“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com o Grupo Lagartixa na Janela (SP), realizada via e-mail em Outubro de 2013.

Entendemos “grupo” como um estado de encontro de pessoas que se identificam e trocam conhecimentos, experiências e criam um percurso juntas.

(Entrevista concedida por Uxa Xavier, Thais Ushirobira, Barbara Schil, Andrea Fraga, Suzana Bayona, Aline Bonamin, Tatiana Cotrim e Talita Bretas, em outubro de 2013)

Como surgiu o Grupo Lagartixa na Janela? Por que permanecer como um grupo no contexto da dança hoje?

Lagartixa na Janela: O grupo Lagartixa na Janela teve seu início em 2010, como um grupo de estudos de supervisão de Uxa Xavier e com o objetivo de compartilhar e refletir a ação em dança com e para crianças. Sua formação era de profissionais da dança que trabalhavam com este público. O atual Lagartixa é uma decorrência dessa primeira formação: Thais Ushirobira e Barbara Schil faziam parte do grupo de estudos, como também trabalhavam com Uxa. Aline Bonamin e Suzana Bayona foram tomando parte no grupo, também tinham em comum o fato de terem trabalhado com Uxa, com exceção de Andrea Fraga, já com um percurso como artista educadora na Emia (Escolar Municipal de Iniciação Artística) e afinidade de pensamento sobre infância e dança, e Tatiana Cotrim, que entrou num segundo momento. O desejo de atuar além do espaço criativo da sala de aula foi tomando forma à medida que refletíamos sobre uma ação criativa com crianças. Uxa sentia necessidade de redimensionar sua relação de artista e educadora no diálogo com as crianças, em um contexto não convencional da cena – o desejo rascunhado era o de intervir em espaços já frequentados pelo público infantil, muitas vezes “desgastados” por sua funcionalidade, propondo um novo olhar, mais criativo e cheio de possibilidades de “estar”. Assim, surge o “Lagartixa na Janela/criação”, com a proposta de criar para espaços públicos. O projeto Poemas Cinéticos, primeiro do grupo, quando concebido por Uxa e Carmen Morais, para o Edital de Criação ProAc, convidou artistas da dança que também trabalhavam com crianças, pois para dançar com e para pequenos, partimos de que o artista deva ter um entendimento desse universo e dessa cultura – afinal, será por meio de sua ação como performer que o diálogo se estabelecerá; enfim, saber com quem está falando. Quanto à configuração de grupo: essa pergunta aparece como uma boa provocação para nós. Entendemos “grupo” como um estado de encontro de pessoas que se identificam e trocam conhecimentos, experiências e criam um percurso juntas. Nunca pensamos na palavra companhia, e houve uma sinalização para a constituição de um “coletivo”, mas entendemos que essa configuração só deva acontecer a partir do desejo de todos na constituição e manutenção da estrutura que já temos, que implicaria em todos assumirem muitas funções além de performers e criadoras. Somos um grupo muito novo, temos somente dois anos de vida, e todas essas reflexões são pertinentes, para pensarmos em nossa constituição como artistas da dança no contexto atual.

Como foi escolhido o nome do grupo? Por que Lagartixa na Janela?

Lagartixa na Janela: Talvez a palavra certa não seja escolha, mas sim, um acontecimento que gerou a escolha. Quando ainda éramos o grupo de estudos, nos reuníamos em uma sala de um escritório, no período da noite, e em todos os encontros víamos uma lagartixa na janela. Ela ficava imóvel, nos observando durante todo o período do encontro. Num determinado momento, pensamos que seria interessante termos um nome, para criarmos uma identidade deste grupo. Vimos a lagartixa (nossa companheira e observadora) e o nome nasceu. Primeiro como algo que tem uma conotação lúdica, mas que também podemos associar com um bicho que está presente em nossas vidas, que nos observa e que gera curiosidade. Seu rabo mesmo quando cortado renasce e esse seu poder de regeneração é um ato muito importante no contexto da arte.

Como a escolha de se organizar como um grupo aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos do Grupo Lagartixa na janela?

Lagartixa na Janela: No grupo, há funções claras: direção/proposição e performance. Nosso processo criativo dá-se pela investigação conjunta, a partir de elementos relativos ao espaço e ao olhar/criar da criança para e nesses espaços (simbólico e concreto), a nossa relação de jogo e comunicação como performers/criadoras. Uxa concebe as propostas que estão fundamentadas no nosso tema de investigação e a partir destas criamos ações e partituras, que vão sendo aproveitadas ou descartadas de acordo com a coerência à proposta. Existe um papel claro da direção, “o olhar de fora”, mas também muita liberdade e escuta entre todos. Talvez o que nos diferencie de uma companhia, como definido em sinopse sobre a mesa, seja uma maior autonomia enquanto performers/criadoras, na medida em que isso é requerido pela própria proposta: as escolhas em tempo real nos colocam em um lugar de responsabilidade pela ação que, sim, tem imbricamentos estéticos e, consequentemente, pedem uma outra direção. Há um “roteiro” (temos uma pesquisa e dramaturgia que nos dá suporte) a ser seguido, mas a maneira como ele se dá, a cada dia, é uma decisão comprada pelo grupo, em função de todas as contingências: complexidades do espaço (estrutural, público, tempo etc.), naquele dia, naquele momento. A existência da performance se dá, fundamentalmente, na relação: entre nós e entre Lagartixas e espaço; assim, privilegiamos a horizontalidade, para que o encontro aconteça. E isso define ao nosso ver, mais uma vez, uma estética. Não temos uma primeira bailarina ou espaço na cena onde uma se destaca ou mesmo uma coreografia marcada, por exemplo. Essa é uma autonomia que não está dada, ela é conquistada em proporção direta ao processo de maturação do grupo e da conscientização de sua proposta artística, abarcando, inclusive, as diferentes trajetórias e experiências de cada performer.

Como a questão da autoria é discutida no Grupo Lagartixa na Janela? A opção de ser um grupo possui alguma relevância nesse sentido?

Lagartixa na Janela: Autoria nunca foi um tema relevante ao grupo. Pensamos, muitas vezes, em protagonismo: o espaço está em primeiro plano, ele é o autor e confere autoria. O que definimos são temas de investigação e procedimentos de pesquisa corporal que vão ao encontro de nossa proposta. Importante ressaltar que espaço, para nós, é composto por muitas camadas, inclusive e principalmente, a criança ‘no mundo’.

Como o Grupo Lagartixa na janela percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como um grupo interfere nesse aspecto?

Lagartixa na Janela: O modo de produzir e as escolhas estéticas de um grupo geram uma identidade, e esta é quem cria as possibilidades de constituir-se na cena da dança e no mundo. As relações com o dito mercado de dança e com as políticas públicas caminham paralelamente. O mercado para trabalhos que têm como foco o público infanto-juvenil ainda é restrito. Temos poucas produções, e é raro o reconhecimento da crítica para essas. Em comparação ao teatro, em que temos críticos para as produções infanto-juvenis, a dança está aquém, com poucos profissionais que conheçam essa matéria e que pensem esse modo de produção. Vemos como é mínima a agenda de teatros privados para a dança contemporânea e, sabemos, temos produções de espetáculos que poderiam estar numa temporada de um ou mais meses em um teatro privado. No nosso caso, que optamos por performar em espaços não convencionais, essas agendas não nos afetam tanto – podemos, sim, performar em halls, escadas etc., de teatros privados e, por que não?, construir uma agenda para esse tipo de performance e reconhecê-la como uma obra tão “importante” quanto às que acontecem nas grandes salas. Com relação às políticas públicas: sim, grande parte de nossa sobrevivência vem de editais. Como todos nós sabemos, temos poucos e com uma verba que não possibilita a contemplação de todos os grupos, companhias e núcleos realmente merecedores, tanto pela qualidade de seus trabalhos, como pelo tempo de existência. Nesse ano de 2013 conseguimos criar uma agenda junto ao SESC que nos possibilitou sobrevivermos (sermos pagas pelo nosso trabalho) como também nos fortalecermos e nos identificarmos como grupo na cena da dança que deseja seguir adiante. Circulamos por três cidades e ficamos numa temporada de quase 45 dias no SESC Belenzinho. Atualmente estamos no SESC Ipiranga, fomos convidadas a participar da Mostra de Artes para Crianças, e em Novembro estaremos no SESC Santo Amaro, participando desse projeto Modos de Existir. Pensando assim, o SESC, também como um protagonista do mercado, tem sido um grande parceiro na divulgação e fomentação do Grupo Lagartixa na Janela. Temos também a ação do Lagartixa/aula que já está acontecendo desde o início desse ano, que é um modo de lidar com o “mercado”, ou seja, sustentar financeiramente o grupo, como também ser o material de investigação e alimento para a continuidade e aprofundamento da nossa pesquisa em dança contemporânea para crianças. Ainda assim, dado o panorama oferta × capacidade de absorção/fomento passamos, invariavelmente, pela angústia da imprevisibilidade futura e a continuidade do grupo, concretizada pela necessidade de abarcarmos tantos outros trabalhos que paguem nossas contas. É um grande investimento nos bancarmos como grupo nesse contexto, uma ação apaixonada (e não que isso seja ruim, ao contrário), quase: acreditar que nossa proposta artística só acontece e continuará acontecendo no aprofundamento de encontros.

Como o Grupo Lagartixa na Janela vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho do grupo reverbera na cidade e vice e versa?

Lagartixa na Janela: Nossa relação com a cidade é inerente: o Lagartixa nasceu e se mantém em espaços públicos da cidade. Nossa “sala de ensaio” é uma praça, com suas características, que vão desde a topologia até os “habitantes” jovens, crianças, idosos e até cachorros! O espaço “praça” reverbera nas nossas criações, buscamos ativá-lo, enquanto local de encontro e de estar, mesmo quando performamos em espaços outros, possibilitando novas percepções e até, quiçá, novas possibilidades de estar nesses locais. O que intentamos é que nossa ação interfira diretamente no modo de existir desses lugares, criando relações com os frequentadores, e, de certa forma, trazendo um olhar mais sensível e poético para esses espaços, quando os ocupamos de forma inusitada, buscamos dançar e brincar com e na cidade criando um diálogo com a criança. A cidade pode ser ocupada pelas crianças, fora os locais restritos como parquinhos e “espaços de brincar”? Ao ocupar uma praça na Zona Oeste da cidade, é muito marcante a organização dela: um grande espaço aberto onde os cães ocupam e brincam, e um pequeno espaço gradeado para as crianças… Nossa ocupação será uma ação crítica, também, à ordem deste e muito outros lugares.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Lagartixa na Janela: Acreditamos que conversar tem muitas camadas e características, o mais importante no ato de conversar e ou dançar é escutar. E a escuta é um exercício, ela não está dada, ela é conquistada. Quando vimos o grande número de companhias, núcleos e grupos que estão fazendo parte desse projeto compreendemos como a possibilidade de entender um panorama de muitas diversidades em seus modos de existir. Nesse percurso serão reveladas as biografias dos núcleos, companhias e grupos que estão contextualizados em um momento social e político, enfim somos o que somos por muitas razões e, sem dúvida nenhuma, estamos dentro de um percurso e processo muito mais amplo que nossos desejos individuais. “Existirmos: a que será que se destina?”, diria Caetano Veloso.

Poemas Cinéticos, Grupo Lagartixa na Janela (SP)

Criada para o público infantil, Poemas Cinéticos reúne um grupo de performers investindo na dança em parques urbanos e espaços públicos. A dimensão arquitetônica e simbólica desses espaços é potencializada como um grande “quintal” de criação. Contemplação, memórias, sentidos e ludicidade se alternam nesta proposta em que o encontro da dança com os elementos do espaço estimulam o imaginário do público.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.