O quarto encontro provocativo do Modos de Existir, promovido por Villas no SESC Santo Amaro (dia 31 de agosto, sexta-feira), contou com a presença do filósofo Peter Pál Pelbart. Passados três dias de trocas e diálogos, algo na configuração do Espaço das Artes havia se modificado… A disposição estilo “sala de aula” foi retomada, só que dessa vez inspirava áreas livres, “vacúolos de silêncio” (como reivindicava Deleuze?), para uma escuta possível dos desejos e afetos ali engendrados. Embaralhados na “plateia” estavam os coletivos — entre um ou outro “público” interessado –, sendo inicialmente atravessados pelo filme-provocação Zelig, do diretor norte-americano Woody Allen. “Como podemos nos ‘zeligar’ ao Peter e ele a nós?”, lançou a questão Nirvana Marinho, mediadora dos encontros. Como os artistas, em coletivo, se influenciam mutuamente, se veem um no outro; como se apropriam ou colaboram um com o outro?

Peter começa por citar o filósofo Kuniichi Uno, autor de A gênese de um corpo desconhecido (n–1 Edições), propondo com ele problematizar a ideia de indivíduo enquanto massa corpórea de limites visíveis. Em que medida é possível arrebentar os contornos do corpo? Pense: como indivíduo, Hijikata já era um coletivo. Frases assim, carregadas de uma cintilante simplicidade, atravessavam a sala e os corpos que ali estavam. Uma rolha flutuando num mar revolto de acontecimentos… você já se imaginou assim? O acontecimento é mais importante do que nós, eu ou você. E não o contrário. Ou como diria Nietzsche, “eu sou filho da minha obra”.

“Estar em coletivo é uma convivência que me permite um devir louco”, fala Peter. Façamos um exercício: pense no devir-cão de uma criança. Há um arrastamento mútuo nesse encontro quase mimético que forja uma terceira coisa. A criança já não é nem ela própria nem cão. Ocorre uma mutação, um devir-outro, que para Peter é o mais interessante nos coletivos.

Outro a ser citado é o sociólogo Gabriel Tarde, para quem no mundo há apenas duas coisas: imitação e invenção. Ou seja, no processo de imitação, as variações produzem invenções que não possuem dono. Uma espécie de copyleft produzido pelo homem comum – e não por um gênio. Nessa lógica, patentear uma invenção seria o sequestro de um bem público. Não há autoria possível.

Mas atenção para um alerta vital: “Há que se pensar onde somos estrangulados e onde estrangulamos o outro. Coletivo é também um certo jogo de singularidades”, fala Peter, lembrando o estudo de gestos autistas feito por Fernand Deligny. Como não ideologizar o coletivo? Fazer dele o não zelig de si mesmo? Que corpo coletivo desconhecido é esse que se quer forjar? É possível pensar no que diz esse devir?