por Carlinhos Santos, 2016

 

Criações e Escrituras – Operações Colaborativas em Dança, módulo 2, foi o tema da quarta mesa de debates da sexta edição do Modos de Existir. O encontro reuniu a bailarina e coreógrafa Ana Vitória, do Rio de Janeiro; a psicanalista Hélia Borges; o Núcleo Tríade e o Coletivo Cartográfico, ambos de São Paulo; e a coreógrafa Luciana Lara, de Brasília. As provocações foram feitas pela coreógrafa Dani Lima com a mediação de Sigrid Nora.

Thereza Rocha instigou o “para começo de conversa” destacando que a dança também encontra o suporte da escrita para se dizer. Dani Lima acrescentou e problematizou: que outras categorias podemos pensar para a escrita em dança? Seria uma escrita coreográfica da, com e na palavra? Ou uma escrita do artista sobre a obra, um release, uma tese? Ou, ainda, uma escrita do outro, um trânsito de artistas com artistas, de pesquisadores com artistas?

Na perspectiva da coreógrafa, a escrita também pode ser vista como um procedimento artístico, ou como processo, ou ainda um livro de artista que deriva de e vira uma… obra. Há ainda, no levantamento de possibilidades citadas por Dani Lima, livros com outros referenciais que atravessam o material coreográfico, o livro que recria uma obra. Mas a lista não se encerra por aí, pelo contrário. Lima lançou perguntas para encaminhar os diálogos da mesa: como se escreve o acontecimento artístico? Como o movimento traduz a palavra? O que se transforma em movimento a partir da palavra? O que se transforma em palavra a partir do movimento? Para quem escrevemos? Respostas complexas rechearam as falas posteriores.

Ana Vitória descreveu a feitura de Um Traçado Preciso da Dança[1] como um processo poético que se define, no fim, em livro. Não como um arquivamento, mas talvez como um novo movimento coreográfico. A escrita do livro veio como transcendência, para dar voz aos interlocutores do trabalho, aos que ouviram as provocações do trabalho, como foi o caso da mestra Angel Vianna e da coreógrafa Lia Robatto responsáveis por alguns textos que acrescentaram à poética da obra. A publicação foi lançada quando se cumpriram quinze anos de percurso coreográfico da companhia, em meio a um momento de crise. Assim, foi uma obra que serviu para recuperar afetos, para reverberar outros… modos de existir.

Hélia Borges entrou na conversa para pontuar que a psicanálise nasce a partir de um corpo histérico, em estesia; que em Freud há um encontro do sujeito com sua produção estética e a clínica é atravessada por provocações da arte. “A escrita é um paradoxo, pois convoca a síntese, que estanca o processo de provocação do sensível”, observou.

Ana Vitória disse que em seu livro as imagens abrem conceitos, afirmando rupturas: “quando se conceitua há risco de esvaziamento da obra.” Segundo ela, a escrita tem que provocar fissuras, exercitar o gerúndio, “escorrer no tempo”, para não repetir, para inventar.

Luciana Lara pontuou que seu modo de composição coreográfica implica a escrita. Nos ensaios, com frequência, escreve para evocar, para lembrar. Seu livro, Arqueologia de Um Processo Criativo – Um Livro Coreográfico[2], é uma obra para ressignificar o espetáculo Cidade em Plano de 2006, da Anti Status Quo Companhia de Dança, de Brasília. A publicação assume a condição de uma espécie de arqueologia do processo. A escrita é produto da memória, que vai reinventando a obra. Ela busca entender o processo, mas não deixa a leitura fechada. Investiu em diálogos, lançando perguntas ao leitor. Na costura das falas, a psicanalista Hélia Borges afirmou que a “escrita em arte é sempre autobiográfica”.

A integrantes do Núcleo Tríade e do Coletivo Cartográfico falaram sobre o livro Liminaridade[3], publicado com o apoio do Edital de Fomento à Dança da cidade de S. Paulo. O livro reuniu os esforços e as questões dos dois coletivos, numa criação compartilhada a partir de similaridades como a autogestão com linguagens e a coautoria, na perspectiva de “esgarçar a noção de dança para muitas bordas, muitas áreas, como as artes visuais, a geografia, a história e a arquitetura, dentre outras”. Para as integrantes dos dois coletivos de criação há um paralelo em seus trabalhos; suas frentes de ação se dão em espaços de interesse público. O livro publicado não conta diretamente sobre o trabalho de ambos os grupos, mas reúne artigos e temas a partir dos limiares que compõem a obra, dialogando com as fronteiras das obras, dos grupos, e das artes.

Pontualmente, a obra editada é organizada a partir de cinco temas: publicação de acervo e registro; cidade, deriva e cartografia; (des)fronteira entre as artes; arte e ativismo; corpo como construção performativa. As escritas reúnem grupos de áreas diferentes: história, psicologia, artes cênicas, arquitetura, economia e psicologia social, dentre outras. O desafio, a indagação que se coloca, é: qual interesse público que o livro gera?

Independentemente da resposta, trata-se de uma obra que faz fronteira com a cidade, busca o friccionamento das pesquisas, o friccionamento dos interesses públicos sobre aquilo que os grupos fazem. A publicação pode ser de interesse de qualquer pessoa, abrindo mais conceitos e questões, de forma que mais pessoas descubram esses coletivos, suas propostas, suas ideias.

Dani Lima destaca que seu livro Gesto – Práticas e Discurso[4], é produto também do desejo de compartilhar informações muito ricas com o máximo de pessoas possível. É uma escrita que conversa com o espetáculo 100 gestos, obra de 2012. É também um dispositivo gráfico para dar conta das palavras em movimento, muitas passíveis de se tornarem legendas para os gestos. É, enfim, a ressignificação entre imagens e palavras como num mosaico.

“A arte convoca conceitos”, disse Hélia Borges.

“Escrevo pelo desejo de ter interlocutores”, afirmou Dani Lima.

“A gente é mesmo dança?”, questionaram-se as integrantes dos dois coletivos, ressaltando que, de certa maneira, também discutem a dança em sua forma constitutiva. Afinal, muitos trabalhos extrapolam barreiras, fazem rede com muitas áreas do conhecimento, são reverberações que fogem do alcance: propõem apropriação, hackeamento.

E o que deriva do livro?

Segundo Dani Lima: “um pensamento gráfico da experiência do estúdio, um possível novo espetáculo”. Para Luciana Lara, “o entendimento maior da obra.” Na perspectiva das articuladoras do Coletivo Cartográfico e do Núcleo Tríade, “o modo de fazer exige pensar no modo de trabalhar”. Hélia Borges é entusiasta de escritas que quebram o pensamento hegemônico. “É fundamental a escrita da arte para criar espaços, para oxigenar o diálogo democrático”, afirma a psicanalista. Segundo Ana Vitória, “livro é arquivo e repertório fundidos”.

Sigrid Nora destacou a escrita como necessidade de perpetuação, algo que garante certa permanência. Dani Lima acrescentou que os livros podem ser estratégias para chegar a outros lugares. Ivani Santana interveio, contribuindo: “o livro é uma obra independentemente dos porquês”. Adriana Banana contribuiu constatando o surgimento de um sistema que tem gerado a produção de muitos livros nos últimos anos. Isso em meio a um contexto cuja regra é a descontinuidade. Por isso o livro – os livros! – têm dado materialidades à dança: “escrever é um modo de existir em dança”, concluiu ela.

 

 

[1] [1] Vitória, Ana. Um traçado preciso da dança. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010.
[2] Lara, Luciana. Arqueologia de Um Processo Criativo – Um Livro Coreográfico. Brasília: Anti Status Quo Companhia de Dança.
[3]Macul, Adriana… [et al.]; organização Coletivo Cartográfico, Núcleo Tríade e Daniel Lühmann. Liminaridade. São Paulo: 2015.
[4] Lima, Dani. Gesto: Prática e Discursos. Rio de Janeiro: Cobogó, 2013.