“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com o Grupo Pró-Posição (SP) realizada via e-mail em outubro de 2013.

O Grupo Pró-Posição é uma organização familiar como os coletivos de teatro […] que surgiram nos anos 1970. Esse tipo de agregado de artistas se organizava como família, pois seus integrantes, mesmo que não fossem parentes, dividiam não só o espaço e as funções de trabalho, mas a casa, a comida, como uma comunidade.

(Entrevista concedida por Andréia Nhur, em outubro de 2013)

Como surgiu o Grupo Pró-Posição? Por que permanecer como um grupo no contexto da dança hoje?

Andréia Nhur: O grupo surgiu em 1973, fundado por Janice Vieira e Denilto Gomes, e marcou os anos 1970 com suas produções engajadas e afinadas com o movimento de contracultura da época. Em 1983, o grupo interrompeu suas atividades para retornar em 2008, por meio da parceria entre mãe e filha (Janice Vieira e Andréia Nhur). A escolha de manter o nome do grupo – tanto sua definição (grupo), quanto o prefixo “pró” que determina o apontamento de uma posição – é uma proposta de continuidade sobre as descontinuidades que o interromperam nos anos 1080. Trata-se de uma escolha política de anunciar algo que agora está fora de contexto. O incômodo diante desse passado que transborda no presente nos interessa.

Como foi escolhido o nome do grupo? Por que Pró-Posição?

Andréia Nhur: O grupo tinha o intuito de romper com os modos hegemônicos de se fazer dança no início dos anos 1970, no Brasil. Em suas primeiras produções, o grupo publicava manifestos nos jornais, fazendo apologia a uma dança libertária, desprovida de beleza, crítica e questionadora. Nesse período, o país tinha demarcações políticas muito claras, de modo que havia apenas dois lados para se estar, ou o sujeito era de direita ou de esquerda. O pró, nesse contexto, era uma escolha assertiva, ou seja, o indicativo de uma posição contra a ditadura, contra o imperialismo e a favor dos movimentos de esquerda.

Como a escolha de se organizar como um grupo aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos do Pró-Posição?

Andréia Nhur: O Grupo Pró-Posição é uma organização familiar como os coletivos de teatro (depois chamados de “teatro de grupo”) que surgiram nos anos 1970. Esse tipo de agregado de artistas se organizava como família, pois seus integrantes, mesmo que não fossem parentes, dividiam não só o espaço e as funções de trabalho, mas a casa, a comida, como uma comunidade. Logo, trabalhar em família hoje (com mãe, pai e colaboradores muito inseridos na história do grupo) recria esse tipo de organização.

Como a questão da autoria é discutida no Grupo Pro posição? A opção de ser um grupo possui alguma relevância nesse sentido?

Andréia Nhur: A fase atual do Pró-Posição é marcada, sobretudo, por propostas que se assemelham a autobiografias dançadas, ou dança-documentários, que fazem uso de citações do próprio grupo ou de outras obras. Mas o uso da citação, para nós, aparece como citabilidade, ou seja, não se trata de citar a obra de outro (ou as nossas próprias obras) como referências históricas. Pensamos a citação como uma rachadura no tempo presente para que surjam possibilidades a partir daquilo que é citado; citamos para fazer desaparecer a citação em seu próprio desdobramento. A autoria de nossas criações e daquilo que citamos, nesse sentido, não é estanque, não pertence a, mas é compartilhada.

Como o Grupo Pró-posição percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como um grupo interfere nesse aspecto?

Andréia Nhur: Estamos no interior paulista, e isso muda a relação com os “mercados” da dança, pois as curadorias ainda têm dificuldade de digerir as relações entre o que está no centro e o que está na periferia. O interior paulista é pouco “atendido” financeiramente pelas gestões culturais do estado de São Paulo, assim, tudo o que vem do interior ainda é visto como inferior ou, então, como raridade. Em Sorocaba existe apenas uma lei de incentivo à cultura que abrange todas as áreas artísticas e culturais, com uma verba ínfima a ser dividida. Como a cidade não dá conta de abrigar o que fazemos, apelamos para editais públicos maiores, em que concorremos com uma grande quantidade de artistas de outros lugares. Nós, e todos os outros que pleiteiam essas verbas, estamos pautados pela lógica da exceção, ao mesmo tempo dentro e fora de um pretenso “mercado” – que é forjado enquanto se tem a verba. Fora disso, existe a possibilidade de “vender” a obra já montada ou entrar na programação de festivais, o que configura outros eixos de mercado. No entanto, para os artistas, são mercados espasmódicos, não constituem continuidade. Isto não é bom nem ruim, é uma realidade de trabalho, deste tempo, desta conjuntura que prevê processos sempre descontínuos, sob agrupamentos temporários. Nós, como grupo-família, buscamos continuidade, isto é, trabalhamos com as mesmas pessoas, com os mesmos eixos de criação, mesmo que fiquemos períodos sem verba, o que determina, em algum ponto, as escolhas estéticas, os modos de mover, o tempo de ensaio e o que será possível ou não.

Como o Grupo Pró-posição vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho do grupo reverbera na cidade e vice-versa? 

Andréia Nhur: Nos anos 1970 e 1980, o grupo movimentou artistas e intelectuais, formou bailarinos, atores e criou público para acompanhar suas propostas. Hoje, reverberamos com mais timidez na cidade, embora exista um público crescente que acompanha os trabalhos e jovens que procuram oficinas com o grupo. Já a cidade reverbera muito no que fazemos, porque abriga nosso espaço e tempo de trabalho, além dos colaboradores que estão envolvidos em nossos processos.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Andréia Nhur: Os modos de produção refletem e fazem refletir as escolhas estéticas, as configurações de trabalho e os corpos implicados nisso tudo. Pensamos que nossa dança – a que fazemos hoje com o Grupo Pró-Posição – é uma via possível de se fazer história da dança dançando. Nessa mesma direção, os modos de produção estão, além da ordem do discurso verbal, desdobrando-se, de alguma maneira, nas obras de dança – não como conteúdo, mas como ressonância nos corpos, nas escolhas, nas configurações de trabalho. Os assuntos da dança estão imbricados na dança. Juntos ou não, esses assuntos dançam.

Vis-à-Vis, Grupo Pró-Posição (SP)

“Vis-à-vis” é uma expressão francesa, que significa frente a frente. Terceiro trabalho da parceria entre Andréia Nhur e Janice Vieira, Vis-à-Vis dá continuidade à proposta de reativação do Grupo Pró-Posição (1973–1983). Produzido entre França (2011) e Brasil (2012), o trabalho conta com a colaboração da pesquisadora francesa Isabelle Launay (Université de Paris 8 e Centre National de Danse Contemporaine d’Angers). Nesta criação, mãe e filha bailarinas, emergentes de contextos políticos e culturais distintos, conflitam suas memórias e perspectivas de arte. A mãe viveu e dançou, de maneira engajada, os anos 1960 e 1970 no Brasil; a filha nasceu nos anos 1980, quando o combate radical saía de cena para dar lugar ao radical chic. As conversas que daí surgem colocam frente a frente não só dois corpos de idades e movimentações diferentes, mas também as ideologias, os sonhos e as ações.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.