Sob a curadoria de Marcos Villas Boas e Maíra Spanghero, com o tema Parcerias e Colaborações, teve início, nesta semana o Módulo 2 de Modos de Existir da Dança, projeto idealizado para pensar/evidenciar algumas formas de ser/estar da dança que habitam o espaço cultural brasileiro

Convidada para escrever neste espaço, vou traçando, ao longo da semana, impressões, marcas e rastros deixados pela programação intensa e profunda que o Sesc Santo Amaro vem promovendo.

Na abertura, após as boas vindas dos curadores a um público aberto e interessado, Márcia Tiburi, filósofa e professora, inaugurou o bate-papo no encontro provocativo sob o tema “Juntos somos outros”.

Na impossibilidade de dar conta de todas as provocações que o discurso de Márcia incitou, uma imagem, colocada por Maíra Sphanghero no final do bate-papo, vem ao encontro das sensações compartilhadas por muitos que a ouviram: fogos de artifícios interiores, que deixavam rastros de brilho e espoucavam por dentro ao acompanharmos a explanação da filósofa sobre formas de relação, identidade, arte, devir e desejo. Algumas imagens captadas nos corredores, após a fala, também tinham a ver com estouros e derramamentos, como vulcões em erupção e lava quente escorrendo, que inundavam o interior com inquietudes e insights.

Esse encontro com Márcia, uma parceria fugaz estabelecida naquele momento, fez com que estivéssemos juntos, naquela sala, erodindo em potências alimentadas pelo panorama filosófico que ela nos trouxe. Entre o ser e o não ser ontológico, como estamos lidando com as conexões estabelecidas? E com as possibilidades contemporâneas de conexão? Como fugir da falácia de lidar só com o mesmo, o idêntico, ou seja, o eu espelhado? O encontro com o outro deve abrir brechas para a possibilidade do novo, do inesperado… fugir de modelos pré-programados para se reinventar e possibilitar produzir outra coisa, fora da lógica preestabelecida.

Mas como sobreviver à autodevoração que a identidade nos submete? Dos nossos próprios clichês? De um círculo vicioso que repete a dicotomia e a duplicidade? Como juntos seremos outros? Uma identidade conjunta que não produza verdades incondicionais, mas deixe espaço para questões e criações, transmutações que se dão no encontro, e que na arte encontram o lugar mais fértil para sua realização.

Márcia propõe não deixar que o princípio da dedução, estabelecido pela lógica dialética, sufoque a possibilidade de abismamento do outro, a descoberta, segundo a segundo. Libertar-nos das amarras epistemológicas, para, em uma desmontagem crítica, estabelecermos práticas relacionais, que podem ser também artísticas, abrindo espaço para a reinvenção do que já está dado.

Deslugarescom o Musicanoar, foi o primeiro espetáculo que participou da abertura da programação. Magicamente conectado com as ressonâncias do bate-papo anterior, uma possibilidade de abismamento nos aguardava. Como um espaço que vai sendo montado por bastões vermelhos, por vezes cuidadosamente colocados, por vezes displicentemente soltos no chão, vira poesia, jogo de poder, ludicidade e dança? Helena Bastos e Raul Rachou transformam, com seus corpos e ações, os elementos em artérias, em pontes, em rudimentos de tortura… Meios que unem ou separam, possibilidades de redução e desconstrução, manipulações que geram negociações de movimentos e criam questões para os corpos que estão em constante busca de soluções, ou novos desafios, nos deslocamentos, nas variáveis de tamanho, apoio, suportes e relevos que vão se configurando no espaço-tempo da peça. Espalhar, agrupar, encontrar-se, equilibrar, conduzir, ser conduzido são algumas dinâmicas que nascem e se transformam, na abertura de trilhas, caminhos, no encontro dos corpos, nas possibilidades de mobilidade e jogos, que são ao mesmo tempo lúdicos e provocadores. Por onde esses caminhos nos levam? Para onde esses corpos estão indo? Deslugares infinitos que se configuram eternamente…

Na sequência da potente noite inaugural do projeto, Carta de amor ao inimigo, com o grupo de Florianópolis, Cena 11, fechou, de forma instigante, a programação da abertura.

No breu do teatro soa um piano. A luz vinda de trás do palco vai lentamente subindo de intensidade até cegar a plateia. No palco vazio, a agradável melodia transforma-se em uma tensão monocórdica que prepara uma guerra. A impressão é de que o inimigo está bem perto… O que acontece depois é uma sucessão de encontros e desencontros que colocam a plateia em estado de total atenção seja por uma aparente imobilidade, seja por corpos que parecem dissonantes, mas que se encontram sucessivamente criando núcleos que se configuram em movimentos de forças centrípeta e centrífuga. Elos são formados e destruídos; os corpos são obstáculos uns dos outros. Entre ser pivô e ser lançado, trocas aleatórias e diferentes velocidades tiram o fôlego de quem assiste. Em jogos de equilíbrio, construção e desconstrução do espaço e das articulações, quem é o salvador e quem é o algoz? No esgotamento, o descanso no par, junto ao corpo do outro. Contaminações se dão nos corpos entregues ao acontecimento; corpos que carregam rastros. Os riscos estão sempre presentes, nas quedas e nos encontros. Construções precárias, em que não existe a conquista da estabilidade. A não ser em fugazes abraços. A luz que novamente cega também evidencia os rastros deixados no palco. Mas as intensidades não estão só ali. Elas saem coladas em nós, pulsando, em sustos e reconhecimentos, que revelam no abismo, a vontade de se jogar.