“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Atelier de Coreografia (RJ), realizada via e-mail em outubro de 2013.

Venho de uma família com diversos artistas plásticos e sempre estive em ateliês de pintura desde muito cedo, pensei que o nome “atelier” não fica restrito à ideia de grupo ou companhia, mas sim de um lugar do fazer criativo.

(entrevista concedida por João Saldanha, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Atelier de Coreografia? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

João Saldanha: O Atelier de Coreografia surgiu da minha necessidade de fazer parte de um cenário artístico que naquela época, 1986, tinha padrões estéticos e formatos muito distintos dos que impulsionavam os meus desejos e, claro, da vontade de conviver com outros artistas no processo criativo. Havia participado como intérprete em alguns grupos de dança e opinava demasiadamente nos ensaios e processos de montagem, não só na estrutura da dança, também na luz, nos figurinos e cenários, enfim essa conduta nos anos 1980 não era muito apreciada pelos que estavam à frente de seus trabalhos.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Atelier de Coreografia?

João Saldanha: O nome foi escolhido com ressalvas por mim, na medida em que precisávamos com certa urgência de um nome para participarmos de festivais e mostras de dança. Esse nome me pareceu sensato pelo fato de que inicialmente pensávamos num espaço onde diversos criadores desenvolveriam suas propostas de trabalho. Venho de uma família com diversos artistas plásticos e sempre estive em ateliês de pintura desde muito cedo, pensei que o nome “atelier” não fica restrito à ideia de grupo ou Cia., mas sim de um lugar do fazer criativo. Com o tempo passaram a nos chamar de Cia. Atelier de Coreografia, que eu acho bem contraditório e gozado.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Esta escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Atelier de Coreografia?

João Saldanha: Acho que essa organização veio no período em que fomos chamados para representar o Brasil em Lyon, em 1996, e, claro, para os projetos enviados ao MinC. No Rio, nessa época, tinha um projeto encabeçado pela Dell’Arte (agência produtora de eventos) que era “O Globo em Movimento”, em que artistas brasileiros abriam espetáculos de companhias estrangeiras como o Neatherlands, Momix, Lalala entre outros e a divulgação era maciça em mídias diversas. Também teve a política de subvenção do município encabeçada pela Helena Severo, então secretária Municipal de Cultura, que se espelhou nos moldes que o Lang [Jack Lang, Ministro da Cultura] lançou na França uma década antes. Todos esses eventos foram determinantes para que o público passasse a perceber o cenário daquele momento. Assim como na França, a maioria dos grupos e companhias eram reconhecidos pelo nome do coreógrafo que encabeçava o projeto e o Atelier não, era simplesmente um nome que confundia os estudantes de dança que achavam que teria um workshop.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Atelier de Coreografia? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância neste sentido?

João Saldanha: A autoria inicialmente foi dividida entre mim e Lia Rodrigues, que de 1987 a 1990 fez parte do processo. Depois eu fiquei no comando por ter facilidade na liderança e afinidade com toda a parte de produção. Todo esse percurso foi se profissionalizando, com o passar dos anos a luta tem sido por condições mais proporcionais ao trabalho que temos para colocar um espetáculo em cena. Há doze anos trabalho por projetos, principalmente porque no Rio de Janeiro as políticas são inconstantes, variando conforme o desejo do prefeito vigente. Então, percebi que para sobreviver não podia mais contar com a colaboração dos participantes naqueles períodos de mudança de cargos e estatutos. Além de gostar de variar no número de participantes para uma nova criação, parece que a minha realidade fica ali exposta.

Como a Cia. Atelier de Coreografia percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere neste aspecto?

João Saldanha: Bem, pra início de conversa, eu não me considero uma companhia, sou um criador que trabalha por períodos há mais de uma década e que pelo formato dos editais e até mesmo pelo histórico me veem como uma companhia. Apesar de estar sediado no centro da cidade há quase cinco anos, num espaço constante, eu não tenho sede própria, nem um departamento financeiro que redige contratos e muito menos assino carteira. Acho que sou um criador considerado pelo meio, tenho boas críticas, alguns prêmios, entrei em editais, atualmente não tenho sido aprovado para nenhum específico, sabemos que a contemplação é sazonal. Sou chamado através dos meus trabalhos para colaborar em peças teatrais (atualmente escrevi e dirigi uma), cinema, ciclos de palestras e eventos como esse [Modos de Existir, SESC–SP] que nos obriga a rever a própria existência. Respondendo melhor à sua pergunta com uma contrapergunta: que mercado de dança? existe um mercado? Acho que o que vemos por aí e interpretamos como mercado é a produção constante de trabalhos, alguns pontuais, outros ligados a um modo de sobrevivência. Como os espetáculos e festivais amadores que talvez sejam vistos como mercado e passam bem longe do que considero artístico. Não chegam a garantir a sobrevivência dos profissionais da área. Nesse ponto, a cidade de São Paulo está num caminho bem diferente do Rio de Janeiro, porque tem duas leis de fomento, mas elas são proporcionais à quantidade de grupos e companhias que existem na cidade?

Como a Cia. Atelier de Coreografia vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice e versa?

João Saldanha: Essa é uma pergunta que não saberia responder, seria preciso um olhar de fora, menos envolvido internamente. Vamos dizer assim, vendo o Cristian Duarte em Santos, na Bienal [Bienal SESC de Dança], eu me senti um pouco Lulu Santos, se é que você me entende. Achei o Cris bem dentro da dimensão da megacidade, do concreto e eu me sinto concreto na orla e na montanha de uma cidade.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

João Saldanha: Acho que no papo, principalmente com café e bolo, é de onde saem os melhores assuntos, as mais diversas perspectivas. Não sei se dançamos juntos, penso que sofremos das mesmas questões e problematizamos nossas semelhanças.

Piquenique, Cia. Atelier de Coreografia (RJ)

Duo itinerante, concebido por João Saldanha, uma coprodução do Panorama Festival 2013, em parceria com a Cidade das Artes (RJ), em que os artistas convivem espacialmente com o público num ambiente que se caracteriza pela ideia de entretê-lo e alimentá-lo com música, comida e dança em diferentes espaços dentro de uma edificação.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.