Um pouco de possível… se não eu sufoco…

(Foucault)

Na última terça feira, 5 de novembro, aconteceu o primeiro encontro do grupo de estudos “Outros Modos de Existir Conversando”, com provocação da profa. dra. Christine Greiner. Essa atividade compõe o terceiro módulo do projeto Modos de Existir, realizado no SESC Santo Amaro e conta com curadoria de Ana Teixeira e Marcos Villas Boas. O terceiro módulo do projeto propõe como eixo curatorial uma reflexão sobre o que temos entendido por companhia, grupo e núcleo no contexto da dança no Brasil. Nesta perspectiva, o grupo de estudos “Outros Modos de Existir Conversando” possui um papel importante: quando não se sabe onde está, a conversa entendida como encontro com uma outridade pode ativar a descoberta de outros caminhos. Pensada a partir do princípio da alteridade, a conversa apresenta potencial para desfazer os determinismos imanentes às certezas ao convocar uma abertura para a incerteza criadora. Daí a urgência em promovermos espaços de conversação entre artistas, teóricos, estudantes e demais interessados em pensar as especificidades dos modos de produção em dança.

Tratando-se desta primeira conversa, talvez possamos pensar que a pergunta mobilizadora da mesma foi: como as tensões entre as noções de privado e público emergem no seio das formas de agrupamento em dança? Nesse sentido, a conversa tangenciou as complicações que nos enredam, quando a economia passa a sobrepor-se sobre os domínios da política. O que se dá a ver através desse fenômeno é a primazia daquilo que constitui o espaço do privado em detrimento daquilo que é da ordem do público. Uma aproximação com as etimologias dos

Termos como economia e política podem nos ajudar a entender os rumos que experimentamos nesta primeira conversa. A palavra economia deriva dos termos “oikós” e “nomos”, que em grego significam respectivamente “casa” e “gerir”, ou ainda, administrar. Assim, o termo “economia” traz em seu bojo a metáfora da administração da casa, ou seja, do adensamento daquilo que é da esfera privada e que culmina com a sobreposição do individual em relação a coletividade. Dessa forma, o que geralmente podemos observar neste processo é um certo amortecimento da política. A etimologia da palavra política também provém do grego “politéia”Este termo designava os procedimentos dos cidadãos para com a pólismodo como as cidades eram chamadas na Grécia antiga. Desse modo, aquilo que chamamos de política aparece associado ao que entendemos como público. Logo, a crise do que é da ordem do político e a deserção do espaço público parecem estar atreladas a uma espécie de economicização da existência na contemporaneidade.

Através dessa primeira conversa, podemos perceber que a dança não está aquém desse processo. De tal modo, pudemos nos perguntar: como a economicização aparece nos modos de existir na dança no Brasil hoje? Assim, passamos a conversar sobre as correntes formas de institucionalização da produção em dança, a fim de verificarmos como aquilo que podemos denominar por condições institucionais incidem sobre o processo criativo colocando em risco a produção de conhecimento em dança. Em linhas gerais, a conversa apontou para a necessidade de refletirmos sobre a nossa cumplicidade com o que talvez consista em um processo de domesticação da dança. Ao pautarmos nossos processos criativos pelo preceito do que tem sido chamado de empregabilidade, podemos perceber um paradoxo. De um lado o artista da dança tem a possibilidade de questionar o mito do gênio criador comumente atrelado à criação artística, ao ter a possibilidade de reconhecer a dança como um trabalho e, consequentemente, o dançarino como um trabalhador. De outro o que se vê é a replicação de modelos que vão desde as formas de organização dos modos de produção, até mesmo as escolhas estéticas, de forma que, como colocamos em alguns momentos da conversa, as relações entre instituição, empregabilidade e dança parecem pautar não só quem é – ou não – da dança, como também o que pode ou não ser considerado dança. Nesse contexto, torna-se imperioso nos reconhecermos como corresponsáveis por este processo, a fim de pensarmos como as redes que ativamos através dos nossos processos criativos podem abrir espaços de respiro para além do âmbito daquilo que é da ordem do individual, do privado e do econômico, de modo a compor com o coletivo, o público e o político para, dessa forma, ativar redes de resistência. Resistir entendido não apenas como oposição ou ainda como imposição, mas sobretudo como possibilidade de composição, ou seja, de criação de outros modos existir na dança.

Nesse sentido, vale fazer aqui uma observação. Em diversos momentos da conversa aparentamos entrever algo como um gap geracional ente os artistas da dança. Nessa lacuna o passado emergia geralmente como sinônimo de nostalgia. Contudo, se tomarmos a tarefa de escavar o passado no chão do presente que dançamos, talvez possamos desenterrar outras possibilidades de futuro. Se pensarmos juntos com Walter Benjamin, podemos remeter às teses sobre o conceito de história, nas quais o filósofo alemão nos diz que há uma espécie de encontro secreto marcado entre as novas gerações e aquelas que as antecederam. Isso porque possuiríamos uma frágil força messiânica para a qual o passado dirigiria um apelo. Nesse contexto, talvez caiba pensarmos como as formas de organização em dança de outrora borravam as fronteiras entre o público e o privado, ao entender o processo criativo como uma forma de engendramento com o mundo e, portanto, como modo de produção de existência. Dessa maneira, pensar modos de fazer dança não estava dissociado de propor outros modos de fazer vida, assim, o corpo que dança, ao mesmo tempo em que dançava, promovia aquilo que Marx chamou de interstício social – espaços-tempos que instabilizam os modelos de troca hegemônicos, ao propor outras formas de compartilhamento como os escambos, por exemplo. Curiosamente, quando falamos em companhias, núcleos ou grupos, não imaginamos apenas um agregado de artistas que se especializam apenas em um modo de fazer. De certa forma, quando pensamos em formas de agrupamento em dança não estaríamos também discutindo modos de compartilhamento deste saber-fazer? Como essas formas de compartilhamento podem desestabilizar o processo de desdomesticação da dança? Poderíamos aprender outras formas de compartilhar com o passado? Se estivermos de acordo que o passado continua passando, talvez também tenhamos que concordar que a lacuna que ele abre no presente seja de fato um apelo. Uma invocação que aponta para a necessidade de atentarmos sobre como o que temos chamado de projeto, por exemplo, tem nos mantido em um cabresto que nos mantém voltados constantemente para o futuro. Talvez por isso não possamos resistir impunemente a um apelo – é o que o filósofo nos diz.