“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Companhia de Danças de Diadema (SP) realizada via e-mail em outubro de 2013.

Além de ser uma companhia em seu formato mais conhecido […] é também uma equipe que se relaciona diretamente com a população local […]. Cada bailarino é também um artista orientador para estas atividades com a comunidade.”

Entrevista concedida por Ana Botosso, em outubro de 2013

 

Como surgiu a Companhia de Danças de Diadema? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Ana Botosso: Surgiu pela iniciativa da bailarina Ivonice Satie [1951–2008], em parceria com a Prefeitura do Município de Diadema, em 1995. Permanece como companhia para também se trabalhar a dança no coletivo, num contexto tão individualizado que existe hoje, no mundo das artes. É também uma das maneiras que há para se difundir a linguagem da dança, torná-la mais acessível a diversas plateias e aprimorar a capacidade artística de seus integrantes.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Companhia de Danças de Diadema?

Ana Botosso: Foi escolhido pela Ivonice Satie, fundadora e diretora da companhia até 2003. Leva este nome, pois Diadema, além de ser sua cidade sede, é também incentivadora de seus trabalhos. Costumamos não abreviar mais o nome, como “Cia.”, mas usamos “Companhia”.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Companhia de Danças de Diadema?

Ana Botosso: O fato dos integrantes trabalharem diariamente juntos por longo período e a pequena rotatividade do elenco propiciam maior afinidade artisticamente entre os integrantes.

Como a questão da autoria é discutida na Companhia de Danças de Diadema? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Ana Botosso: Não é tão simples a escolha de um criador para a companhia. Mas acredito que deva ser parecido em todas as organizações em núcleos de dança. A escolha por vezes em conjunto, por vezes pela direção, conforme as condições do momento.

Como a Companhia de Danças percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Ana Botosso: Nossa relação com o mercado de dança acontece na medida em que alcançamos uma boa divulgação de nosso trabalho, ou seja, a visibilidade. E também à medida que a produção necessária para cada evento seja algo de nosso alcance. Fora isso, o mercado de dança não deve interferir em nossas opções de criação. Procuramos nos basear em escolhas estéticas que diferenciem, desafiem e provoquem, tanto ao público que irá nos assistir quanto a nós mesmos. O fato de ser uma companhia não interfere, neste caso.

Como a Companhia de Danças vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice e versa?

Ana Botosso: Há uma profunda e forte relação desta companhia com a cidade. Isso se dá por diversos fatores oriundos de seu perfil duplo. Além de ser uma companhia em seu formato mais conhecido, que realiza espetáculos, criações, turnês, é também uma equipe que se relaciona diretamente com a população local, através de um programa de oficinas no município. Cada bailarino é também um artista orientador para estas atividades com a comunidade.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Ana Botosso: A conversa é importante enquanto ela exerce um poder instigador aos interlocutores. Torna-se prolixa e desinteressa quando pretende “explicar” demais a arte. Se “dançamos juntos”? Juntos com quem? Com nossos parceiros que atuam na mesma linguagem artística? Juntos com a sociedade que nos prestigia? Em escalas distintas, ainda não como seria o ideal.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.