“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul (RS), realizada via e-mail em outubro de 2013.

Permanecer como uma companhia no contexto de dança hoje é buscar constantemente (e ainda) uma profissionalização dos atuantes na área.

(Entrevista concedida por Cristina Calcagnotto, em outubro de 2013)

Como surgiu a Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Cristina Calcagnotto: A Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul surgiu de fatores compartilhados que se beneficiaram e se fortificaram para sua criação. Segundo Sigrid Nora, fundadora e diretora da companhia em seus primeiros oito anos, a companhia surgiu de “uma arquitetura em rede, da qual participaram fatores codeterminantes, foram as circunstâncias que propiciaram as condições de singularidade para a criação da companhia: um ambiente anterior favorável, através da atuação histórica do Grupo Raízes (1983–1990), as realizações artísticas em geral da comunidade da dança em Caxias e seus desdobramentos socioculturais, o pensamento democrático e descentralizador que dava suporte ao projeto de criação dessa companhia pública, além das demais ações implementadas pela administração pública para uma política cultural para a cidade, defendidas no programa do candidato eleito da época, em 1997: vontade política, sensibilidade e entendimento em relação à importância da produção artística local e sua reverberação nacional, a criação da Secretaria Municipal da Cultura, a normatização e implantação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.”[^1] A companhia surgiu do entendimento, reconhecimento e legitimação daquela manifestação cultural pelo governo da época. Foi criada numa tentativa da comunidade se identificar no processo. Segundo Sigrid, “para que a sociedade pudesse reconhecer-se no projeto, este deveria participar da realidade local vinculando sua atuação artística não apenas como mero instrumento usado pelos governantes como moeda política, ou para atender o propósito investigativo de um repertório próprio montado a partir da concepção de dança de seu diretor, fato recorrente em grande número das companhias públicas, mas, sim, pensado de modo a abrigar ações capazes de participar do processo cultural da cidade. Em uma cidade da natureza de Caxias do Sul, isso significava respeitar a forte contaminação de seu ambiente por tradições culturais diversas.”[^2] E até hoje, é que se busca para a ampliação da atuação da companhia. A criação da companhia “tratou-se de um projeto de comunicação em rede entre Poder Público e sociedade civil” e até hoje funciona com base nessa articulação público-privada. Conforme Renato Henrichs, jornalista e produtor cultural, “a exemplo de outros segmentos artísticos, a Cia. foi beneficiada por uma série de fatores: o crescimento da cidade, inclusive sob o ponto de vista cultural: a criação de leis de incentivo à cultura e a decorrente abertura do poder público para manifestações artísticas, mecanismos que garantem seu funcionamento até hoje.”[^3] Permanecer como uma companhia no contexto de dança hoje é buscar constantemente (e ainda) uma profissionalização dos atuantes na área e proporcionar uma estabilidade para o grupo, para sua manutenção e para a mantença particular de seus profissionais. É fortificar uma política cultural na cidade e dela para fora. O formato da companhia amplia a forma de acesso e de fomento na cultura e na arte caxiense. Ela contribuiu para alavancar inúmeras manifestações da cidade.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul?

Cristina Calcagnotto: Foi escolhido o nome da Cia. de Caxias justamente por se tratar de uma companhia mantida pelo município, ainda que não na sua totalidade. Existe uma forte parceria público-privada, através da lei municipal de incentivo à cultura. A companhia foi instituída pela lei municipal nº 4.677 de julho de 1997, que desde então a trata com esta nomenclatura, nos moldes dos outros corpos estáveis da Prefeitura de Caxias do Sul, quais sejam, a Orquestra Municipal de Sopros e o Coral Municipal de Caxias do Sul.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul?

Cristina Calcagnotto: Aparece no sentido de podermos firmar aquilo que a companhia se propõe, que é trabalhar com processos investigativos e de experimentação em dança contemporânea. Isso porque a Cia. de Caxias adotou, em sua criação, “a lógica de fortalecimento da unidade através da incorporação de distintas vivências corporais via relações de familiaridades e, nesse ambiente, que leva em conta os intercruzamentos, foi que nasceu a composição do elenco inicial. Foram integrados corpos com trajetórias anteriores diversas: atletas, capoeiristas, bailarinos com trajetória em dança clássica, em jazz, em danças gaúchas, e até mesmo corpos com pouca ou nenhuma formação na área do movimento artístico, mas dispostos a colaborar com a proposta.” Essa escolha tem visibilidade nos sentido de subentender que é mantida pelo município, o que não ocorre em inúmeras outras companhias que se dizem companhias oficiais da cidade ou do estado por levarem o nome, mas de fato não o serem. Segundo Sigrid, “É importante o entendimento de que uma companhia pública venha a surgir com o compromisso de atender a função de agente cultural representante de seu estado ou município, considerando-se que igualmente passam a ser representantes da forma do pensar e do fazer de seus lugares de origem, de seu tempo; de seu ponto de vista sobre o mundo e sobre as relações do indivíduo com ele e consigo próprio. A dança contemporânea se situa dentro dessa perspectiva, já que não se define por uma técnica referencial, mas pela diversidade (característica da formação de Caxias do Sul), sua definição se dá através de um sentimento estético. Um modo de dançar que se apresenta mais orgânico, pois respeita, valoriza e desenvolve a natureza dos corpos de seus bailarinos”.

Como a questão da autoria é discutida na Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Cristina Calcagnotto: É sempre uma decisão conjunta entre direção e professores/coreógrafos do grupo. Sigrid Nora, no seu livro Húmus 1, afirma que “no campo artístico, a Cia. de Dança segue a vertente das companhias que apostam na diversidade, e adotou o modelo sem maître e coreógrafo residentes. Com um perfil aberto a companhia busca inserir-se na contemporaneidade privilegiando os processos criativos com base na investigação e experimentação, aposta em obras que priorizem a fusão de linguagens, e investe na valorização do talento local.”[^4] Portanto, em função da Cia. Municipal de Dança não ter um coreógrafo residente, contrata-se coreógrafo por trabalho ou os próprios professores que ali estão instalados coreografam. As tratativas sempre se esbarram na questão do que se pretende no momento, nos propósitos de atuação desta companhia e nas condições financeiras sempre problemáticas.

Como a Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Cristina Calcagnotto: A Cia. de Caxias nasce de uma política pública cultural planejada e se constrói como tal, tanto no sentido de formação de público/plateia, de agentes culturais, de profissionais, de atuantes e críticos, como no sentido de fomento, produção, difusão, descentralização e democratização da dança. Essas ações se dão, não somente pela Cia. de Dança, mas também via Escola Preparatória de Dança (EPD), a escola que a companhia mantém. A EPD mantém em média setenta crianças e adolescentes, estudantes da rede pública de ensino, em um programa sistematizado de artes integradas focado na dança contemporânea. A companhia mantém relação com o mercado da dança, mas ainda de maneira um pouco tímida em função de condições e burocracias que se estabelecem no seu vínculo com o município, mas ousada na tentativa do cumprimento de suas propostas e políticas culturais públicas.

Como a Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Cristina Calcagnotto: A cidade abraçou e se identificou com o grupo. A companhia a representa dentro e fora da cidade e participa também de suas ações institucionais como contrapartida. Segundo o filósofo, escritor e educador Jayme Paviani, avaliando os quinze anos de existência da companhia, ele afirma que o grupo “acrescentou, sem dúvida, modalidades novas de dançar, de expressão corporal, de gestos inovadores de comunicação. Trouxe acréscimos de sensibilidade visíveis e invisíveis. A formação dos sentidos nem sempre pode ser definida de modo objetivo. O corpo próprio é a ponte de ligação entre a consciência e o mundo, o lugar onde nós nascemos na relação com os outros. Sem o corpo não poderíamos nos comunicar, falar, pintar, dançar etc. O corpo nos permite o movimento, o gesto, o olhar. Nesse aspecto, a educação dos sentidos é global e necessária para o bem estar, a felicidade. Um corpo duro, rígido, demasiadamente disciplinado pode estar doente e afetar os relacionamentos. Na realidade, as pessoas põem música para dançar, mas a Cia. Municipal de Dança nos ensina que a música nasce do corpo, o ritmo surge do corpo e não o contrário”.[^5]

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^6] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Cristina Calcagnotto: Devemos dançar juntos. No momento, dançamos juntos e separados. Não se trata da mesma dança, mas sim de uma rede articulada que dança junto, que conquista espaço, que cresce no mundo. A importância dessa conversa implica no fortalecimento do todo. A produção em dança cresce por todos os lados do país, mas, às vezes finge não coexistir com o todo. Muitas produções independentes surgem e coletivos também se manifestam. Grandes companhias circulam mais facilmente e pequenas companhias buscam seu espaço ou encerram suas atividades. A Cia. de Caxias tenta, constantemente, melhorar suas condições, pois algumas delas estão aquém das expectativas, tanto da visão do profissional quanto na qualificação das condições de manutenção desse corpo que dança e de suas produções artísticas. Ela é uma companhia oficial, mas que, por diversas situações, se comporta como uma companhia que precisa dos editais e prêmios para sua sobrevivência e crescimento.

Una Pared, Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul (RS)

Um exercício dinâmico de alta exigência técnica, que desafia as leis da física, explorando a força, equilíbrio e coordenação. Una Pared é um fragmento da obra coreográfica de dança aérea Tres Partes y una Pared, que inova na linguagem, propondo uma mudança na relação entre o corpo, o movimento e o espaço, oscilando entre a máxima liberdade e os limites impostos pelas cordas. A obra é cheia de metáforas, e desafia mais do que a gravidade, a monotonia. Esta obra é parte do repertório da companhia de dança aérea de Brenda Angiel.

[^1]: CALCAGNOTTO, Cristina Nora. Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul: 15 anos. Organização de Cristina Nora Calcagnotto e Mara De Carli Santos. Caxias do Sul: Secretaria da Cultura, 2013, p. 37.

[^2]: Ibid., p. 37.

[^3]: Ibid., p. 40.

[^4]: NORA, Sigrid (org.). Húmus 1. Caxias do Sul: Lorigraf, 2004, p. 191.

[^5]: CALCAGNOTTO, op. cit., p. 40.

[^6]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.