“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Esther Weitzman Cia. de Dança (RJ) realizada via e-mail em Outubro de 2013.

Como o próprio nome sugere, me sinto o tempo inteiro na companhia de inúmeras pessoas que estão colaborando, interferindo, sugerindo e me provocando para continuar criando e seguindo com o repertório.

(Entrevista concedida por Esther Weitzman, em outubro de 2013)

Como surgiu a Esther Weitzman Cia. de Dança? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

 Esther Weitzman: O desejo de construir uma companhia, de começar a criar, começou em 1996. Comecei pesquisando dentro do meu Studio Casa de Pedra, convidando alguns alunos e experimentando algumas ideias. Mostrei alguns fragmentos em algumas mostras de dança e nos apresentávamos com um outro nome de companhia. Em 1999, tivemos nossa primeira estreia com um pequeno Fragmento do espetáculo Terras, no Panorama de Dança do Rio de Janeiro, e, por sugestão de uma das bailarinas, coloquei meu nome na companhia. Em 2000, tivemos nossa bem sucedida temporada no Espaço Cultural Sergio Porto com nosso primeiro espetáculo: Terras e Presenças no Tempo. Como o próprio nome sugere, me sinto o tempo inteiro na companhia de inúmeras pessoas que estão colaborando, interferindo, sugerindo e me provocando para continuar criando e seguindo com o repertório do grupo. Essas pessoas são pesquisadoras, artistas, estudantes, criadores, alunos e público.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Esther Weitzman?

Esther Weitzman: Havia um outro nome escolhido por mim anteriormente e, confesso, que era bem fraco. Estávamos em 1999, no Rio de Janeiro, eu era a caçula de uma geração de cariocas que estavam criando intensamente com uma política forte para a dança na época. Havia uma questão de assinatura da sua criação e, uma bailarina chamada Carolina Aguiar, que estava trabalhando comigo, me sugeriu que trocasse o nome da companhia, disse que gostava muito do meu nome, achava forte e que era pertinente que eu batizasse a companhia com meu próprio nome. Eu relutei um pouco no começo, mas depois achei uma boa ideia.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Esther Weitzman Cia. de Dança?

Esther Weitzman: Sim, essa escolha tem visibilidade na nossa criação. Há quatorze anos sigo junto em parceria com o meu criador da luz, José Geraldo Furtado, ele veste o trabalho com a sua luz e trocamos muito. Assim também, com a minha ensaiadora Miriam Weitzman, professores que estão sempre dando aula e trocando com o grupo, bailarinos criadores, que mesmo não estando em cena continuam acompanhando o trabalho da companhia. Revezamentos com dramaturgas que estão sempre por perto, bailarinos convidados, enfim há uma companhia que trabalha junta. O grupo de profissionais que seguem juntos reflete na concepção dos trabalhos.

Como a questão da autoria é discutida na Esther Weitzman Cia. de Dança? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

Esther Weitzman: Nunca paramos para discutir a autoria dos trabalhos. Existe uma capitã, alguém que direciona o navio, ela escolhe a temática e dá um direcionamento. A capitã na companhia é a coreógrafa e a diretora. Isso sempre teve um fluxo tranquilo, e cada um fica responsável pela sua criação e assina por isso.

Como a Esther Weitzman Cia. de Dança percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Esther Weitzman: Eu sempre tive muita sorte com as escolhas dos profissionais que trabalho e que trabalhei. Nunca me enquadrei no sistema de mercado vigente. Independente das dificuldades financeiras, das políticas públicas favoráveis ou não, sempre achei possibilidades de continuidade. Dentro da companhia sempre achamos caminhos de sobrevivência e apostamos em novos trabalhos para nos mover em novas criações e circulações. Sempre tivemos chance de mostrar o trabalho dentro dos nichos que se interessam pelo trabalho da companhia. Acho potente nos constituirmos como companhia, nesse aspecto é mais forte a relação com as políticas públicas, isso nos ajuda muito no reconhecimento do trabalho continuado.

Como a Esther Weitzman Cia. de Dança vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Esther Weitzman: Adoraria ter mais espaço dentro da minha própria cidade para circular com os trabalhos da companhia. Quando a companhia iniciou, tivemos a chance de circular por outros municípios e intercambiamos muito. Com certeza a falta de política pública nos atrapalha em poder dar a continuidade devida. Se ela de fato tivesse continuado, isso teria nos ajudado a ir adiante e poder fomentar mais troca e interferir em outras áreas da cidade. Mesmo assim, nos sentimos prestigiados quando circulamos pelo Rio de Janeiro e quando estamos em temporada em algum teatro da cidade. Já estivemos em ocupação dentro de um teatro de dança, com uma vasta programação, e foi a primeira vez que tivemos o impacto da cidade e seu entorno, o quanto a falta de informação e fomento de nossa atividade artística precisa ser encampada e divulgada para ganharmos mais espaço na mídia e interesse de um novo público.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Esther Weitzman: Dançamos juntos e sempre. A conversa é de uma importância ímpar para todos nós. Sem ela não podemos nos modificar, ser tocados para termos coragem de existir de uma outra maneira, se for necessário. Estas perguntas são provocativas e, ao respondê-las já nos modificamos, para começar a pensar em como se reinventar e se posicionar mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez e sempreeeeeeee. Obrigada pela chance!

O que Imagino sobre a Morte, Esther Weitzman Cia. de Dança (RJ)

A consciência da nossa finitude, da morte, do envelhecimento e as mudanças decorrentes na movimentação que o corpo pode realizar foram os pontos de partida para O que Imagino sobre a Morte. Para além de uma perspectiva nostálgica, a convivência com a ausência, com a falta de algo que já não existe mais, é percebida a partir da necessidade em persistir e continuar, em um movimentar que redesenha pensamentos e percepções. O que pode surgir das diferentes situações de luto com as quais nos confrontamos todos os dias? O que nos move, e, mais ainda, como somos capazes de nos mover? Longe de apontar respostas para tais questões, importa perceber que os caminhos trilhados nos levam a reelaborar reflexões acerca de nós mesmos, do outro, e do mundo.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.