“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Maurício de Oliveira & Siameses (SP), realizada via e-mail em outubro de 2013.

Identidade, dentro de uma companhia, é fundamental.

(Entrevista concedida por Mauricio de Oliveira, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Maurício de Oliveira e Siameses? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Maurício de Oliveira: A Cia. Maurício de Oliveira & Siameses surgiu em 2005, logo após o meu retorno de um longo período fora do país. Foram onze anos trabalhando e vivendo na Alemanha e Holanda. Logo que retornei, percebi que poderia começar a pensar na possibilidade de criar um vocabulário a partir de experiências adquiridas com artistas de diferentes origens e backgrounds e, principalmente, pela própria experiência do desenraizamento, do que venha a ser viver e trabalhar em um outro continente com o intuito de viver “arte”.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Maurício de Oliveira & Siameses?

Maurício de Oliveira: O nome Siameses foi escolhido por duas razões: por minha atração pela qualidade do animal, do felino, e, em especial, do gato siamês, astuto, elegante, flexível, preciso… Assim como também, por uma aproximação da ideia dos gêmeos siameses, que caminham juntos, que possuem uma mesma semente e que acabam se parecendo, por genética, por hábitos similares.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Maurício de Oliveira & Siameses?

Maurício de Oliveira: A ideia de se criar vocabulário próprio e vê-lo sendo defendido no cotidiano do estúdio, assim como no palco, foi o que mais me estimulou ao criar a companhia. Isso no que se refere ao corpo e sua presença. Entretanto, com o passar do tempo, queríamos algo mais do que simplesmente uma identidade corporal, queríamos a presença que introjeta nela mesma sua pesquisa, suas vivências, seu cotidiano e, principalmente, suas dúvidas! Ao acharmos que o corpo, só, não era mais suficiente, fomos em busca de uma integração com outras modalidades artísticas, como o teatro e as artes visuais, por exemplo. E, na intersecção com outros mundos, surge um desejo híbrido de algo mais do que a dança, ou seja, a inclusão de vários outros aspectos da existência que possam nos traduzir e nos devolver, a nós mesmos, o entendimento (ou o desentendimento) daquilo que somos ou que achamos que somos.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Maurício de Oliveira & Siameses? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido? 

Maurício de Oliveira: O trabalho dentro da companhia é de desenvolver no artista que participa sua autoridade e identidade. Tornou-se difícil, nos últimos anos, trabalhar com artistas que buscam tão somente um exercício de habilidades físicas ou execução de material coreográfico. Esses artistas já nem se aproximam mais. Gostamos daquele que pensa, que subverte a própria maneira do criador que propõe, que recria nele mesmo a ideia inicial que tem raiz na cabeça do coreógrafo e que consegue fazer com que essa mesma ideia se multiplique em mil outras possibilidades. Esses se tornam coautores, defensores da ideia da autonomia em grupo, em companhia. É um prazer muito grande trabalhar com artistas que têm suas próprias disciplinas e por isso, suas peculiaridades. Identidade, dentro de uma companhia, é fundamental.

Como a Cia. Maurício de Oliveira & Siameses percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere neste aspecto?

Maurício de Oliveira: Temos pensado muito na questão de como aproximar o público do nosso trabalho, e as primeiras perguntas são: Existem elos de aproximação que liguem nosso olhar ao olhar do público? Até que ponto podemos facilitar a apreensão da linguagem? É justo facilitar essa aproximação? Qual a disposição daquele que olha, que recebe? A arte cria problemas, isso é um fato. Essa é sua função genuína. Entretanto, ainda questionamos sobre onde estabelecer a linha entre nosso desejo mais puro e a absorção do fruidor e de suas capacidades de reconhecimento. Em relação às políticas públicas, o terreno é fértil e temos avançado. Existem editais que tornam a vida das companhias viáveis sem a possibilidade de interrupções de pesquisas a um prazo considerável. No entanto, poderíamos pensar em políticas que, com maior inclusão, pudesse suportar uma quantidade maior de grupos, núcleos e/ou coletivos. E é claro que aqui, retornaríamos a uma outra discussão que é a ampliação do público de dança. E de novo, devolveríamos a pergunta: qual é a qualidade daquilo que se oferece ao público? É uma preocupação geral estabelecer uma aproximação?

Como a Cia. Maurício de Oliveira & Siameses vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Maurício de Oliveira: Nasci em Goiânia (GO) e, no entanto, não tenho nenhuma ligação com minha cidade de origem, a não ser as relações familiares. Moro em São Paulo desde sempre e a considero minha cidade, cidade essa de onde opero e estabeleço vínculos em graus diferenciados, no micro, no macro, nessa metrópole que, interessantemente, ainda retém algo de provinciano… Todavia, o desejo é de pensar para além de fronteiras, na problemática da contemporaneidade, que traz tantas dúvidas e nenhuma garantia, por exemplo. Nosso desejo é de fazer reverberar no homem contemporâneo nossas dúvidas e torcer para que algum sortudo consiga ver algo mais que fundamental e vibrante, sendo apontado no horizonte e que, naturalmente, possa nos apontar saídas.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Maurício de Oliveira: Importantíssimo falarmos sobre modos de produção! Importantíssimo percebermos que a “ghetorização” é comum e parte de uma defesa do território e de pontos de vista diversificados. Entretanto, ao analisarmos mais de perto, vemos que aquilo que nos separa é também aquilo que nos une. Talvez aqui possamos entender que sempre estivemos unidos, dançando juntos… Um tango meio desencontrado, meio “goofy”.

Minhas Cavidades Orbitais, Cia. Maurício de Oliveira & Siameses (SP)

O título não só se refere à área do crânio humano que abriga os olhos, aludindo à qualidade única e diferente do que é percebido por cada pessoa, como também faz ressoar o sentido de órbitas planetárias. Assim, coloca junto ao interno do corpo humano o externo e distante espaço interplanetário. O espetáculo é iniciado com uma anfitriã que, embora receba seus convidados no seu ambiente doméstico, cria um cerimonial de protocolo público, que, contudo, beira os limites simultâneos de um ritual cósmico e de uma exposta emocionalidade visceral. O pessoal e o impessoal, da mesma forma que o espaço interno e o distante espaço externo, são levados a um território de contato e fricção, conduzindo a um imprevisível desvelamento das profundezas e ambiguidades da própria personalidade desta anfitriã e da personalidade de seus convidados. A estrutura dramática criada por Maurício de Oliveira utiliza a reflexão estética da filosofia da arte oriental e ocidental para questionar tanto o próprio fazer artístico como também o papel do artista do movimento e a função perceptiva dos vários aparatos críticos que nos envolvem.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.