De 28 de agosto a 2 de setembro, o projeto Modos de Existir do SESC Santo Amaro, que teve sua primeira edição dedicada aos coletivos, contou com nove grupos de diversos estados brasileiros e quinze apresentações, além de encontros que foram acompanhados via este blog Santo Amaro em Rede. Segundo o folder de divulgação produzido para o evento, destaca-se o conceito de coletivo como uma possível estratégia de atuação e produção da dança contemporânea. “Pensando no fim de alguns coletivos no Brasil, a proposta desta edição foi de refletir sobre o futuro deste modo de existir em dança”, fala Marcos Villas Boas, idealizador do projeto e programador do SESC Santo Amaro. Em nove módulos que se estendem até 2013, o projeto pretende discutir as várias maneiras de existir da dança e como ela habita o espaço cultural.

O último dia de encontro provocativo, cujo tema foi mobilidade como vantagem ou desvantagem, contou com a fala inicial da bailarina e coreógrafa Clarice Lima, mediação da artista e pesquisadora Nirvana Marinho e participação dos mesmos coletivos que ali estiveram por seis dias consecutivos — Dimenti (BA), Núcleo do Dirceu (PI), Movasse (BH), Lugar Comum (PE), Couve-Flor (PR), Sala 209 (RS), Michelini Torres (Sweet & Tender), Jardim Equatorial (SP) e Coletivo O12 (SP). Diz a sinopse do dia divulgada no site do SESC: “o artista no coletivo atua, ao mesmo tempo, dentro e fora, aqui e acolá, trabalha com estes mas pode também trabalhar com aqueles. Tem maior mobilidade que um dançarino de companhia, por exemplo. Será?”

“A mobilidade me interessa quase como uma estratégia de chegar no outro”, diz Clarice Lima, artista em projetos como DPI Experimento Espetacular e Árvores. “Penso em formas de estar com pessoas num mesmo espaço investigativo que não é companhia, grupo ou coletivo”. Afinal, o que é coletivo? Essa palavra dá conta da variedade de propostas atuantes hoje no Brasil? Para Liana Gesteira, o acordo entre os integrantes do coletivo Lugar Comum é estar junto, porém, “há espaço para rediscutir e redirecionar as formas de gestão”. A artista lembrou ainda o projeto Conexões Criativas, realizado em 2009 no Recife, “um primeiro pontapé que discutiu na região Nordeste como é estar em grupo de maneiras não convencionais”.

Torna-se redundante falar em mobilidade quando essa parece ser uma condição de artistas que se aglomeram dessa maneira política e criativamente? “Ter o Dimenti atuante há catorze anos no Brasil é importante, pois indica que novos modos de produção artística estão sendo vistos pelas leis de incentivo”, disse Caio César (Núcleo do Dirceu). Não seria o caso, então, de investigar o que permanece? “Para mim o que fica é a experiência do fazer artístico, que passa por questões teóricas e sentimentais”, resumiu Dani Glamour. Uma ideia de permanecer que vincula e afirma um espaço artístico.

Talvez seja o caso, então, não só de nuançar esta “Miss Coletivo” com novas e transformadoras cores afetivas, mas de ressignifica-la também a partir do lugar do “Miss Espectador”. Volto à questão lançada por Marcelo Evelin (Núcleo do Dirceu) neste blog, que me parece central nesse debate: onde e como está o “eu” e o “outro” quando se dão estes modos-de-existir-coletivo? Questões que nos transportam para dentro da cena performática, para a coletividade, ao SESC.