“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com  a KeyZetta e Cia. (SP) realizada via e-mail em outubro de 2013.

[…] não sabemos se somos exatamente uma companhia apesar de estar lá, de ter “cia” no nome; somos um modo de ir durando e, como efeito disso, seguindo na pesquisa e produzindo acontecimento.

(Entrevista concedida por Key Sawao e Ricardo Iazzetta, em outubro de 2013)

Como surgiu a KeyZetta e Cia.? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

Sawao e Iazzetta: Nos conhecemos mais ou menos em 1995, e afinidades e vontades artísticas resultaram em nosso primeiro trabalho em parceria. A partir daí, continuamos, duramos, criamos juntos e em colaboração com outros artistas. Quanto à segunda parte da pergunta, não sabemos se somos exatamente uma companhia apesar de estar lá, de ter “cia.” no nome; somos um modo de ir durando e, como efeito disso, seguindo na pesquisa e produzindo acontecimento.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que KeyZetta?

Sawao e Iazzetta: O nome foi escolhido na época em que os editais para dança começaram a surgir, e a razão da escolha por este nome teve a ver com isso também. Como era necessário comprovar um tempo de trabalho continuado e, anteriormente, assinávamos nossos trabalhos como Key Sawao e Ricardo Iazzetta, achamos que seria a maneira mais eficaz de sinalizar esse histórico de atividades. Por alguma razão e pela falta de outro nome na época que pudesse definir algo que estava começando, decidimos por Núcleo Key Zetta e Cia. “Key Zetta”, olhando em retrospectiva, ao ser repetido no decorrer do próprio tempo como nome, também foi variando seu significado para cada um de nós e para cada um que trabalha conosco, ao ponto de já poder também abandonar o âmbito estrito dos nomes próprios que o compõe e passar a contemplar uma coisa que não é mais o trabalho de uma dupla, mas uma terceira, quarta, quinta… coisa. Sintetiza isso e acho que por isso perdurou, até mesmo porque já tivemos vontade de mudar. Chegou até mesmo ao nível de uma decisão, realmente decepar o nome e se anunciar de outro modo, o que talvez aconteça, mas por hora acabamos por insistir nele. Até porque isso se tornou uma “brincadeira” muito interessante dentro do próprio grupo, uma brincadeira que contempla a própria insuficiência da linguagem e das definições.

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da KeyZetta e Cia.?

‪Sawao e Iazzetta: Nós não nos organizamos no sentido tradicional de uma companhia, ou como entendemos (ou não entendemos) ser uma companhia, nos organizamos como um grupo de artistas que a cada projeto desenvolve e descobre uma dinâmica. A maneira de organização se dá enquanto acontece, a partir das necessidades que se apresentam. Atualmente somos um grupo de pessoas trabalhando há algum tempo juntos e sentimos acontecer uma intensificação em nossos processos criativos. Isso, acreditamos reflete nos trabalhos atuais da “companhia” o que, por sua vez, sim talvez interfira de algum modo na maneira como somos vistos e percebidos.

Como a questão da autoria é discutida na KeyZetta e Cia.? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido? 

‪Sawao e Iazzetta: Observamos um certo sentido, eixo para os projetos e os processos e seus deslocamentos – enquanto diretores, ajudamos a tornar visíveis esses eixos, essa virtualidade que se insinua do decorrer dos processos, às vezes mais um, às vezes mais outro (k ou z), mas sobretudo nossa soma – e também cada vez mais as pessoas que estão junto se apropriam, a partir do comum em tudo isso que acontece;  e isso é o que parece que acontece por aqui. Sobre a segunda parte da pergunta, realmente essa questão da companhia, como já observamos em outra resposta, é talvez uma questão de palavra, de linguagem, no que toca nosso modo de organização, e num sentido que, se levado realmente a sério, por exemplo: “sim nós somos uma companhia” talvez contribua para, de alguma maneira, transvalorar o que se subentendia por esse termo até pouco tempo atrás, ao menos aqui no território chamado Brasil. Talvez esse termo ainda esteja inscrito em como nos designamos, apenas para desejar uma duração e espaço para pesquisa e atuação como um grupo de pessoas e que de alguma forma tem acontecido, e não como instrumento de gerar hierarquia ou uma forma de organização a ser seguida.

Como a KeyZetta e Cia. percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

Sawao e Iazzetta: Talvez essa seja a discussão mais atual no meio de artistas da dança atualmente, bastante complexa e que merece muitas considerações, o que não poderíamos dar conta aqui (mercado de dança, editais, falta de uma política pública de dança). Os editais que existem há pouco tempo têm gerado muitas pesquisas e produtos que irão ser fruídos, avaliados, utilizados etc., a partir de inúmeros pontos de vista, além de gerar inúmeros outros efeitos (a falta de uma real política pública para dança e a maneira como o mercado atua também influem no cenário). Atualmente conseguimos dar continuidade ao trabalho criando nossos projetos via subsídio dos editais e/ou prêmios para a dança; vivendo a pressão de tomar fôlego a cada vez. Mas algo muito importante para nós é a convicção em focarmos nossos projetos neles mesmos, na necessidade artística, resistindo aos apelos e pressões que o mercado ou alguns editais parecem às vezes insinuar.

Como a KeyZetta e Cia. vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa?

Sawao e Iazzetta: Reverbera na medida em que a experiência afeta quem se faz presente, cada vez mais apontando para uma afirmação da ação e a intensidade do próprio acontecimento e também reverbera em nós como “produtores”/”proponentes” dessa experiência. Esta parte do processo, o encontro com o público, abre diálogo, detona novas reflexões e impulsos. Quanto à questão da cidade, muitas coisas poderiam ser ditas como, por exemplo, o modo como essa cidade concentra tantas influências, tantas forças diferentes e suas intensidades, como propulsora para nos “pedir” a criação de modos viáveis de existir em meio a tantas  ofertas e demandas e velocidades que aqui emergem.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Sawao e Iazzetta: Sim, na medida em que nos diferenciamos nesse campo comum e geramos singularidades e diferenças. Então o privilégio dessa via geradora da possibilidade de diferenciações e variações pode sim ser uma maneira de dançarmos juntos, tão intensa quanto a capacidade porosa de afetar e ser afetado dos conversadores. E mais alegre em si e por si na medida em que não se faz uso disso como instrumento de empoderamento, mas sim como a simples oportunidade de “nos tornarmos diferentes de nós mesmos” a cada instante e de ver, de partida, isso em si como algo interessante. E isso, em nosso modo de ver, mais que um lenga-lenga é uma longa longa longa… e interessante conversa, que sempre continua em seus diferentes modos. O que você acha? 

Obrigado por Vir, KeyZetta e Cia. (SP)

Cinco pessoas num lugar qualquer questionam qual agradecimento seria justo hoje, qual reflexão cabe em suas bocas, qual agradecimento vibra em seus corpos. Criado originalmente em 2005, durante o projeto Residências Artísticas Oficina Cultural Oswald de Andrade, estreou no Panorama Sesi de Dança do mesmo ano. Nesta remontagem do espetáculo, Marina Massoli, Beatriz Sano e André Menezes foram convidados para integrar o trabalho. A ideia inicial era remontar fielmente a peça de 2005, mas durante os ensaios perceberam que os caminhos percorridos desde então, somados às novas reflexões, direcionava para o que pode ser uma revitalização da obra.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.