Agosto de 2017

Por Clarissa Sacchelli e Rodrigo Andreolli

Transcrição de Rodrigo Andreolli

 

RODRIGO ANDREOLLI: Ana, você foi curadora do módulo 3 do Modos de Existir: Companhias, Grupos e Núcleos. Pensando um pouco sobre o que é a curadoria e o que é ser curador, como fazer da curadoria uma proposta artística? A curadoria tem essa função?

 

ANA TEIXEIRA: Acho ótima a pergunta e digo que ela é ótima porque penso que o que fiz para o Modos de Existir não foi uma curadoria. Acho que temos um problema sério se não olharmos para conceitos que já estão aí para tentar reposicioná-los. Então, por exemplo, a gente fala curadoria, produtor, professor, palestrante, seja o que for, mas de maneira genérica, cabe tudo nesses nomes. Eu não posso fazer curadoria porque não sou curadora, não estudei para ser curadora, essa não é a minha profissão. Fui chamada pelo Villas, que já tinha um recorte para uma proposta, para ajudar a fazer essa proposta andar.

 

R: Dentro desse processo do Modos, então, você chegou nesse recorte, que já havia sido proposto, e a partir disso vocês desenharam uma programação?

 

A: O Villas já tinha claro o que queria discutir, de onde vinha a proposta dele, o que o inquietava. Como ele sabia que estudei no meu doutorado a questão das companhias oficiais no Brasil, isso o estimulou a me chamar. Então, como pensar a questão da nomeação “grupos”, “companhias” e “núcleos”, o que há de comum no tipo de organização que eles têm? Companhia pública? Grupo? Núcleo? Eram essas as perguntas que eu estudava e tentei alinhavar dessa forma. Entender a natureza de cada um desses nomes que ele trouxe, formulando perguntas para cada um deles, criando textos. Então pensei, se vamos chamar os grupos, companhias e núcleos, nós vamos chamá-los para quê? Para se apresentarem? Para discutir? Discutir o quê? Estar juntos como? Como é possível juntar todas essas pessoas? Nesse sentido, pensei, será que não valeria organizar um grupo de estudos? Será que há interesse dos artistas estudarem, no sentido de repensarem o seu fazer a partir do seu modo de existir? Como repensar juntos? Convidei a Christine Greiner para trabalhar comigo, a gente fez um conjunto de discussões e fomos tentando mexer um pouco na lógica desse modo de existir, de fazer um trabalho, de fato, juntos. Tinha a ver com suas discussões, pensar a lógica do homem político, do homem econômico, o que significa o público e o privado, coisas que estavam ligadas à essa discussão. Então ela seria uma provocadora e eu seria a mediadora da conversa com os artistas. De uma certa forma, essa mediação não se fez tão necessária, porque era mais uma conversa, mesmo. Como, então, fazer essa conversa? Porque se a deixamos aberta, não conseguimos conversar, pois são muitas pessoas. A gente trabalhava em círculo, de forma proposital, para se olhar em um espaço comum. Nós ficamos uma semana discutindo das duas às seis da tarde, todos os dias, as questões que se afinavam nessa proposta sobre grupos, companhias e núcleos.

Foi interessante unir artistas que eram independentes, aqueles que eram “fomentados”, e os que estavam vinculados à municipalidade ou ao estado diretamente, ou seja, quem recebe verba pública sem vínculo direto com o estado/município e aqueles que eram uma instituição de fato pública, com toda a verba vinda dos fundos públicos. São modos de existir muito distintos mas com os mesmos títulos, entende? Começamos a perceber que esse não era um ponto muito pensado. Quando fizemos entrevistas com os participantes, muitos não sabiam exatamente porque se nomeavam de determinada maneira. E quando passavam a entender o que estava implícito no nome, durante as discussões, percebiam que havia algo ali para se pensar. Porque de uma certa forma, como você se nomeia é como você entende seu próprio fazer. Então, no momento em que eu nomeio “companhia”, eu não posso apartar esse conceito da sua história.

 

R: Qual o salto desse entendimento de companhia de dança e grupo, para o conceito de núcleo?

 

A: No caso aqui de São Paulo, núcleo traz uma questão que é administrativa. Esse termo era usado, por exemplo, no Edital de Fomento ao Teatro. Você precisava da rubrica “núcleo” para se inscrever. A partir de 2006, muitas companhias que tinham outros nomes passam a ter o título “núcleo” na frente. Então, essa era a porta de entrada para a concorrência em um edital. Um nome administrativo.

 

R: Como essa transição para um nome, que cumpre uma função administrativa, reverbera na organização estrutural do trabalho?

 

A: Quando você entra no mundo administrativo, passa a ser um pessoa jurídica, não há como separar a vida jurídica da vida artística. Se você produz a cada semestre, mantendo um mesmo hábito administrativo, sem perceber, esse hábito administrativo é cognitivo e se é cognitivo…

 

R: Você consegue traçar qual foi a trajetória daquele evento, daquele acontecimento, durante o módulo? De um ponto de vista coreográfico, da organização dos elementos e das ações no tempo, como essa estrutura surpreendeu vocês ou trouxe novas questões ao longo do processo?

 

A: Temos que entender o que é trabalhar como uma instituição. A proposta do Modos de Existir é bastante aberta, sempre há uma margem para se trabalhar, mas ainda está dentro de uma instituição. De qualquer maneira, trabalhamos com um grupo bastante expressivo de participantes, não sei exatamente quantos, das regiões Norte, Sul, Leste e Oeste. Parece que nos desabilitamos a uma conversa mais coletiva. E a ideia dos grupos de estudo era para isso também. Será que a gente ainda consegue conversar sobre o nosso fazer, juntos?

Houve alguma coisa que me surpreendeu? Não, porque é um sintoma do que está aí. Um sintoma nosso, em função de todas as questões que estamos estudando, a incapacidade de comunicação está muito grande, por mais que nós estejamos no mundo da comunicação. Quando eu me defronto com o outro, não sei como reagir com a colocação dele, que está na mesma situação que a minha. Há também questões de realidades. Como falar ao mesmo tempo do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília, do Rio Grande do Sul? Então, os projetos só passam a ter alguma possibilidade de articulação, quando a gente começa a situar um pouco mais. Sair do plano da generalização. Não dá mais para achar que um nome coloca todo mundo na mesma instância. São formas de organização, uma rubrica que talvez nunca tenha sido questionada. Eu não questiono se sou de um grupo, ou de uma companhia, porque essa relação que existe, ela já é uma organização institucional. A gente se organiza de uma forma institucional mesmo quando está sozinho.

 

R: Porque a gente depende desse tipo de organização para se legitimar dentro de um esquema de produção. E levantar essas questões, ao redor desses nomes, é buscar maneiras de se organizar socialmente. São também traços de uma história, contam alguma coisa para a gente, justamente. Como o nome sempre carrega uma estrutura, então nos faz pensar como está ligado historicamente a um tipo de pensamento e organização.

 

A: E quando você vê o que está por trás do nome e quem está junto nesse nome, você consegue entender os vínculos.

 

R: Quando se abre um leque e se expõem essas diferenças, revelar sintomas pode ser um grande gesto, um grande avanço para o pensamento. Pois muitas vezes o sintoma não é fácil de se identificar, mas essa revelação é um passo, e então poder pensar sobre ele…

 

A: Mas a gente não vai para essa fase….

 

CLARISSA SACCHELLI: Talvez a gente esteja na afirmação de um sintoma.

 

A: Justamente, essa afirmação do sintoma se torna uma proteção: “é assim, está assim, é difícil, a gente não consegue…” A gente vai só até um pedaço e quando a coisa começa… cada um vai embora. E quando vê já foi, já passou, já foi mais uma temporada, e não deu.

 

R: Sobre a questão do tempo necessário para pontuar determinadas questões, em geral, nós sofremos com uma sensação de falta de tempo e de dificuldade de concentração, de guiar a atenção durante muito tempo em determinados assuntos, as coisas se rompem muito facilmente, sintomas que são bem contemporâneos, eu vejo esses hábitos recorrerem. É bom nomear esse sintoma, porque por mais que esteja implícito nos nossos modos atuais de produção, ele deve ser nomeado. Existe a necessidade, por exemplo, de ações mais distendidas no tempo, que construam um campo de tensão onde as o coisas possam existir por um período mais longo, sendo discutidas dia após dia, deixando com que as nuances do próprio tema apareçam, sem serem impostas….

 

A: Eu repensaria sempre se um projeto, antes de acontecer, é uma necessidade dos artistas. Os projetos que precisam de tempo viram uma utopia dentro das instituições.

 

R: Nesse sentido também, pensar esse material que estamos produzindo e organizando através do arquivo do Modos de Existir, sinto que é a possibilidade de abrir uma caixinha e continuar mexendo, puxando fios que foram lançados ali há algum tempo atrás. Uma questão que pensamos muito é a relação entre gerar conhecimento a partir da dança, do pensamento coreográfico, com a produção da escrita, do registro, da documentação. E também, como arquivar e criar acervos que não se isolem ou se encerrem, mas que possibilitem a continuidade de determinadas discussões?

 

A: Então vou entrar em uma questão: o que a gente se autoriza a fazer? Por exemplo, se falo em registro, o que autoriza vocês a fazerem um registro? O que me autoriza a fazer uma consultoria? O que autoriza uma pessoa a ser um produtor ou um programador? Ou um crítico? O que vem autorizando? Nos nossos dias, sou eu mesma quem dá essa autorização. A depender do tipo de informação que eu tive, eu vou e dou continuidade a isso, e já consigo andar e entrar em diversos espaços. Mas, por que se faz um documentário? Como é que se pensa um acervo? Por que eu faço uma entrevista? Para além de juntar informação. Que pergunta se faz para cada proposta?

Se a gente não trabalhar por essa lógica, a gente só fica cumprindo papel. Então dentro da pergunta como pensar acervo, arquivo, bibliografias, eu penso muito sobre a forma como acontece, a profusão de documentários e livros que tivemos nos últimos anos é incrível, mas quem lê? Como fazer as pessoas se interessarem por isso? Como gerar interesse pelas questões da dança, do corpo, do movimento, do acervo… de tudo que vai sendo construído, como? Isso é muito frágil, porque não estamos pensando muito sobre isso, seguimos fazendo, se autorizando a fazer um monte dessas coisas. Essa relação está muito complexa existe uma certa vulgarização nesse sentido.

 

R: Acho que justamente um ponto importante seja pensar como criar um tecido a partir desses fios que são lançados, dessa produção de coisas lançadas no mundo…

 

A: Mas só se pode criar um tecido se quem está criando estiver olhando para esse tecido.

 

R: Então, saber de onde puxar esses fios. E dessa maneira vejo o pensamento de acervo relacionado ao pensamento coreográfico. Como organizar determinados elementos que já existem?

 

A: Você consegue se você tiver uma pergunta para esse acervo. E para isso, você precisa saber o que há nesse acervo. É preciso conhecer o contexto, e partir disso, saber qual a inquietação. Que pergunta eu faço para criar a minha composição com os documentos? É como escrever um texto; não adianta ter uma biblioteca cheia de livros se eu não souber o que está em cada um deles, eu não posso fazer nada com eles. Eu preciso ter noção do meu contexto. E acho que estamos um pouco apartados disso. Meu contexto passou a ser “eu e eu mesmo”.

Eu me desconecto do contexto, me desconecto daquilo que está comigo. Então é como se tudo partisse de algo privado; como se eu fosse acervo de mim mesmo, coreografia de mim mesmo, aula de mim mesmo. Não é só uma questão da dança, é uma questão do nosso tempo, do auto-gerenciamento, que se anuncia no liberalismo. Mas agora vindo de maneira exacerbada. Então, hoje nós estamos em uma disputa, já não somos mais colegas. Assim, quanto mais eu me privar, mais terei condições de fazer o que quero fazer, como se eu colocasse uma viseira e ficasse difícil olhar para o outro.

 

C: Tenho me interessado muito por arquivo e acervo e vejo um potencial muito grande de serem instrumentos para questionar temporalidade e normalidade. Talvez me façam entender meu contexto atual e conseguir projetar um próximo por vir.

 

A: Não sei se na direção do vir a ser, mas na possibilidade de re-dizer algo. Você vai olhar para aquilo e perguntar se o acervo traz a possibilidade de re-dizer alguma coisa, de elaborar outros nexos de sentidos. Quando você muda o modo de entrada em determinado acervo, muda a pergunta para o acervo, muda tudo.

 

C: Isso remonta a questão sobre quais os modos de existir existentes e quais os modos de existir que poderiam existir. O que seria pensar modos de existir além da tentativa de apenas cartografar e nomear o que já existe? Pensar o que poderia existir. Quais os modos de existir possíveis? Por exemplo, convivência é um modo que está dado, mas de fato, não existe. Eu existo no meu núcleo, na minha companhia, no meu grupo. Mas existir coletivamente não é um modo que estamos acostumados e com o qual a gente saiba lidar, que possa ser institucionalmente existir. Um grupo de pessoas que está junto apenas para estar juntos e conviver, coexistir. O que é que pode existir agora para além do que existe?

 

A: Acho que vocês, de uma certa forma, já respondem. Porque quando o Villas começa a se perguntar, de maneira pertinente, como programador do Sesc, como acontecem esses movimentos da dança que estão aí, ele tenta mapear isso, mas ainda circunscrito em um espaço fechado. Vocês olham para esse mapa e sentem que deflagra algum pensamento, mas ainda é uma parte, da parte, da parte. Quem está lá envolvido é um grupo, ainda não dá pra falar que é da dança do Brasil como um todo, é um conjunto específico. A curadoria deve problematizar algo, perguntar algo. Quando temos um tema, a gente escolhe quais os personagens que podem ser colocados dentro deste tema. No momento que se coloca esses personagens dentro do tema, então temos que pensar qual é a discussão que se faz. Nesse sentido não podemos apenas lidar com as questões dos temas e das categorias, quem cabe dentro de qual. É um conjunto de nomes que a gente cria para tentar nomear, mas que também ficaram frágeis.

Assim, quando você me pergunta quais são os modos que existem ou modos por vir, eu te pergunto: onde? De quem? Porque sem isso entramos numa generalização. Está na hora de olhar de uma maneira um pouco mais precisa, sabe, um pouco mais inquieta com isso que a gente vêm colocando no mundo e tomando como verdades absolutas. É diferente quando alguém se diz um grupo e esse é o modo de entender o mundo. Outra coisa é: eu posso trabalhar em grupo, eu posso trabalhar sozinho, eu posso fazer performance, eu posso… tudo. E isso é complexo porque cai, de novo, numa generalização. Porque assim eu tenho que ser geral, eu tenho que caber em tudo.

Eu não posso não dar certo. É um momento muito sério que pede um recuo. Eu nunca vi uma profusão tão grande de produção de dança, teatro, livro, documentário, muitos! Mas como?

 

R: Parece que conseguir estar junto já é um grande desafio. E pensar como
“desfuncionalizar” isso que cristalizamos como ideia de estar juntos também, de uma certa maneira. Tudo parece muito ligado a resultados que são medidos de determinadas maneiras, baseados em eficiência. E talvez, esse estar junto “disfuncional”, que é simplesmente uma abertura de espaço para realmente alguma coisa acontecer, algo que não precisa ser medido, ou visto, necessariamente, mas que pode gerar algum transformação em quem faz parte desse encontro. Agora, é uma coragem entrar nesse lugar, é um radicalismo.

 

A: A impressão que dá é que entrar nesse lugar é estar fora de tudo. E o nosso grande medo é ficar fora de tudo. Percebe que a complexidade não é apenas desta profissão, da dança? Então a sensação que se tem é que se não entrarmos no entendimento de dança que está ali vamos ser execrados, não vamos estar visíveis. E nesse momento, não estar visível é a morte. Em meio a isso tudo, temos que nos atentar para a qualidade das perguntas que fazemos para aquilo que fazemos. Se deixar estar no limbo um pouco para se permitir fazer alguma coisa, se disponibilizar para outros modos de existir.