“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. de Dança Palácio das Artes (MG) realizada via e-mail em Outubro de 2013.

A Cia. de Dança Palácio das Artes não existe por uma opção espontânea de seus integrantes. Ela é um fato governamental […].

(Entrevista concedida por Sônia Mota, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. de Dança Palácio das Artes? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Sônia Mota: A Cia. de Dança Palácio das Artes (CDPA), corpo artístico mantido pela Fundação Clóvis Salgado, conforme Decreto 45.828/2011, foi instituída em 1971 como balé da então Fundação Palácio das Artes. Seu primeiro diretor foi o mestre de balé e coreógrafo Carlos Leite. A CDPA dedicou-se, durante vinte anos, a montagens de peças do repertório erudito e às operas produzidas pela Fundação Clóvis Salgado. Os diretores artísticos subsequentes, Hugo Delavalle, Hugo Travers, Jean-Marie Dubrul, Marjorie Quast, Tíndaro Silvano e Patrícia Avellar, inseriram em seu repertório obras de coreógrafos nacionais e internacionais. No final da década de 1990, Cristina Machado, sintonizada com as modernas linguagens da dança, assume a direção da companhia e passa a incentivar e promover a pesquisa em dança através de debates e entrevistas entre bailarinos e profissionais de outras áreas, introduzindo o método bailarino/intérprete/criador de Graziela Rodrigues e utilizando nas produções desse período, o potencial criativo dos próprios bailarinos. Em março de 2010, Sônia Mota assumiu a direção artística da companhia de dança e o foco de sua gestão foi o de consolidar a linguagem personalizada da companhia. Esse investimento na pesquisa ativa em dança, nos processos de criação e elaboração coreográfica assinados por seus próprios integrantes, a diversidade de intérpretes e a transdisciplinaridade são os pilares atuais da produção artística da CDPA, o que a coloca em profunda conexão com as questões da arte contemporânea. Quanto à justificativa da permanência de uma companhia de dança no contexto atual, há três aspectos. Primeiro aspecto: a dança, devido à sua evolução estilística na história e, sobretudo, por razões de sobrevivência, expandiu-se muito no âmbito das criações individuais. Esse processo de individualização das criações em dança foi necessário para que a dança pudesse se democratizar mais, pudesse se aprofundar na essência do bailarino como indivíduo. A Cia. de Dança Palácio das Artes também passou por esse processo. No entanto, essa individualização começa agora a se exaurir em si mesma. Acreditamos que seja importante, hoje em dia, resgatar a força do coletivo, buscar a integração da diversidade. Permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje é uma maneira de investir em criações coletivas, em que um maior número de artistas possam estar criando juntos! Segundo aspecto: para manter a presença e a ampliação das companhias públicas. É vital que cada cidade, cada estado tenha uma dança pública, subsidiada por um governo que incentive a pesquisa, a especialização artística e, sobretudo, o acesso da dança às comunidades mais carentes através de espetáculos, aulas abertas, debates e encontros artísticos. Uma companhia privada para sobreviver no mercado precisa de “resultados”. Uma companhia pública pode e deve sobreviver com resultados “intangíveis”. Terceiro aspecto: companhias podem aumentar e desenvolver o campo de trabalho no mercado profissional. Uma companhia gera e deve gerar empregos.

 Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Cia. de Dança Palácio das Artes?

Sônia Mota: Desde o início pensou-se referir a identidade da companhia de dança ao lugar na qual ela se viabiliza. De modo que, em 1971, a companhia se chamou Fundação Palácio das Artes (FPA); em 1980 a companhia se chamou Corpo de Baile da Fundação Clóvis Salgado (FCS). A Fundação Clóvis Salgado foi criada de acordo com seu estatuto para: “II. Programar, produzir, supervisionar e executar, direta ou indiretamente, as atividades artísticas e culturais relacionadas com o Palácio das Artes e demais espaços culturais; III. Manter e gerir a programação artística, direta ou indiretamente, por meio de contratos, convênios ou instrumentos congêneres, com instituições públicas ou privadas”. Ainda em 1980, a companhia passa por estudos de nomes: em julho passa a se denominar novamente Ballet da FCS, em agosto desse mesmo ano volta a se apresentar como Ballet da FCS, em setembro o grupo se apresenta como Grupo de Dança da FCSem dezembro de novo como Corpo de Baile da FCS. Em 1984 passa a ser Companhia de Dança de Minas Gerais. A gestão dessa época propôs o mesmo nome para os três corpos artísticos da FCS (Coral Lírico de Minas Gerais, Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Cia. de Dança de Minas Gerais). Apenas em 2004 a companhia passa a se chamar Companhia de Dança Palácio das Artes (CDPA). Entre 1984 e 2004 percebeu-se um questionamento: “Companhia de Minas Gerais? Mas, qual o nome da companhia?” A resposta: “É a Cia. do Palácio das Artes”, “Ah! Do Palácio das Artes, agora sim…”. Como estratégia de marketing, visibilidade e reconhecimento da companhia em outros estados, constatou-se que ,por ser o Palácio das Artes a sede da companhia, esta deveria então se chamar Cia. de Dança Palácio das Artes, voltando ao conceito inicial da sua identidade, basear-se no nome do local onde ela está sediada. A companhia é um corpo artístico da Fundação Clóvis Salgado, sediada no Palácio das Artes, e o representa em âmbito nacional e internacional.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. de Dança Palácio das Artes?

 Sônia Mota: A Cia. de Dança Palácio das Artes não existe por uma opção espontânea de seus integrantes. Ela é um fato governamental, que funciona de forma hierárquica estabelecendo as diretrizes. Nos últimos quinze anos, no entanto, a direção junto com o elenco da Cia. de Dança Palácio das Artes, optou por uma organização mais democrática, utilizando processos de criação e elaboração coreográfica assinados por seus próprios integrantes, investindo na diversidade de intérpretes, na transdisciplinaridade e na pesquisa ativa em dança. Esses processos se realizam através do confronto/trânsito/diálogo entre tradição e inovação, multiplicidade e singularidade das diversas gerações. Ela aparece também no tempo de experiência de seus artistas, que é mais um caminho inspirador para a dança contemporânea. Os espetáculos da Cia. de Dança Palácio das Artes refletem o processo de trabalho optado, na realização de coreografias que nascem dos próprios corpos que as criam, de coreografias que surgem das escolhas artísticas em que todos participam e na criação de obras que buscam uma maior interatividade com o público em geral. Um fator concreto para a visibilidade destes processos é que a CDPA cuida para que os lugares de apresentação nem sempre aconteçam somente em teatros de caixa preta, mas também em outros tipos de teatro que integram mais a plateia ao espetáculo como, por exemplo, em arenas, ginásios, na rua, em espaços alternativos tipo galerias, halls, foyers, esplanadas. Outro fator concreto que também enfatiza a visibilidade é a realização de projetos de cunho educativo e social que são feitos com escolas nos estúdios da companhia.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. de Dança Palácio das Artes? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Sônia Mota: Por ser uma companhia financiada pelo governo, este tem a propriedade das obras criadas. Mas a autoria dos criadores é respeitada. A partir de 2000, a autoria das obras deixou de ser exclusiva dos coreógrafos convidados e passou a ser feita em conjunto com o coreógrafo convidado e/ou com o diretor do trabalho a ser criado. Também a coreografia das cenas em si, passaram a ser mais de autoria dos bailarinos/intérpretes/criadores, ainda que sob o olhar da uma direção artística que, pode inclusive, redirecionar o trabalho. No momento dessa transição, essa participação dos bailarinos na escrita da dança não foi publicada nos materiais de divulgação. A partir de 2010, passou-se a oficializar a autoria das coreografias nos programas das apresentações e na mídia jornalística, como sendo dos bailarinos. A autoria, no entanto, ainda é uma questão discutida a cada criação e ainda surgem impasses entre o direito autoral e o pertencimento da criação. Mas é preciso entender que a instituição é a proprietária dos trabalhos, portanto, o bailarino autor não pode levar sua obra onde quiser sem a autorização da FCS. Sempre é necessário o aval da FCS, pois mesmo o bailarino sendo o criador, ele é antes de tudo, um funcionário da FCS, que criou sua obra em horário de trabalho e teve toda produção paga pela FCS. As obras pertencem à estrutura pública, mas esta reconhece a autoria criativa das obras adquiridas. A relevância de ser uma companhia reside no fato de que, sendo os próprios bailarinos os autores do conteúdo coreográfico dos trabalhos – por vezes também do conteúdo dramatúrgico – os bailarinos da Cia. de Dança Palácio das Artes acabam por ter acesso às decisões do plano criativo, interferindo dessa maneira nos conceitos de dança da companhia e da sociedade para a qual eles trabalham. Em seu percurso de 42 anos, a companhia passou pelo clássico e o moderno, pelo tradicional, passou  de “grupo de bailarinos-objetos a bailarinos-sujeitos”, de grupo dirigido a grupo atuante, de semelhantes a diferentes. Esta vivência, esta maturidade outorga e autoriza esta companhia a ter influência, a ter voz ativa e provocadora.

Como a Cia. de Dança Palácio das Artes percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Sônia Mota: Há muito tempo que o mercado da dança tem sido difícil para todos que fazem dança, não importa se companhias privadas ou públicas, se grupos, se coletivos, se bailarinos independentes. No entanto, o fato da Cia. de Dança Palácio das Artes ser uma companhia pública, ela vive as dificuldades da política pública geral de cultura. 70% da verba destinada para a cultura – que já é pouca – é gasta na manutenção da estrutura básica (aluguel, contas de água, luz, limpeza etc…).  Acaba que sobra muito pouco para investir na criação e finalização artística. Isso faz com que as companhias públicas, para poderem realizar seu trabalho, acabem por ser forçadas a entrar nos editais públicos e a se inscreverem nos projetos de incentivo à cultura. Como disse acima a companhia de dança existe por uma decisão do estado. A CDPA não tem nenhum poder de interferência nas políticas públicas de dança. E estas, na verdade, são as menos favorecidas dentro das políticas culturais de todo país.

Como a Cia. de Dança Palácio das Artes vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Sônia Mota: A Cia. de Dança Palácio das Artes se considera a companhia de dança da cidade de Belo Horizonte. Mas esta relação não é bem definida na cidade de Belo Horizonte. Seria preciso mais investimento na criação de estratégias de intercâmbio com o público, maior divulgação da sua existência nos meios públicos de marketing: TVs, rádios, jornais, revistas, publicações específicas, distribuição da história da companhia nas bibliotecas públicas etc. As pessoas que acompanham os trabalhos da companhia apreciam muito as suas criações, retornam sempre às apresentações e se reconhecem nas obras e na forma de dançar de seus intérpretes. Mas isso não basta para projetá-la na cidade e no mercado de dança da cidade. Como acima mencionado, o público da companhia é fiel e reage positivamente às apresentações, oficiais apresentadas em grandes teatros e festivais. Reverbera ainda mais nas apresentações de caráter de formação de publico apresentadas em espaços alternativos, como por exemplo: o 5as da Dança (plataforma de apresentações das obras em processo) que acontece no Hall do Palácio das Artes e nas apresentações de caráter educativo, como os Encontros com a Cia. (ensaios abertos feitos na Grande Estúdio da Cia.), para escolas, comunidades carentes e pessoas portadoras de deficiências físicas. No sentido oposto – vice-versa – a companhia busca entender a cidade com seu trabalho de pesquisa. A cidade ganhou presença marcante e diferenciada no corpo de seus bailarinos a partir das pesquisas de campo que a companhia fez, e faz ainda, no interior e na capital de Minas. Exemplos: Coreografia de Cordel (pesquisa no Vale do Jequitinhonha), Transtorna (pesquisa na arquitetura da cidade de Belo Horizonte). Dentro de um cunho mais universal, a companhia também expressa o público local, nacional e internacional, a partir da pesquisa que a companhia faz no corpo e na história de seus próprios intérpretes. Segundo Einstein: o micro reflete o macro. É buscando em si (na gente mesmo) que conseguimos falar sobre o mundo.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Sônia Mota: É de grande importância a frequência de conversas sobre as questões da profissão dança, por esta ser uma profissão pouco creditada. Também porque, justamente por ser dança, está sempre em movimento, em constantes mudanças, portanto, passível de constantes reformulações. Quanto à questão “Afinal, dançamos juntos?”, apesar da imensa diversidade de estilos, rumos e perfis da nossa dança, que nos coloca num fazer quase que solitário, existe um fato que nos faz estar dançando todos juntos: o fato de que a cada ano, a cada mês e a cada vez, temos que enfrentar uma batalha quase que quixotesca para obter um “lugar ao sol” dentro do ainda precário mercado cultural deste nosso país. Visto por este prisma, dançamos juntos sim, em todos os sentidos que este verbo “dançar” possa ter. No turbulento oceano profissional da dança, estamos todos juntos navegando no mesmo barco. Navegar é preciso!

Se Eu Pudesse Entrar na Sua Vida – Ocupação Performática, Cia. de Dança Palácio das Artes (MG)

A ocupação performática foi inspirada nas memórias físico-emocionais dos atuais bailarinos da Cia. de Dança Palácio das Artes sobre o repertório do grupo. Ela será apresentada em fragmentos nas dependências do SESC Santo Amaro.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.