A partir dos Intercâmbios da quinta-feira, 11 de junho de 2015.

Gonzaga pretendia que uma dança o cruzasse.

Chegou até ele a informação de que haveria uma intervenção, algum tipo de ação realizada em um espaço onde pessoas que não estavam esperando por algo seriam cercadas por outras pessoas que gostariam de dizer algo, só que de uma forma diferente, singularizada.

Gonzaga disse que também trabalhava com intervenções na rua – daí o interesse! Quais eram (ou ainda são) as intervenções desenvolvidas por Gonzaga? Através da música, dentro de um projeto religioso, falar sobre saúde mental.

Para Gonzaga, que confessou não ser um assíduo espectador de trabalhos de danças, os públicos das ruas, aqueles que estão ou são das ruas, são elementos cruciais não somente para a participação enquanto espectadores – logo, consequentes acionadores do trabalho –, como também os mais interessantes e mais bem-vindos feedbacks que um artista (que atua ou não nesses espaços) pode ter.

Fui convidado para colaborar com o Modos de Existir – Intervenções com algum tipo de registro sobre este evento. Mais precisamente, convidado a fazer registros das duas conversas programadas (uma com o filósofo Luiz Fuganti e a outra com o artista e pesquisador Renato Ferracini). Nessa primeira oportunidade que tive com esta edição do Modos de Existir, não pude deixar de notar algo bastante caro ao tema explorado (intervenção): a maneira como o(s) artista(s) chega(m) até o(s) público(s) e como este(s) chega(m) até a(s) proposta(s) do(s) artista(s). Gonzaga me despertou tal pensamento porque foi a única pessoa que não se apresentaria no evento e que mesmo assim foi até uma conversa com um caráter de apresentação dos artistas para eles mesmos; optou por intervir naquilo que tinha interesse em conhecer.

Gonzaga foi discreto, sutil. Chegou de fininho e sua presença (sua aparição e seu desaparecimento) foi fugaz. O que é importante acentuar é que embora tudo isso tenha acontecido de modo muito rápido e com pouca duração no tempo e no espaço, alguma interferência naquele ambiente Gonzaga fez – interferência a qual tenta ecoar através deste relato.

Ao público é muito importante e necessário que o artista crie estratégias de comunicação nos mais diversos aspectos. A composição de um trabalho há tempos não pode mais ser vista somente como aquilo que se apresenta; ela também é o que vem antes e depois. A divulgação, o convite, a desinibição e o abraço são fatores que entram no sistema obra a partir do momento em que ela é colocada no mundo e outras pessoas a verão; são elementos que complexificam as redes geradoras de sentido. Quando um trabalho é colocado em relação a outros, em relação aos outros, em relação a uma temática curatorial, em relação às formas de organização de uma mostra; em suma, em relação a um contexto específico que só acontece em um momento também específico, as conexões tornam-se vastas e o controle é algo de se escapa. Por isso, a complexidade é inerente a este processo. Ressalto isso pelo fato de Gonzaga ter me feito pensar o quão preciosas e o quão profundas e ilimitadas são as relações que se podem explorar entre artista e público. Há tantas e diferentes maneiras de se trilhar essa exploração que a simples aceitação de que essa gama de possibilidades existe nos permite encarar a relação artista-público-artista como algo a ser sempre estudado e aprofundado. O carinho precisa estar presente nesse jogo, ininterruptamente.

Gonzaga – Luís Gonzaga – é o nome de um senhor de meia-idade que chegou a entrar para os Intercâmbios do Modos de Existir e que puxou conversa comigo por uns dez minutos. Contudo, dado o interesse maior de Luís pelos artistas que vão até o público, optou por alimentar esse desejo: o de deixar que as relações (contato, tensão, empatia, estranhamento, fricção, catarse, simpatia, desestabilização…) entre artistas, ruas e pessoas nas ruas possam se difundir e, quem sabe – na perspectiva de Luís – também despertar algum tipo de saúde mental.

Luís pensou um pouco e preferiu não ficar para a conversa; preferiu que as intervenções (o/se) cruzassem ao acaso.