por Carlinhos Santos, 2016

 

Com o nome de Geografia de Fluxos – De Olho na Produção Acadêmica, a quinta mesa de debates do Modos de Existir 6 reuniu os pesquisadores Lúcia Matos, da Universidade Federal da Bahia, Rafael Guarato, da Universidade Federal de Goiás e Thereza Rocha, da Universidade Federal do Ceará. A provocação foi de Sandra Meyer, da Universidade do Estado de Santa Catarina. Na mediação, Sigrid Nora.

Sandra Meyer abriu a conversa com questões provocativas, ressaltando que precisamos nos perguntar como publicamos e quais seriam os modos de articular pensamentos em dança na mídia escrita. Ela respondeu afirmando que muitos campos emergem a partir das experiências de processos em dança. Uma das questões, prosseguiu Sandra Meyer, é como transgredir modelos. Com anotações de processos? É uma alternativa, ponderou, pois para o objeto livro tem-se mais liberdade e há mais potência nessa construção. Mas a opção inclui desafios epistemológicos e metodológicos que instauram um sistema de resolução e produção de novas questões, em um processo de recorrência e intermitência entre os contextos.

Lúcia Matos destacou que é muito presente a ideia de distintos modos de produção em dança. Assim também é na academia. A atenção às diferenças e à percepção de outros olhares é questão sempre presente. Assim, ponderou a pesquisadora, se coloca a necessidade de dialogar com as diferenças expressadas pela dança e pelo corpo.

Para Lúcia, é preciso “abrir fissuras no modelo da academia”. Mas o desafio tão citado exige foco: “romper com o que?”, perguntou ela. Para instaurar evoluções, é preciso articular ensino e prática a partir de distintos dispositivos, articulando distintos suportes, chegando à distintas escritas. E como a dança é uma área de conhecimento atravessada por outras áreas, é preciso afetar e ser afetado por elas. Por isso e para isso, metodologias também são questões desse processo.

Em sua explanação, Lúcia Matos também ponderou sobre como, na pós-graduação, há uma excessiva cobrança por produção e publicação. Isso faz surgir uma espécie de “produção salame”, um jeito de divulgação do conhecimento de forma fatiada. Isso para gerar ou contabilizar pontuações necessárias “nos Currículos Lattes da vida”. E, como no contexto da macro e da micro política acadêmica, gera-se essa produção “fast food”. Nesse panorama emergiram questões: “como enunciar problematizações?”. E também: ”há aberturas e fissuras para a dança e suas escritas? Onde?”

As licenciaturas em dança são necessárias, acredita Lúcia, mas ainda há uma centralização de cursos nas capitais. Seria preciso mais cursos também no interior do Brasil, defendeu. Isso exige ações colaborativas em dança, exige a modificação de certas lógicas imbricadas nesse contexto. A grande produção de dança precisa ser pulverizada em outras áreas, inclusive em comunidades virtuais. É preciso dar atenção aos acervos, é necessária a ampliação da produção em revistas indexadas – e indexadas como “dança”, frisou-se. A partir dessas ponderações, Lúcia destacou que a predominância é das publicações digitais. Há também dificuldade de receber artigos para publicação, por isso, “precisamos, sim, publicar mais teses e dissertações” afirmou.

“O que atravessa todo esse contexto é a percepção de que houve um momento significativo de luta dos artistas na universidade para que sua produção fosse contabilizada também como produção acadêmica.” A afirmação de Thereza Rocha se expandiu para a percepção de que isso modifica a paisagem não só acadêmica: “há um qualis artístico”, complementou.

Na opinião de Thereza, as pesquisas, tanto na pós-graduação como nas graduações, deveriam gerar reverberações, mas não geram, não se articulam. Não há a fluidez que se desejaria. Por isso, clama-se por outros modos de organização das teses. Ela ironizou dizendo que, quando há a figura do artista-pesquisador, ou do pesquisador-artista, “o artista fica sob suspeita”. O que se pede é que, em muitos casos, a obra seja a provocação acadêmica, a possível tese. É também por isso que se luta. Afinal, pesquisas podem ser produzidas nas plataformas em que as obras são executadas. O problema sempre será o corpo. Ou o corpus.

A abordagem da escrita na vida acadêmica requisita outros modos de conhecer: quais seriam? A indagação que deriva da fala de Thereza Rocha instaurou questões para Ivani Santana, que ponderou: “é preciso falar de produção (acadêmica), mas há problemas. Existem milhões que dão aulas e vão embora: precisamos, sim, conversar sobre produção!”, conclamou. A afirmação foi seguida de novas indagações ou de questões operativas: o que é o processo acadêmico? Quem lê dissertação ou tese? O que a gente pode fazer para sair desse estado de coisas? Por que as pesquisas não estão gerando outras reverberações?

O impasse, que na verdade é um embate, está em como ser produção de arte (ou pesquisa acadêmica) “dos muros para fora e dos muros para dentro da academia”. O atravessamento coloca em relação os conceitos ou instâncias artistísticas, academia e estabilidade profissional (garantida por concurso).

Para Sigrid Nora, estabilidade é sim (e ainda) uma questão importante, ou que importa para muitos. Rafael Guarato lembra que, formalmente, no Currículo Lattes, produção artística pontua como produção artística. Mas reforçou o embate que surgiu na mesa: “como o artista se insere na academia? Como ele quebra barreiras? Quais barreiras, aliás, precisam ser quebradas?”

Segundo Rafael, “a dança não foi convidada para a universidade”. Mas em instâncias como o Reuni, se instaurou a validação da dança na academia. Mas, de novo: “qual a diferença de um artista estar ou não dentro da universidade?”, questionou ele que é artista, pesquisador, professor.

A conversa sobre os fluxos de escrita na academia pressupõe que haja o cruzamento entre publicações de textos, formatos e limitações. Para esse procedimento, há um impasse que se impõe de forma recorrente: é preciso pagar para publicar? Afinal, com frequência, quando um texto se desloca do formato acadêmico há dificuldade de aceitação e publicação.

No entanto, vislumbra-se alguma possibilidade de mudança desse panorama. Lúcia Matos falou de novas relações entre forma e conteúdo. Sandra Meyer destacou a experiência do Tubo de Ensaio, encontro de dança que também derivou em publicação, com o mesmo nome, que trouxe registro de ensaios, questões pontuais, debates e registros sobre produção e processos de criação em dança.

Ivani Santana falou de um panorama que, instigado pelo ambiente de pesquisa, encontra ações possíveis como, por exemplo, a publicação de uma revista digital. No caso da Revista Eletrônica MAPA D2, ponderou por que não tematizar as edições e, em uma delas, focar questões debatidas durante o Modos de Existir?

Lúcia Matos voltou a falar sobre a necessidade de articular graduações e pós-graduações com ações teórico-práticas e artístico-pedagógicas entre estudantes, egressos e pesquisadores. Thereza Rocha reafirmou a ideia de que artista gosta, sim, de estudar e as fronteiras entre arte e pesquisa estão muito diluídas na contemporaneidade. Assim, a mesa expandiu a afirmação de que escrita é experimentação de modos de existir. E que os modos de escrever são como os modos de existir. Ou como diria Laurence Louppe: “Um corpo que aporta as margens do seu dizer”.

 

Três perguntas para a doutora e pesquisadora Lúcia Matos

No pêndulo qualidade X quantidade, qual o risco da excessiva cobrança da produção de escritas no ambiente acadêmico?

A produção textual, através de artigos, capítulos de livros, etc, faz parte da forma de comunicarmos o andamento e os resultados de uma pesquisa, é muito importante para meio acadêmico, além de ser uma forma de retorno social. Entretanto, essas publicações dependem do andamento de cada pesquisa, já que, em alguns casos, o tempo de coleta de dados é maior, o que implica também em um maior tempo de análise. Assim, o grande problema do quantitativo sobrepor ao qualitativo, é que isso pode gerar um certo fatiamento da produção intelectual, gerando artigos que apresentam partes de uma pesquisa, para que se possa atingir as metas da produção anual. Essa é uma lógica já usada nas ciências duras e não considero que seja um modelo a ser seguido no campo das artes. Mesmo que isso ainda ocorra de  forma ínfima na nossa área, se você analisar alguns anais de congresso ou mesmo  periódicos indexados, já encontramos esse tipo de produção. Precisamos ampliar as produções bibliográficas de nosso campo visto que, abordando especificamente a dança, esta ainda está em processo de consolidação no campo da pós-graduação. Entretanto, precisamos ver as necessidades de nossa área. O campo das artes, na CAPES, já conseguiu muitos avanços nas mudanças de parâmetros de avaliação e de validação da produção artística, por exemplo, mas acho que ainda há muito a ser discutido com nossos pares.

Que ações colaborativas e novas lógicas são necessárias para que as publicações em dança emerjam

Considero que a colaboração é uma chave para que o campo da dança avance. Isso precisa ser visto como uma possibilidade em ações interinstitucionais (como mobilidade estudantil e de docentes, realização de pesquisas em rede, residências, festivais universitários, videoconferências, etc), o que é muito pouco explorado entre as universidades federais, por exemplo. Essa lógica da colaboração, com ações interinstitucionais, também pode ser muito significativa no campo das publicações, podendo ser adotadas distintas estratégias como parcerias entre editoras universitárias, entre cursos de dança, na viabilização financeira das publicações, etc. Além disso, há muitas colaborações que podem ser feitas diretamente entre pesquisadores e grupos de pesquisa, o que pode gerar pesquisas em rede e publicações conjuntas ou em coautoria. Precisamos pensar de forma conjunta em possíveis estratégias e encontrarmos rotas alternativas, o que não significa um abandono aos parâmetros de validação da produção bibliográfica.

Como pensar nas articulações teórico-práticas, artístico-pedagógicas para renovar a dança brasileira?

As relações teórico-práticas e artístico-pedagógicas são questões profundas no campo da dança e vêm sendo abordadas por distintas vias epistemológicas. Me interessa muito pensar essas relações nos ambientes educacionais da dança e, para que isso ocorra, é necessário um deslocamento tanto do docente quanto dos discentes em relação aos  modos tradicionais (e muitas vezes ainda cartesiano) de compreensão e abordagem do corpo e  dos processos educacionais em dança. Precisamos nos colocar em um constante estado de indagação, para que  possamos favorecer um olhar investigativo sobre a práxis pedagógica, para que  possamos pensar  nas singularidades e, enfim, para que a potência da criação, que  contribui  para uma aprendizagem  inventiva (usando o termo de Virgínia Kastrup), seja  um dispositivo presente na prática do docente.  Todos esses aspectos interferem nos modos como afetamos e somos afetados pelos espaços educacionais e nas escolhas realizadas para os processos de ensino-aprendizagem em dança.