Um bate-papo como o que se configurou no segundo Encontro Provocativo do Modos de Existir (dia 29 de agosto, quarta) apresenta um “coletivo de coletivos” em dança da maneira com a qual estamos habituados – artistas organizados em círculo e colocando suas ideias de forma dinâmica e horizontal.

A provocação do dia veio da mediadora Nirvana Marinho. A quem você pertence? Há um sentido de pertencimento no coletivo ou fazer parte dele implica necessariamente num livre trânsito de pessoas em afinidades artísticas periódicas? Ser ou não ser fiel, eis a questão dos coletivos? O que difere coletivo de grupo?

“Estamos construindo um pertencer para uma quinta ‘pessoa’ que há seis anos nós criamos como um filho”, disse Carlos Arão, um dos idealizadores do Movasse, de Belo Horizonte (MG). “O coletivo só morre quando nós morrermos. Essa é a nossa utopia”.

Layane Holanda, criadora intérprete do Núcleo do Dirceu, reforçou a relação dos artistas da plataforma com o bairro onde estão instalados há seis anos em Teresina (PI). “É mais do que uma referência urbana, é quase uma coisa comum no meio da heterogeneidade”, disse. “Tem sido bom ouvir falar do Piauí através de nós. Fazer com que aquele lugar ganhe existência em outros”.

Esse lugar de pertencimento é cafona? De qual ordem é essa questão territorial? Neto Machado, do (anunciadamente quase morto) Couve Flor, levanta a bandeira: “Assim como o Couve Flor é a ‘Miss Curitiba’, o Núcleo do Dirceu é a ‘Miss Piauí’. A miss some, e em seu lugar aparece o nome do estado”. Uma representação que gera mercado, edital e parâmetros para as curadorias. Coletivo é uma marca, aceitemos. Como lidar com essa questão?

“Não devemos ser nem ‘@gmail’, ou seja, oscilação pura, nem ‘macaxeira do dendê’, aquele enraizamento que paralisa”, pondera Jorge Alencar, diretor artístico do Dimenti. Há uma responsabilidade discursiva e geográfica que leva a um balancear entre pertencimento e transitoriedade.

Penso na ascética bailarina de Degas, que aos olhos da sociedade francesa da época nada tinha de transcendental – e sim, de degenerada prostituta. Penso no Núcleo do Dirceu que ao sopé da porta de mil casas de um bairro de Teresina, explica que ser artista é uma profissão. Com que olhos vemos esses coletivos em dança no Brasil? É possível incluir outras cores nessa observação? Abro a roda de debate para vocês participarem. Afinal, coletivo fecha em círculo ou potencializa-se nas arestas?