“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Danças Claudia de Souza (SP) realizada via e-mail em outubro de 2013.

[…] não trabalhamos com uma organização modelo de companhia, somos uma, mas nos organizamos a partir do que experimentamos nesses últimos anos, que evidentemente tem referências de modelos já praticados, […] tanto para assimilar como para não praticar.”

(Entrevista concedida por Claudia de Souza, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Danças Claudia de Souza? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje? Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Claudia de Souza?

Claudia de Souza: A Cia. Danças Claudia de Souza surgiu em 1996, a partir de conversas e desejos comuns entre um grupo de pessoas que já vinham trabalhando juntas. Eu também trabalhava como coreógrafa há algum tempo e achei que aquele era um bom momento de organizar um núcleo. No início era assim que nos organizávamos, era apenas Danças, não havia nada antes que identificasse como companhia, núcleo, coletivo, grupo, nem mesmo o meu nome, apesar de ser eu a pessoa que representava o núcleo na direção artística e coreográfica. Por um tempo insistimos em manter dessa forma, porém, sempre que falavam sobre o Danças na mídia, ou quando vendíamos espetáculos e entrávamos em editais, os outros nos classificavam como companhia, grupo e tal. Fomos assim por algum tempo, até que nos rendemos à companhia, o que não acho mal, mas era mais para facilitar o entendimento de que éramos um grupo/companhia de dança que se chamava pelo genérico nome de Danças, que tinha como pensamento o espaço para todas as danças e que, a partir daí, criaríamos a nossa linguagem, uma linguagem singular que vinha de um plural. Depois de um tempo veio outra situação, que na verdade já era observada por nós. De quem era a Cia. Danças? Apareciam várias possibilidades, Cia. de Danças Claudia de Souza, Cia. Claudia de Souza de Dança… apenas Claudia de Souza… enfim… relutei bastante até que me rendi, e isso faz pouco tempo, a rebatizar o inicial Danças como agora o chamamos, Cia. Danças Claudia de Souza. Sem mais drama ou dificuldades assim nos assumimos.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Danças Claudia de Souza?

Claudia de Souza: Na verdade não trabalhamos com uma organização modelo de companhia, somos uma, mas nos organizamos a partir do que experimentamos nesses últimos anos, que evidentemente tem referências de modelos já praticados, mas são referências tanto para assimilar como para não praticar. Os processos criativos entram nesse mesmo modo de criar e produzir, algo que acreditamos que funciona para nós, para a nossa arte, para nossa organização. Essa organização está frequentemente mudando, se transformando, se revendo. Acredito que onde essa forma de gerir o trabalho se manifesta nos espetáculos está na forma como mantemos o nosso repertório vivo com trabalhos que vem desde o início da formação. Eles também se movem, modificam, se atualizam, voltam atrás, estão vivos.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Danças Claudia de Souza? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Claudia de Souza: Eu, na maioria dos trabalhos, assino a direção com a colaboração coreográfica do elenco. Isso nunca foi um problema para a companhia. Desde a criação fui a propositora e acolhedora desses artistas que pela companhia passaram, passam, retornam. Todos acordamos e somos cúmplices, deixamos parte de nós para esse acervo que estamos formando e parte desse acervo levamos embora para outras terras e espaços.

Como a Cia. Danças Claudia de Souza percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Claudia de Souza: Acho que agora ter o nome companhia na frente não interfere mais, porém há quase dezoito anos atrás fazia sim diferença. Propor algo novo não nomeado parecia ser muito informal. Quanto ao mercado, muitas coisas mudaram muito e outras não saíram do lugar. Ainda é um mercado instável, pequeno e de difícil acesso. Ter o nome companhia na frente não facilita nem dificulta.

Como a Cia. Danças Claudia de Souza vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Claudia de Souza: Somos uma companhia bem paulistana e onde mais atuamos é na cidade de São Paulo. Falamos sobre comportamento e evidentemente a cidade nos afeta.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Claudia de Souza: Afinal acho que dançamos bem pouco juntos. É muito bom esse tipo de troca, trabalho e conversa. Acho que falamos pouco e somos pouco ouvidos sobre os nossos modos e meios de produção. Isso também é política e com certeza isso é dança.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.