“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a desCompanhia de Dança (PR), realizada via e-mail em outubro de 2013.

Permanecemos como uma companhia por acreditarmos no companheirismo como um mecanismo de continuidade e sustentabilidade dos afazeres relacionados com a dança.

(Entrevista concedida por Cíntia Napoli, em outubro de 2013)

Como surgiu a desCompanhia de Dança? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Cíntia Napoli: A desCompanhia de dança foi criada em outubro de 2000. Desde então mantém um trabalho continuado e ininterrupto. Durante esses treze anos a desCompanhia já passou por várias transformações, diferentes nomes, configurações e modos de fazer. Em 2007 o próprio grupo sentiu necessidade de repensar sua configuração. Com a atualização de uma estrutura que já não dava conta dos anseios artísticos da então Phoros Cia. de Dança, surgiu a desCompanhia de Dança. Essa transformação partiu do nosso posicionamento sobre continuidade, sustentabilidade, vínculos, comprometimento, funções, linguagem, para chegar à ideia de uma companhia. O que buscamos nesse modo de organização é o que a própria palavra traz como definição: grupo organizado com um objetivo específico; indivíduos que convivem. Nosso exercício é tornar possível essa convivência, potencializando as diferenças para uma ideia compartilhada. Permanecemos como uma companhia por acreditarmos no companheirismo como um mecanismo de continuidade e sustentabilidade dos afazeres relacionados com a dança.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que desCompanhia?

Cíntia Napoli: O nome foi escolhido pela necessidade de contar um pouco o que estávamos buscando em 2007. Buscávamos uma estética e linguagem próprias, além da consistência e refinamento dos nossos produtos artísticos, e somente através da continuidade, afinidade e comprometimento poderíamos caminhar para isso. O que de fato interessou e interessa até hoje na ideia de companhia é o que a palavra traz em seu significado literal – grupo de pessoas que compartilha interesses artísticos em comum. O que não nos interessa é a estrutura verticalizada, a relação hierárquica que até hoje é realidade em muitas companhias. O “des” veio como negação desse senso já institucionalizado de companhia. Por isso entendemos que naquele momento queríamos ser a desCompanhia de dança.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da desCompanhia de dança?

Cíntia Napoli: A continuidade do nosso trabalho, o convívio, o exercício das negociações, a afinidade pelo modo de fazer, tudo isso que entendemos como características relevantes em uma companhia é o que mantém nosso processo artístico dinâmico. As funções transitam entre bem definidas e borradas, importando o que cada um tem de melhor para contribuir no momento certo. A partir desse compromisso assimilado por todos, ou seja, como companhia, podemos investir tempo e energia para manter-nos conectados com o processo artístico. Como consequência desse investimento, nossos espetáculos se tornam parte desse processo contínuo e dinâmico.

Como a questão da autoria é discutida na desCompanhia de Dança? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância neste sentido?

Cíntia Napoli: A autoria está presente em tempo integral. O que fazer, como fazer, e para que fazer, tudo é colocado em discussão. O nosso processo artístico valoriza os interesses individuais como elemento fundamental na constituição do coletivo. Nosso trabalho é todo construído a partir da colaboração, em que as particularidades são respeitadas e potencializadas para o trabalho.

Como a desCompanhia de Dança percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere neste aspecto?

Cíntia Napoli: A desCompanhia se mantém financeiramente por meio de editais. Trabalhamos com o ideal de que o próprio trabalho da companhia seja suficiente para nos manter juntos trabalhando. Porém, estamos longe desse ideal. Nenhum integrante alcançou sua autonomia financeira somente com produções da desCompanhia, mas é certo também que estamos compreendendo melhor todo o mecanismo e de alguma maneira tirando proveito do que poderia ser negativo. As atividades paralelas que cada um realiza para seu próprio sustento nos serve como contribuição para o que chamamos de “processo dinâmico”, tudo se torna material para manter vivo nosso processo criativo e não cairmos na homogeneização da produção artística contemporânea.

Como a desCompanhia de Dança vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice e versa?

Cíntia Napoli: Curitiba é uma cidade que exige um grande esforço para se manter um fluxo dinâmico nos diálogos, seja com outros artistas, com o público em geral, ou mesmo com a política cultural da cidade. Porém, já percebemos um resultado do nosso investimento de treze anos de trabalho. O entendimento dos mecanismos culturais e sociais, reflexo do tempo de trabalho investido, interferem diretamente no nosso modo de existir e consequentemente surge daí uma relação de troca mais intensa. Temos conquistado nosso espaço e percebido que já existe uma assimilação dos dois lados, tanto da cidade no nosso modo de fazer como também da nossa produção artística interferindo diretamente no cotidiano da cidade de Curitiba.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Cíntia Napoli: Entendemos que a dança é um projeto em construção que se faz na prática e no diálogo. A conversa nos serve tanto como ponto de partida para transformação do nosso modo de fazer como também para o entendimento e fortalecimento daquilo que queremos seguir. Por esse caminho, a produção em dança ganha consistência em sua diversidade. O contato com outros modos de existir fortalece o particular e enriquece o coletivo, afinal, para a dança contemporânea o importante é dançarmos juntos, mas não igual.

Feche os Olhos para Olhar, desCompanhia de Dança (PR)

Mais que uma reflexão, é uma construção viva sobre o olhar, uma experiência em tempo real. Assim como uma espécie de jogo, o espetáculo vai se revelando através de uma organização espontânea. A criação foi permeada por um desejado sentimento de estranheza, devolvendo na mesma proporção um estado de atenção, um olhar de espanto, um olhar de coisa nova. O olhar em questão é o ver que se abre para as qualidades dos outros sentidos. O que olho quando vejo? Onde está seu olhar nesse instante? Feche os Olhos para Olhar é um convite ao público para novas formas de perceber o mundo.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.