma casa para publicar seu trabalho?

Essa foi uma discussão muito séria e penosa pela qual passou a Annablume anos atrás. Nós começamos em 1993 editando e publicando o Selo Universidade. Uma coleção cujo propósito era divulgar entre os acadêmicos a produção universitária que ficava restrita à instituição onde foi defendida. Lembro que era um tempo antes da internet. Eram pequenas edições de trezentos exemplares que, embora tivessem um formato de pocket book para tirar o ranço da apresentação pesada das teses, mantínhamos seu conteúdo, os textos circulavam como tese ou dissertação. E o propósito de quem publicava era divulgar seu trabalho, levá-lo para o debate! Já o critério de seleção era: se o trabalho foi defendido numa instituição de prestígio, merece ser publicado. No entanto, com a entrada do meio acadêmico brasileiro na internet, lá pelos anos 2000, o Selo Universidade, que chegou a ter quatrocentos títulos, perdeu seu sentido. E a atuação da Annablume foi colocada em cheque.

Para complicar mais a situação, foi também por esses anos que se implantou o ranqueamento da Universidade Brasileira, com o ministro Paulo Renato, ainda na gestão do FHC. Pesquisadores e departamentos passaram a ser avaliados segundo sua “produção”. A Capes, que é o órgão que controla essa avaliação, começou a atribuir pontos conforme a atividade. E a publicação era um dos quesitos. Isso gerou um fenômeno, que assola a universidade aqui e em vários países pelo mundo, conhecido como “produtivismo”: o acadêmico passa a se dedicar a atender a essas demandas burocráticas. A editora recebeu toneladas de originais solicitando publicação. Muitos com verbas de departamentos e todos com indicação para publicação das bancas. O problema: não se queria mais a divulgação do trabalho para o debate, para mostrar sua relevância; mas sim para efeitos de pontuação e avaliação por parte da Capes. Ou seja, não se queria uma editora para publicar, mas uma gráfica que produzisse livros.

Enfim, nossa primeira questão foi tentar entender porque continuar com uma editora, qual seria o papel da Annablume nesse novo contexto. Para por o pé no chão, o primeiro passo foi diferenciar publicar de disponibilizar. E esta me parece ser uma questão-chave.

Veicular informação hoje basicamente se dá por dois procedimentos. Pode ser pela publicação ou pela disponibilização. Se for uma informação publicada, significa que foi uma informação apreciada como relevante de acordo com a coerência de um projeto editorial. Foi selecionada num contexto, editada e lapidada para se tornar compreensível a um determinado grupo de leitores e veiculada de forma competente para ser alçada a público. E isso pode se dar em diferentes suportes: num livro, num blog, num site, etc.

Já disponibilizar significa colocar um conteúdo à disposição de quem queria acessá-lo. Para esse fim, o leitor não é um outro: é o espelho do emissor. E se subestima ou se desconsidera que a sociedade já construiu um debate a respeito do tema abordado. Ou seja, disponibilizar um conteúdo significa atender a uma demanda do emissor, seja de uma perspectiva individual ou institucional, como a veiculação de uma produção endógena de departamentos universitários voltada para fins estatísticos produtivistas. Acontece sem editora: na ação direta do emissor ao colocar o conteúdo na internet ou na contratação de serviços de disponibilização sem os critérios da publicação.

Voltando ao publicar, ele pode ser concebido de duas maneiras diferentes. Uma está mais ligada à atuação do publisher, a outra, do editor. São duas linhas que dão dois procedimentos editoriais, ambas lutam por reconhecimento público mas com fins diferentes. O publisher é um animador cultural antenado. Com sua competência e agilidade, ele reconhece e lapida uma produção, mesmo ainda embrutecida, para que fique “azeitada” e ganhe maior repercussão no prazo mais curto possível. O publisher se pauta por uma ação pontual, sintonizada com uma oportunidade.

O editor, por sua vez, trabalha na perspectiva da inserção do novo em um processo. A informação a ser veiculada deve passar por uma maturação, fazer diálogo com um conhecimento vigente e ao mesmo tempo trazer uma contribuição inovadora. Para realizar essa avaliação, o editor se ampara num grupo de especialistas ou de analistas simbólicos, atuando em duas instâncias: uma interna para realização do acontecimento do texto a ser veiculado, e outra externa, na colocação dessa mensagem na esfera pública.

Daí chegamos ao papel da editora hoje. No caso da Annablume, pelo seu perfil de atuação, está mais próxima a ação do editor. Quem dá a retaguarda de avaliação dos textos que serão publicados são pessoas ligadas à Universidade. Temos um grupo de especialistas com uma visão clara da relevância das publicações. É dessa forma que construímos nossos critérios, por exemplo, para publicar sobre dança ou manifestações do corpo. Porque é na seleção da informação a ser publicada, na montagem do entrelaçamento desta informação com outras, que se constrói um bem comum. A nosso ver, participar de uma esfera pública é oferecer contribuições para a construção de algo em comum entre as pessoas. Pois uma editora, que só tem sentido ao publicar, é um projeto político, e no nosso caso a proposta é prestigiar segmentos da universidade que estejam comprometidos com uma visão de produção do conhecimento como uma coisa viva, que ultrapasse as barreiras da própria universidade e tenha ressonância fora dela, na sociedade. Longe, portanto, das demandas do produtivismo. E perto de proposições para novas formas de convivência.

Mas é importante ficar claro que, mesmo com esse perfil, a editora é uma outra instância de reconhecimento. A Universidade dá o reconhecimento acadêmico. Já a editora dá o mérito da relevância da publicação. E este distanciamento é fundamental para se criar uma cultura de publicação. Porque uma coisa é analisar a qualidade de uma tese, de um estudo, no contexto da instituição onde ela foi defendida. Outra é dizer que ela merece ser publicada, levada a integrar uma esfera pública por trazer algo relevante a todos. Esta é uma operação pautada por dois procedimentos éticos: solicitar a atenção do leitor para algo no qual se acredita existir alguma contribuição. E deixar claro ao leitor que ali há uma visão sobre o tema tratado. Ou seja, funcionar como uma espécie de bússola nesses vastos e turvos oceanos que tornou a cena pública hoje devido à gigantesca e desumana quantidade de informação disponível. É dessa forma que entendo que se constrói uma linha editorial.