“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Borelli (SP), realizada via e-mail em outubro de 2013.

Para criar preciso ter a “companhia” de intérpretes, por isso que é uma companhia. Mas, poderia ser: companheiros, camaradas, comparsas ou cúmplices.

(Entrevista concedida por Sandro Borelli, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Borelli? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Sandro Borelli: Quando era bailarino do Balé da Cidade de São Paulo já fazia alguns experimentos coreográficos com os meus colegas de trabalho. Por volta de 1992 saio da companhia e resolvo começar de fato a produzir as minhas ideias criativas no meio independente em São Paulo. Só que tinha um problema: eu não queria apenas usar o meu próprio corpo nas minhas criações, eu precisava ter parceiros ao meu lado e que topassem trabalhar diariamente comigo, assim surgiu o Grupo F.A.R.–15 em 1997. Para criar preciso ter a “companhia” de intérpretes, por isso que é uma companhia. Mas, poderia ser: companheiros, camaradas, comparsas ou cúmplices. Em 2013, a Cia. Borelli de Dança parou de existir, virou Cia. Borelli – Carne Agonizante. Em 2014 será definitivamente Cia. Carne Agonizante.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Borelli?

Sandro Borelli: Eu tinha uma necessidade quase que insana de criar dança, de descobrir o meu próprio jeito de dançar, um apetite avassalador por descobrir novos caminhos coreográficos e cênicos. Não queria ter limites, para mim tudo era muito intenso. Por conta disso surgiu F.A.R.–15, um fuzil de guerra. A partir de 2004 resolvo mudar para Cia. Borelli, porque a mídia raramente citava F.A.R.–15 (o que me desagradava profundamente), e sim Borelli. Decidi ser mais prático.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Borelli? 

Sandro Borelli: Sou a matriz, mas preciso da companhia das pessoas ao meu lado, certo? Apresento a eles as minhas posições políticas/criativas e procuro contaminá-los com isso. A partir disso vou pedindo colaborações. Poderia dizer que realmente é um processo colaborativo.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Borelli? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância neste sentido?

Sandro Borelli: Construí uma carreira de criador solitário, penso, reflito e crio os movimentos para os intérpretes que estão ao meu lado, os artistas que estão comigo querem beber esse tipo de coisa. Existe uma diferença de trajetória e estrada bastante grande entre mim e o grupo, isso tem gerado uma admiração pela figura do artista Sandro.

Como a Cia. Borelli percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma Cia. interfere neste aspecto?

Sandro Borelli: Que mercado? Há mercado para as [companhias] mais estabelecidas pela via do patrocínio, os outros tentam sobreviver como dá. O SESC tem colaborado modestamente com os grupos independentes, desenvolvendo algumas situações interessantes, como esta mostra, por exemplo. A única saída para a dança é lutar com unhas e dentes pela criação de leis específicas para a categoria. Os editais que se proliferam pelo país, apesar de importantes, se tornaram uma ferramenta sórdida das gestões públicas, tipo política do “pão e circo”.

Como a Cia. Borelli vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Sandro Borelli: É uma companhia tipicamente paulistana, a relação é total. Acho que reverbera muito pouco ainda, como os governos não construíram uma política cultural decente para a cidade, o cidadão paulistano está cada vez mais preocupado em sobreviver e consumir o máximo que puder. A cultura e a dança ainda é uma “coisa” esquisita.

Esta entrevista é uma ignição para os “Outros Modos de Existir Conversando”. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Sandro Borelli: Devemos pensar além dos palcos, dos estúdios, dos ensaios e das nossas agendas. “Outros Modos de Existir Conversando” vai por este viés. Vida longa.

Colônia Penal, Cia. Borelli – Carne Agonizante (SP)

Como em outras obras de Kafka, o insólito e o absurdo podem ser percebidos em várias situações: na detalhada descrição da máquina de tortura dos regimes antidemocráticos e assassinos, na cruel omissão de um observador, na estranha relação entre o poder oficial e o condenado.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.