por Carlinhos Santos, 2016

 

Os artistas Gustavo Ciríaco e Carmen Morais se interligam pelo livro A Dança In Situ no Espaço Urbano[1](2015), que inclui uma análise de autoria de Carmen, para a obra Aqui Enquanto Caminhamos, de Gustavo[2]. Uxa Xavier focou na relação entre o livro Põe o Dedo Aqui[3], organizado por Georgia Lengos, e o espetáculo Mapas Para Dançar em Muitos Lugares, da Cia. Lagartixa na Janela, grupo que dirige. Zilá Muniz explanou como se deu a escrita do artigo sobre o espetáculo Lugar Nenhum, do Ronda Grupo, publicado na revista Urdimento. Claudia Müller, Inês Correa e Carlinhos Santos falaram do processo da temporada do projeto Dança Contemporânea em Domicílio e da posterior publicação do livro, com título homônimo.

A mediadora Thereza Rocha abriu as provocações falando da riqueza do encontro e do tema que propõe assuntos que mexem, instauram outros regimes de visibilidade da dança, de uma dança que se faz como escrita. E, enfatiza a pesquisadora, dança um mundo de preposições, um universo de proposições. Se na academia se escreve “sobre a dança”, na mesa e nos livros em questão, a escrita é “em dança”, “de dança”, algo que resiste a aquilo que é da ordem analítica. Ou seja, é algo que sai da revista A1 do Lattes para outros regimes, outros modos que a dança requisita para se dizer. Segundo Thereza, no suporte da escrita, a dança fica no estado do “acontecendo”.

Cláudia Müller apontou que um dos vetores utilizados para a escrita do livro Dança Contemporânea Em Domicílio[4] foi o registro de como as pessoas sentiam, de como elas dançavam consigo. Além disso, há no livro textos e artigos pontuais de artistas, críticos e pesquisadores produzidos entorno do projeto. Assim, o livro apresenta um híbrido de registro jornalístico e também de resenhas ou análises críticas. A publicação é composta por textos e imagens, incluindo aí o conceito de “artigo visual” da fotógrafa Inês Correa, que participou do debate.

A ideia, segundo Inês, é que em muitas imagens a dança desaparece, embora esteja ali, fazendo com que a comunidade, que recebe aquela dança, ganhe protagonismo. Para ela, a fotografia está na continuidade, a fotografia conduz, a fotografia leva para outros lugares. Disse que o trabalho de busca da imagem, do momento, “é mais rico se souber aguardá-lo”.

Antonio Nóbrega organizou sua fala descrevendo como foi seduzido pelas danças populares, lembrando-se de sua participação no Quinteto Armorial e, na transferência para São Paulo, como se tornou um livre aprendedor na temporada de estudos na Unicamp. “Fui um bom assimilador das danças”, disse.

Nóbrega disse que uma das questões de sua “militância artística” é a criação de um vocabulário para dança. Talvez não o único, mas um vocabulário que seja potente. No começo de sua jornada, não entendia a natureza da dança clássica ou da dança moderna. Então foi estudar. São trinta anos procurando codificar a dança brasileira, que pode ser entendida a partir de um imaginário corporal que tangencia pelo menos outros quinhentos anos de vida do Brasil.

Na interpretação de Nóbrega, há uma linha do tempo convencional na dança, que inclui clássico, moderno e contemporâneo, mas é preciso também atentar às nuances desse país híbrido, com seus arraiais, senzalas, ruas e praças. O bailarino foi contundente ao afirmar que a razão hegemônica sempre menosprezou a cultura popular, os negros e os índios, e falou sobre uma dança de classes, um estudo de matrizes, que têm uma riqueza “conversável” com a tradição europeia.

Antonio Nóbrega foi enfático ao questionar sobre onde, enfim, está a tal fusão do erudito com o popular. Como isso será feito? O que o Ocidente diz para a gente no corpo? As perguntas provocativas dão lugar a afirmações, convicções: “A dança existe a partir de qualquer linguagem, o Ocidente se exauriu em termos lúdicos, o popular ainda tem muito a dar.”

Para Nóbrega, o que cabe aos bailarinos, pesquisadores e à cena é fazer uma fricção criativa pois, no contexto da dança, ainda não temos um Guimarães Rosa ou um João Cabral de Melo Neto. “A gente não tem uma dança brasileira como tem uma literatura brasileira. Nos falta representação. A periferia brasileira não está na dança, há um umbral. Me dedico a esta transposição”, afirmou Nóbrega.

Thereza Rocha interveio dizendo que, sim, é preciso achar outros modos de existir (e produzir dança, pensar dança) diante do eurocentrismo. Por isso defendeu a busca de outros regimes de escrita para fazer frente ao discurso e ao logos posto.

O bailarino e coreógrafo Gustavo Ciríaco problematizou a questão: “como traduzir o que foi visto para quem não viu?!” Esse, segundo ele, é um dos grandes desafios das escritas sobre dança. Gustavo acredita que uma escrita sobre dança precisa fazer a dança “re-acontecer”, “re-atualizá-la”. Como traduzir e como lidar com o perigo do “tradutor mentiroso” foram também questões ponderadas pelo criador que acredita nos recursos da literatura para alcançar a dimensão da experiência da dança.

Carmen Morais falou da relação da dança com a cidade, seu objeto de pesquisa, que derivou no livro debatido na mesa. Uma de suas questões foi sobre as danças que não acontecem só no palco e, de novo, o embate se coloca: como registrar, como dar camadas de leituras às cidades e às danças que ocorrem nelas? Como reconstituir sentidos? Novas questões operativas para as quais Gustavo dá uma resposta pontual: “O texto é plataforma sensível de derivação”. A partir daí, mudam os leitores. Mil leitores, mil escritores da obra acontecem.

Zilá Muniz transpôs o dilema da escrita para o ambiente acadêmico. E para a mesa de debates do Modos de Existir. A coreógrafa e pesquisadora catarinense disse ter vivido um impasse na preparação de seu artigo para a revista Urdimento. O embate era como escrever sobre dança para a academia e como isso seria aceito. O recurso utilizado foi conceber uma escrita como coreografia das palavras, pensando no destinatário dessa escrita. Interessava saber, e muito, quem seriam seus leitores. Para tanto, usou o mesmo modo operativo da composição coreográfica do espetáculo Lugar Nenhum, do Ronda Grupo.

Sigrid Nora, uma das curadoras do Modos de Existir, contribuiu dizendo que, no referido artigo, Zilá tem um “um jeito dançado de escrever”. Thereza Rocha disse que, na escrita, há um modo de lidar com a sedução da memória, que não descreve, inventa. Logo, escrita não é resgate, escrita é uma operação selvagem; escrita é processo. Conclama que é preciso sair do descritivo por uma busca da estesia da escrita.

Zilá Muniz seguiu contando que em um dos capítulos de sua tese de doutorado trabalhou com o conceito do “ritornelo”, desenvolvido por Gilles Deleuze, como partitura de escrita. Thereza Rocha interveio, acrescentando que conceitos emergem das obras de dança. Então, “esses conceitos precisam ser enunciados, escritos”.

Uxa Xavier entrou na conversa e recuperou uma das falas de Thereza Rocha, pontuando: “a dança se faz com escrita para ativar a dança”. Aí, se questiona: “o que estou fazendo?” A reflexão afirma seu modo de operar: verbos acionam movimentos. Isso deriva para aquilo que ela quer dizer com a dança e também sobre sua atuação como professora para crianças. Então, afirma: “lugar de dar aula de dança para criança é um desafio, é emocionante”. Para Uxa,Xavier o fundamental é não ser professor espelho: “nunca fiz ditado, sempre dancei”.

Segundo Uxa, trabalhar com crianças é uma escolha política, poética e afetiva. Estética, também dá para depreender. Ela acresce que “tudo é construção”, uma postura que exige compreensão pela criança. A construção é feita de encontros, que pedem a vivência de novos encontros. Assim, a prática corporal é movida “para onde o verbo leva o corpo”.

A coreógrafa e criadora também festejou o fato de estar pela primeira vez debatendo temas entorno de seu trabalho “numa mesa de gente grande”. Falou sobre o trabalho com crianças que vivem entre o cimento de São Paulo, sobre os lugares da cultura da infância e disse que dar aulas é um processo sobretudo das crianças. Lembrou que é tradição de seus grupos nunca encerrar os espetáculos, nem receber aplausos. É a demonstração de que seu modo de operar é outro. Por isso, o espetáculo Mapas Para Dançar em Muitos Lugares é um convite para que as crianças ocupem o que é delas, a cidade. O mote da ação é uma pergunta: “o que você diz para a gente?” E provocações passam longe do “não faça assim”, mas incluem o “sinta assim, perceba assim”. São mapas de percepções do lugar do corpo.

O debate teve uma provocação feita por Antonio Nóbrega. Ele disse que, apesar do verbo “organizar” ser meio perigoso, “é preciso organizar o universo corporal brasileiro”.

“O Brasil vive um dilema: tem uma conversa mal feita entre a ordem e a desordem, tem muita mãe e não tem pai. A gente vive o achincalhe da desordem todo o dia. Algo está errado neste país”, disse o brincante Nóbrega, acrescentando que pensa na educação como uma possibilidade de treinar a ordem para a emoção. E, logo, treinar a arte é uma forma de educar. Seguiu, então, provocando: “ordem, estrutura, técnica, são palavras meio amaldiçoadas na dança contemporânea.”

A conversa teve intervenção da pesquisadora Ana Terra que destacou a importância das escritas também para o campo pedagógico, para registrar e documentar os processos dos artistas e de suas obras. Ela acredita que as escritas que foram foco da mesa de discussão, bem como as demais, são multiplicadoras de obras, do que está por trás dessas obras, são uma cartografia para saber como se chega a elas, o que está em construção. Festeja a quantidade e os tipos de publicações, dizendo que são motivadoras.

A coreógrafa Dani Lima afirmou que considera estimulante a ideia de “conversa dançada”, exercício experimentado em outra frente da programação do Modos de Existir 6. Ela explora a pesquisa organizada no livro Gesto – Práticas e Discursos[5], no qual, por exemplo, a antológica cena do beijo do filme A Um Passo da Eternidade, evoca outros e outros beijos. Citou Isabelle Launay, entrevistada no livro, para quem “somos produtos de gestos que nos ninam, nos carregam, olham…”.

Segundo Dani Lima, “o movimento dançado rege o discurso”. E o livro publicado é suporte, os verbos ecoam: levantar, baixar, ceder, esperar. Logo, muitos livros (publicados) podem gerar muitos gestos de escritas. É provocativa e saudável a migração de mídias: do corpo para o livro. Assim, outras questões também emergem: que livros escrever, que gestos escolher?

O verbo está no infinitivo, abrindo muitas possibilidades.

[1] Morais, C.; A dança in situ no espaço urbano. São Paulo: Lince, 2015
[2] Aqui enquanto caminhamos estreou em 2006 no Alkantara Festival em Lisboa e circulou por diversas cidades do mundo.
[3] Lengos, Georgia. Põe o dedo aqui: reflexões sobre dança contemporânea para crianças. Organização: Georgia Lengos. Prêmio Funarte Klauss Viana, Pesquisa prático – teórica Balangandança. São Paulo: Editora Terceira Margem, 2006.
[4] Müller, Cláudia (org). Dança Contemporânea em Domicílio. Rio de Janeiro: Projéteis, 2013.
[5] Lima, Dani. Gesto: Prática e Discursos. Rio de Janeiro: Cobogó, 2013.