Agosto de 2017

Por Rodrigo Andreolli

 

RODRIGO: Paula Petreca foi curadora do módulo 5 do Modos de Existir do Sesc Santo Amaro, módulo que tratava de Intervenções Urbanas como tema principal. Como foi o processo de curadoria do módulo, de onde você partiu e onde chegou esse processo?

 

PAULA: Quando o Villas me convidou para fazer essa curadoria, acho que veio do interesse sobre as intervenções, da instituição também pensar a dança fora do palco, mas construindo contextos. Aí quando ele me chama, toda a experiência que tenho trabalhando com arte fora do espaço cênico, trabalhando com projetos de arte relacional, vão entrar em diálogo. A primeira proposta de curadoria que eu fiz tem muita relação com um projeto que eu participei diretamente durante muitos anos e que até hoje sou colaboradora, que é o Festival Pedras D’água, de Lisboa, organizado pelo c.e.m. – centro em movimento. O Festival Pedras D’água, nas edições em que participei, sempre teve como proposta pensar o Festival enquanto uma obra e não só enquanto um acontecimento, uma mostra, uma programação. Mas sim como esse conjunto de trabalhos que se apresentam num período específico, juntos, constroem um espaço temporário de transformação, de abertura de caminhos. E foi muito ao encontro do que o Villas estava pensando nesse módulo Intervenção.

A gente elencou uma diretriz que era: pensar grupos que estivessem trabalhando com intervenção urbana mas que tivessem essa tônica relacional presente no trabalho, ou pelo próprio discurso. E aí, pensando numa diversidade, esse discurso estar atrelado com esse pensamento, ou com o próprio resultado da intervenção, produzindo esse contexto. A princípio, a gente fez uma grade enorme de grupos, pensou-se em ter tempo, oficinas e residências, mesmo com todos juntos. Depois a versão acabou ficando um pouco mais reduzida, acho que foi o módulo mais curtinho, menos grupos envolvidos, mas acabou sendo bacana, porque de fato houve um convívio entre os grupos e trocas, trocas bastante inesperadas. Acho que os dois palestrantes que a gente convidou, o Luiz Fuganti e o Renato Ferracini, que são duas pessoas que vêm dessa filosofia muito embasada, o pensamento de Spinoza, dos afetos, do Deleuze, a questão do rizoma, contribuíram para pensar essa construção de uma arte que se dá nas relações, que se dá nos encontros, e que está criando ambientes. Acho que foi essa a experiência maior desse módulo.

 

R: Nas questões em torno de intervenção urbana, isso é muito forte, muito presente. Então queria também puxar um pouco esse papel, pegando a partir da curadoria mas também pensar mais amplamente, enquanto um artista da dança. De que forma a dança, ou o curador, pode contribuir politicamente? Acima de tudo, nesse momento em que a gente vive, quando os poucos espaços que existem estão cada vez mais reduzidos, tanto para criar quanto para pensar contexto, ou propor reflexões. Como você acredita que um curador-artista pode usar a arte, sua produção e pensamento como uma posição política?

 

P: Vem justamente nesse lugar da curadoria de se diferenciar de uma simples ação de programação estabelecendo um pensamento e focos de relação entre os trabalhos que estão envolvidos, mas criar outras linhas sensíveis que não são só o acontecimento em si do espetáculo cênico, mas aquele espetáculo na relação com os outros que serão apresentados, ou com o ambiente que se cria. Isso vai construindo reverberações e essas reverberações têm a potência de gerar novos territórios, de gerar encontros, de dar uma continuidade para uma ação que não fique eventual, acontecendo só naquele tempo-espaço no qual ela se dá, mas que ela de fato possa criar desdobramentos, que podem ser imediatos (acontece ali de dois grupos se aproximarem, colaborarem, ou chegarem em um território e têm vontade de continuar ali, aprofundar), ou podem ser coisas mais espaçadas, criando uma experiência que vai transformando o saber e quando se vê, lá na frente, há uma ligação com o que a curadoria propôs.

Eu acho que ela é política, nesse sentido de colocar… expandir, na verdade, a obra de arte nessa textura da vida. O trabalho artístico não é um produto, não é algo encerrado em começo, meio e fim, na apresentação, ou mesmo na forma final. Mas o trabalho artístico, quando o pensamento de curadoria está organizado, pensando nessas redes, ele expande para o público, para tudo que está além do próprio trabalho: a conversa, a reflexão que eu faço quando assisto um trabalho e assisto o outro, percebo o que liga ou não aqueles artistas, o espaço que o público vai construindo. E como eu falei, neste módulo dos Modos, o convívio entre os artistas cria outros afetos, outras relações, e isso também é arte. Se a gente começa a olhar para isso também como arte, a transformação é muito maior.

 

R: Em que medida o curador é um coreógrafo?

 

P: Eu me enxergo totalmente coreógrafa sendo curadora, mas talvez outras pessoas que não sejam da dança estejam também administrando essa composição de corpos, tempo, espaço, mas não é só isso… Há intensidades nesse processo. Falando bem basicamente, o momento da apresentação talvez possa ser visto de longe como o mais intenso, e aquilo tem uma modulação, concentram-se os corpos, assistem um espetáculo e gera-se uma coisa que reverbera e fica uma bolha de reflexão sobre aquilo. Quando vem um filósofo e provoca, aquilo explode.

Eu senti que houve muito esse momento, pensando bem especificamente no que aconteceu no ano passado (Módulo 5 – Modos de Existir). Havia pessoas ali também muito inquietas, Luciana Lara encontrando Jorge Schultz foi um encontro muito importante. Depois de um ano o Jorge veio a falecer, então criou ali uma reverberação que não está no controle do nosso tempo e do espaço; são dessas intensidades. Ou mesmo observar as reações que o público cria naquele espaço do entorno do Sesc, que o Villas tem trabalhado ao levar espetáculos. O público vendo o trabalho do Vanilton Laka, do GRUA, ou da Cia Gente… Depois eu vi outros espetáculos, fora da programação do Modos de Existir acontecendo naquele espaço, que têm reverberação, inclusive da pessoa citar uma cena que aconteceu. Foram momentos marcantes: pessoas de terno se pendurando nos postes (GRUA), outras pessoas vestidas… pessoas nuas que estavam vestidas com recortes de revista na performance da Luciana, então cria-se memória. E isso é político também.

 

R: De alguma maneira a dança começa a habitar aquele espaço, e habitar também as pessoas que frequentam aquele espaço.

 

P: Exatamente.

 

R: E pensar que quando a gente cria determinadas escolhas em uma ação curatorial, a gente acaba determinando um certo número de ações ou uma direção para as coisas. Mas o que escapa a isso é tão surpreendente! E nesse lugar eu vejo uma relação com o processo de criação, que te leva para lugares desconhecidos.

A partir das suas experiências, o que você acha que são modos de existir hoje que precisam ser reinventados? É uma pergunta meio utópica, mas vamos entrar nesse lugar também para pensar o que pode ser gerado, quais outros modos de existir que já não dão mais, que precisam ser reinventados?

 

P: Eu penso nisso todos os dias. Por um lado é maravilhoso porque sinto que de uns anos para cá, e eu sou de uma geração que pegou um trabalho em dança que foi se estruturando de uma maneira, não vou dizer profissional, vou dizer possível e também profissional, o que permitiu uma série de experimentações, de acontecimentos. Mas, por outro lado, foi fixando alguns campos, então todo dia sinto que é preciso abrir portas. Seja para trabalhar dando aulas e desconstruir mesmo o que é aquela aula, porque os lugares todos já estão muito dados, os papéis, professor-aluno, artista-público, bailarino-coreógrafo. Esses são modos de existir que não sinto que são da dança necessariamente, sinto que são das instituições. Então estou o tempo inteiro me perguntando onde é que a arte está pulsando aqui, por que isso é dança? Qual é esse encontro da dança? Por que isso está acontecendo? Tenho me questionado muitas coisas, sobre grupos, coletivos, sobre esse trabalho. Tenho me questionado sobre essas estruturas de sobrevivência, claro que é maravilhoso ter um edital e construir um trabalho, estar programado e ganhar um cachê, mas essa realidade está desaparecendo, e a arte não vai desaparecer, e não somos mais românticos, então tem que haver um reajuste, outras maneiras.

E quando digo que estou me questionando, sinto-me ainda pouco propositiva, sinto até nesse momento, há um ano e meio, dois anos em que estou bastante recolhida, em termos de interlocução com outros artistas, mas um recolhimento para me reconhecer e perceber onde quero atuar, porque pode ser muito legal encontrar e dizer: vamos fazer um projeto juntos? Vamos. E a gente manda para edital, e não sei… agora nem vai ter mais isso… sinto que a arte não consegue caber e se dar nesses processos muito pré-existentes.

A gente precisa inventar, e falando especificamente de dança, eu sinto que coletivo é a pergunta. Já disserem muito o que é o coletivo, já tiveram descrições maravilhosas, até colocando todos os paradoxos que estão aí, a multiplicidade, a fugacidade, mas é mais… E o entre-corpos? Pode ser múltiplo, pode ser diverso, pode durar um segundo, mas eu tenho sentido esse entre-corpos pouco possível, falo de mim mesma, de me colocar em situação… coletivo? Sinto que é uma pergunta.

 

R: E essa questão tem a ver com o tempo em que vivemos, socialmente, politicamente? Ou tem a ver com um desenvolvimento do que seja a dança, o pensamento entorno…

 

P: Essa crise, digamos, das formas coletivas, ou das formas mais-que-um, é uma construção da qual a gente é um pouco vítima mas é sujeito. Porque somos todos concorrentes em algum momento, em alguma instância, e isso em um processo de muitos anos vai desarticulando as pessoas e desinteressando. Porque eu não posso olhar mais o seu trabalho como algo que me afeta, eu olho como algo que me instiga, me interessa, me inspira, para eu estar próximo, ou como algo que não me interessa, é problemático, para eu me colocar distante. Então fica muito binário, não tem outras formas de atravessar.

 

R: E isso vem da perpetuação de uma maneira de produzir…

P: … de trabalhar…

R: … de estar…

 

P: Eu me coloco muito nesse lugar porque trabalho na rua. Há muito tempo eu não crio nada em que estou atuando em espaço cênico e por que fiz essa escolha? Fiz quando tinha meus vinte e poucos anos, mas faria hoje também… eu queria estar onde tinha gente! E se eu fizesse coisa no teatro, eu não era conhecida, não teria gente…. era muito naif… Mas a reverberação disso é de uma urgência. Assim, entender com quem estou falando e com quem eu posso falar e quem pode falar comigo também. Porque no Brasil, mas também em outros lugares, você vai ver espetáculo e só tem artista, e é legal trocar com artista mas é legal até um momento. Porque não é para isso que a gente faz arte, ou que a gente está em cena, está em risco, está em criação, e a sociedade precisa muito estar em contato com o sensível, porque as formas do neo-liberalismo estão… desumanizadas, mesmo, as pessoas estão todas desumanizadas. Eu falo isso porque hoje em dia trabalho muito mais com criança e é chocante ver numa criança a potência humana sendo o tempo inteiro vetada, e sinto que a gente enquanto artista tem uma responsabilidade nisso, dessa sociedade sedenta por uma coisa só e desensibilizada.

 

R: Mas a gente, em alto grau, também está… e talvez a primeira quebra a ter que ser feita é na gente mesmo, porque estamos completamente presos dentro de um sistema de produção, neo-liberalismo, a própria maneira como a gente pensa construção de espetáculo de dança….

 

P: Você leu a última coluna da Eliane Brum na qual ela fala sobre o caso dos moradores de Pinheiros, sobre o catador de papelão da região que foi assassinado pela policia? A população se mobilizou, as pessoas se mobilizaram por um morador de rua. Ela fala uma frase que está comigo há umas duas semanas, ela escreveu: para o real coletivo, a gente vai ter que abrir mão; abrir mão de coisas, e a gente tem que estar disposto a perder compromissos, horários, outras coisas para poder ter esse momento juntos… e acho que é onde a gente está preso agora…

 

R: Dentro desse projeto de organização do arquivo do Modos de Existir, temos pensado muito como organizar arquivos, acervo, pensamento…. é uma questão que nos toca e a gente quer ouvir a reflexão de cada uma das pessoas que a gente encontra, para continuar pensando a relação entre a produção em dança, produção coreográfica e a transmissão de conhecimento através de outros meios, através da escrita, dos arquivos… As diferenças entre arquivo, registros, acervos… como gerar material? Mas não apenas gerar, deixá-lo vivo, circulando, e de alguma maneira, continuar pensando sobre as coisas para que virem conhecimento, virem corpo e consigam penetrar e infiltrar outras camadas que não sejam só esses núcleos que produzem… Qual a sua visão desse lugar, dentro e fora das instituições?

 

P: Tenho pensado muito sobre a importância da dança em se afirmar como lugar de conhecimento, de produção de conhecimento. A gente está no mundo, olha o mundo, olha São Paulo, a dança sendo colocada como produto, igual paçoca, igual Barbie… Dança virou um produto, você compra a fórmula pronta. Então, se a gente não lembra que isso também é produção de conhecimento, é pensamento, é transformação de vida, é vida, a coisa vai ficando muito estreita. Esse lugar de produzir, não só ligado à escrita, que está ligada à reflexão, e a reflexão é prática, e prática é pensamento… Isso precisa estar visível, acho que a gente ainda falha muito nisso, porque você olha uma pesquisa de mercado, ela está estampada nas capas de revistas, ela chega nesse grande público – é uma armadilha também pensar em grande público. Mas… como que esse conhecimento que a gente produz vai ficando mais visível e mais acessível? É importante que os arquivos possam ter múltiplos acessos, às vezes pode haver lugares onde vai ser mais aprofundado, mais específico, outros onde ele vai precisar ter documentação de fatos, de personagens… A gente falha muito em fazer isso.

Eu trabalhando em instituições públicas, já é o terceiro projeto do qual me desligo e que será apagado. O trabalho feito é apagado, some, vira outro e ninguém sabe o que aconteceu. Eu vejo que sempre foi assim. Então quando temos essas iniciativas de arquivo, eu sinto que a gente entende muito como um passado vem à tona. E como perceber que não é um passado? É uma memória que está aqui presente e que está construindo os corpos. O fato de não saber, por exemplo, o que houve nos Modos de Existir, ou saber, me constrói. É importante pensar na articulação desse site, em como essa memória se mantém viva. Mas manter diálogo sobre a ação depois que ela passa também é produção de conhecimento, de memória; em áudio, por escrito… eu penso nessa multiplicidade.

 

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