“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Fragmento (SP), realizada via e-mail em outubro de 2013.

A companhia me permite ter um trabalho contínuo com as mesmas pessoas, mantendo um repertório ativo. De alguma forma, isso nos permite “resistir” independentemente de estarmos ou não contemplados por algum edital, o que nos faz existir de forma autônoma.

(Entrevista concedida por Vanessa Macedo, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Fragmento? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Vanessa Macedo: Em minha trajetória artística sempre convivi com o “formato” companhia. Profissionalmente, atuei na Cia. de Danças de Diadema, na Quasar Cia. de Dança e na Cia. Borelli de Dança e, apesar de o trabalho como intérprete ter sido fascinante para mim (e é até hoje), sentia um desejo de experimentar coisas próprias, uma necessidade de me expressar de forma mais autoral. Foi por esse motivo que, em 2002, quando ainda estava na Cia. de Diadema, comecei algumas investigações, e surgiu a Cia. Fragmento. Inicialmente, fiz solos e duetos e continuei trabalhando com outros coreógrafos. Em 2007, contemplada pelo Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo, passei a criar trabalhos para um grupo maior de pessoas e funcionar com uma rotina mais definida. Essa estrutura se mantém até hoje. Permanecer como uma companhia hoje significa para mim, manter uma rotina de trabalho, o que implica não só numa preparação física diária, como também no aprofundamento de um vocabulário estético. Como falei inicialmente, esse foi o formato que conheci de perto e talvez me identifique com ele por não conhecer outros. No entanto, percebo que ele tem se transformado por motivos variados, e não resisto às suas mudanças. A companhia me permite ter um trabalho contínuo com as mesmas pessoas, mantendo um repertório ativo. De alguma forma, isso nos permite “resistir” independentemente de estarmos ou não contemplados por algum edital, o que nos faz existir de forma autônoma. Reconheço que essas “formas de se organizar” são muito pessoais e não descarto a possibilidade e o desejo de experimentar outros modos, tanto dentro desse formato que me é familiar, como dentro de outros.

 Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Fragmento?

Vanessa Macedo: A escolha não foi conceitual, foi intuitiva. Em 2003 fomos chamados para participar do Panorama Sesi de Dança e precisávamos ter um nome. Esse nome precisou ser pensado de um dia para o outro. Na época, estava saindo da Cia. de Danças de Diadema e o trabalho de pesquisa estava sendo desenvolvido com um bailarino desta companhia… Por algum motivo surgiu a ideia de fragmento, indicando algo, para mim, que se relacionava, talvez, a rompimento. Depois esse nome foi ressignificado… Mas sua origem foi essa.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Fragmento?

Vanessa Macedo: De alguma forma a organização como companhia nos faz ter uma hierarquia interna. Sou eu quem escolhe as pessoas com quem vou trabalhar, as temáticas que serão investigadas, os trajetos do processo criativo. Apesar de propor o compartilhamento em tudo, porque desejo que as pessoas estejam tão envolvidas no processo quanto eu, paradoxalmente, me sinto muito solitária. Mas possivelmente é nesse lugar de estar em grupo estando só que habita o meu desejo criativo. Não sei se essa escolha é visível na cena. Geralmente as pessoas ficam sabendo como nos organizamos quando perguntam, não sei se é algo que fica aparente. Mas acho que o modo como as pessoas se organizam implica num resultado cênico específico.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Fragmento? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Vanessa Macedo: O processo criativo é muito compartilhado, mas existe uma autoria coreográfica, e isso é claro para todos. O que gosto de frisar é que é preciso se apropriar do material para que ele passe a ser único para cada um. Também falo muito em autodireção, até porque eu também estou em cena. Gosto que as pessoas resolvam o que proponho de um modo mais interessante do que pensei inicialmente. E isso vira um exercício de contaminação, uma via de mão dupla. Eu os contamino, eles devolvem, eu retribuo, e assim vai. A opção de ser uma companhia deixa um pouco mais definido o papel de cada um. As pessoas que optam em trabalhar dessa forma possuem um desejo ou uma habilidade para atuar como intérpretes. E, provavelmente, não tenham o mesmo desejo, ou habilidade na parte de criação. Entendo muito isso porque fui intérprete dos outros e sou de mim mesma. Tenho um fascínio por esse “lugar” e acho que ele é um lugar de autoria sim, mas a partir de um outro referencial, de uma assinatura que é de um “todo”.

Como a Cia. Fragmento percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Vanessa Macedo: Acho que fazemos parte de um mercado específico, como é para todos. Com frequência ouvimos falar em dança de pesquisa, núcleos artísticos e uma série de outros nomes que parecem surgir ou se disseminar a partir do Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo. Sinto que os editais, principalmente o fomento, se tornaram um espaço de legitimação de determinados artistas, o que parece inevitável, mas também perigoso. Não ocupar esse espaço te coloca à margem. A decisão de constituir uma companhia apenas te coloca num lugar específico. Se nos organizássemos de outro modo estaríamos num outro lugar também específico, ainda que menos comum ou mais híbrido.

Como a Cia. Fragmento vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Vanessa Macedo: Apesar de ser de Natal (RN) e ter começado a dançar lá, não sinto que trago muitas referências do Nordeste. Sinto-me completamente imersa no contexto paulistano e percebo isso nos trabalhos e trajetória da companhia. Quando saímos de São Paulo, o que não acontece com muita frequência, somos reconhecidos como um grupo “tipicamente paulistano”. Acho que é inevitável estar absorvido pelas questões, contextos e sentimentos do espaço em que vivemos. Produzimos na cidade de forma assídua e, nos últimos dois anos, temos conseguido sair um pouco da cidade e do estado. Acredito que reverbera na cidade, mas sinto que a falta de público tem sido um problema recorrente de uma forma geral para trabalhos de dança. Temos atrelado todos os nossos projetos a um trabalho de troca e formação de público porque tenho interesse em discutir essa questão.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Vanessa Macedo: Conversar, conhecer e entender os diversos modos de produção nos possibilita discutir melhor a necessidade de políticas públicas amplas, acessíveis e compatíveis com as nossas reais demandas. A discussão também é pertinente para percebermos a nossa própria história. Não sei se dançamos juntos. O que sinto é que buscamos uma singularidade dentro de um contexto visivelmente plural, mas esse contexto me parece discutir coisas muito próximas. 

Nuvens Insetos, Cia. Fragmento de Dança (SP)

Com base em textos criados pelo público quando respondeu a pergunta “O que você escreveria se fosse sua última carta?”, o espetáculo relaciona o conteúdo dessa correspondência com outras possibilidades de comunicação do corpo, enfatizando a expressividade das mãos e o movimento circular e ininterrupto.

[^1] GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.