A partir da Interlocução 2, no sábado, 13 de junho de 2015, com Renato Ferracini.

Os que escreveram sobre os afetos e o modo de vida dos homens parecem, em sua maioria, ter tratado não de coisas naturais, que seguem as leis comuns da natureza, mas de coisas que estão fora dela. Ou melhor, parecem conceber o homem na natureza como um império num império. Pois acreditam que, em vez de seguir a ordem da natureza, o homem a perturba, que ele tem uma potência absoluta sobre suas próprias ações, e que não é determinado por nada mais além de si próprio.

(Spinoza)[^1]

É possível criar uma energia dentro de si que seja equiparável a de uma fera, uma força que ao mesmo tempo que domina um estado de eu afronta tudo e todos de uma maneira que ao invés de destruir, cria e gera? Sendo isso possível, quais os métodos a serem explorados para que essa força seja desenvolvida?

Força como possibilidade de alcance.

Força como potência.

Força como presença.

Presença de um corpo que comunica.

Potência de um corpo que é possibilidade.

Possibilidade de alcance de si e dos outros, de um eu que atravessa o seu, o vosso e um nosso.

Esse corpo, que somente é forte porque se mostra frágil e delicado, não é individualizado. Ele é plural e singular. Plural pois nunca é só um corpo, mas são muitos os corpos que encontram, através de caminhos completamente diferentes, um estado de força. Singular porque cada corpo é um corpo; cada laço atado é desatado e reatado em seguida, de modo que as amarras permitam, concomitantemente, um vínculo e uma liberdade para com um outro.

Um deslocamento terminológico é necessário para pensar, falar e posicionar esse corpo que encontra, em si mesmo, maneiras diferentes de ser o mesmo.

Corpo como objeto?

Corpo como instrumento?

Corpo como meio?

Como mídia?

Corpo como energia?

Como multiplicidade?

Multiplicidade como possibilidade?

Possibilidade como capacidade de agir?

Ação como intervenção?

Transformação?

Mais do que encontrar um termo para posicionar o corpo neste ou naquele entendimento de mundo, é importante destacar a responsabilidade que as relações têm naquilo que diz respeito à singularização do momento. Os modos como cada corpo se coloca sempre em relação a outros corpos, e, consequentemente, a forma encontrada por estes para responder àqueles é que define e desenha os acordos do instante. Esse instante torna-se um único pulsante.

Estamos em um fluxo constante de instantes que nos abrem. Instantes que abrem inúmeros arranjos combinatórios.

Nosso corpo sempre se define nas relações (e não somente nele mesmo), sempre a cada vez.

Qualquer corpo se define pelas forças, pelas relações. Essas relações podem ser chamadas de afetos.

Um corpo pode ser, então, uma rede de afetos. Um corpo tem uma capacidade de afetar e ser afetado – ele tem uma potência, ou melhor: a sua potência. Pode ser a potência (capacidade de afetar e de ser afetado) aquilo que constitui a singularidade de cada corpo?

Também para a potência, são diversas as maneiras de explorá-la. Potência não é pura e simplesmente potência porque já tem em si todas a forças necessárias para existir. Ela só é potência porque nunca é algo acabado, definido, fechado. A capacidade de explosão – ou implosão – é constituída a partir do momento em que se está em jogo a disformidade da sua presença. Ela sempre indica algo que nunca é, mas que sempre está no lugar do poder ser.

Como explorar as possibilidades do afetar e do ser afetado para além daquilo que já é feito? Como reconhecer e desestabilizar a passividade inerente à replicação de códigos já estabelecidos que reduzem a vivência à sobrevivência?

Como criar/explorar/transbordar para/gerar um corpo que seja inventivo?

A inventividade pode ser elemento de composição que antecede qualquer frustração, pois é a partir e através dela que as chances de não se recair em um mesmo emergem. O mesmo deixa de ser o igual e passa a ser o comum. O corpo inventivo precisa encontrar meios para estar em um lugar comum.

Somos rede, formados por nossas relações. Somos um “corpo espaço público”.

Quais as éticas desse corpo que nunca é somente ele mesmo?

Sendo rede, quais as conexões que estabelecemos para que o fluxo dessa rede não se estanque?

Como gerir a alegria dos encontros: a sempre possibilidade do afetar e ser afetado?

Assumir e lidar com a coexistência; a partir dela, explorar as resistências – as formas de re-existir, possibilitar outros modos de. A questão é estarmos predispostos a gerar alegria nas relações…

Seja em arte ou em qualquer outro domínio do agir e conhecer o mundo, é sempre muito importante que se explorem as técnicas; ou seja os modos de se operar aquilo que se deseja fazer. Elas estabelecem coesões de um vocabulário que se manifesta no mundo. Anunciam coerências para que em cada momento uma forma de comunicar seja atualizada.

Inúmeras são as formas já dadas de se comunicar. O que fazer e como fazer para se encontrar, dentro dessa estrutura, pontos que apontem sua potência?

Em arte, quais as estratégias possíveis para se criar territórios que instiguem encontros alegres?

Para além de ditar enunciados a serem replicados, as criações necessitam se colocar em um lugar onde a sua organização seja, ao mesmo tempo, condição de expressão, de relação e de fuga. Elas têm uma responsabilidade grande para qualificar ambientes – desterritorializá-los e reterritorilizá-los. Não somente locais, mas mais do que isso, lugares: um sistema complexo onde se circulam, a todo instante, devires, pulsações do vir-a-ser.

[^1]: Parte do prefácio do terceiro livro da Ética, intitulado: “A origem e a natureza dos afetos”.