A partir de Corpos de Passagem, de GRUA.

Segundo relatos de seus diretores e intérpretes, GRUA existe há mais de doze anos, e, inicialmente, a proposta era fazer uma espécie de pelada de futebol na Avenida Paulista, assim como jogadores profissionais de futebol fazem no seu tempo livre, priorizando o prazer e a diversão, na tentativa de relaxar das tensões da atividade que se tornou profissão para estes indivíduos, a dança profissional.

Com a exceção do lugar, a metáfora se apresenta coerente na medida em que os propositores iniciais de GRUA eram todos bailarinos de uma companhia oficial, o Balé da Cidade de São Paulo. A pelada inicialmente era executada com roupas comuns, o que com alguma frequência causava reação das autoridades, que não raramente culminava com os grueiros assumindo a posição de revista, com pernas abertas e mãos atrás da cabeça.

A frequência das investidas policiais levou os grueiros a trocarem de estratégia, ou melhor, de roupa: deixaram de lado as vestimentas comuns e assumiram um elegante e imponente terno escuro e respeitosos sapatos pretos. A nova roupa/estratégia não só mudou a postura que policiais e transeuntes tinham com relação aos grueiros, mas além disso, inaugurou algo na soma rua + terno + comportamento.

O histórico de GRUA é capaz de informar sobre a importância da arquitetura social na concretização de projetos artísticos que podem ser classificados como intervenção urbana.

Lidar com apresentações em espaço público é acima de tudo lidar com um tipo de expectativa de resposta da audiência que comparece ao espaço urbano, a qual é totalmente diferente da expectativa existente no público que vai ao teatro. Por mais que teatros alterem tamanhos, tipos de poltronas e iluminação, ainda assim, há a expectativa de que o público se comporte de forma padrão.

Qualquer projeto coreográfico encenado guarda em si uma expectativa de resposta do público, trabalhos criados para serem apresentados em teatros lidam de forma direta com a expectativa de comportamento do público dentro do teatro, mesmo que o criador não tenha tanta consciência na confecção da proposta. No caso de um espaço urbano externo, a tarefa de lidar com expectativas e prever comportamentos é mais complexa, talvez porque naquele espaço esses elementos sejam mais instáveis do que no teatro. No entanto, isso não significa que padrões de comportamento no espaço urbano sejam inexistentes.

Voltamos ao GRUA.

GRUA nasce na Avenida Paulista, importante centro econômico, cuja paisagem é caracteristicamente marcada pela presença de homens usando terno. No entanto, é estranho ao senso comum que executivos bem vestidos se reúnam para rolarem pelo chão, subirem nos postes ou se agarrarem entre si. A reação do público transeunte está atrelada então a um contexto, e a Paulista introjeta um contexto que impõe um mapa de signos no qual homens vestidos com terno tem uma localização específica. Por consequência, o estranhamento subsequente do uso que os grueiros fazem da Paulista e de seus ternos pretos é bem específico.

O local escolhido para a apresentação de GRUA no programa Modos de Existir no SESC Santo Amaro em junho de 2015 foi o saguão da unidade, caracterizado por ser um lugar de passagem e também de espera. Os grueiros foram capazes de criar imagens lúdicas e belas, através do manuseio da arquitetura física com bancos e pisos lisos, capazes de espelhar os movimentos e os corpos dos bailarinos. No entanto, ficou evidente que a intervenção de GRUA em um espaço como a Paulista em contraposição a um espaço como o saguão do SESC Santo Amaro acarreta pesos em medidas distintas.

Em um lugar como a Paulista, os grueiros seriam ligados facilmente a executivos, no entanto, no saguão do SESC em um sábado à tarde, eles no máximo seriam confundidos com seguranças. Ao contrário da Paulista, a conclusão do equívoco rapidamente se dissipa e o saguão se torna um local oficial e institucionalizado de apresentações artísticas. Na Paulista existem mais elementos, mais volume de pessoas e uma maior área de ação. Desse modo, nesse site, GRUA tem maior possibilidade de ser diluída e desaparecer na paisagem repetidas vezes, para em seguida ressurgir e retomar as expectativas iniciais possibilitadas pelo espaço em uso.

GRUA está ancorado no estranhamento causado pelo comportamento dos grueiros em contraste com a expectativa existente para o espaço usado, mas talvez mais do que isso, o uso do fluxo de transeuntes seja um elemento primordial, já que não há uma narrativa, e, portanto, não há necessidade de acompanhar um desenrolar de acontecimentos. Assim, por mais que os grueiros/intérpretes sejam exímios performers, dotados de elevada técnica, o peso da imagem na paisagem e o estranhamento causado são eixos centrais que sustentam sua proposta artística.