“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com a Lamira (TO) realizada via e-mail em outubro de 2013.

O que acontece e que a Lamira vibra, atualmente, é o conceito de “grupo”, ou seja, as pessoas se reúnem, vibram em torno de um ideal, compartilham as ideias, discutem e assumem seus papéis.

(Entrevista concedida por João Vicente, em outubro de 2013)

Como surgiu a Lamira Cia. de Dança? Por que permanecer como uma companhia no contexto da dança hoje?

João Vicente: Interessante pergunta, mas se faz necessário alguns apontamentos iniciais: primeiro sobre o conceito da Lamira enquanto companhia. Na verdade, há tempos que retiramos o nome de “Cia.” para a Lamira, esse nome tem permanecido apenas em nossa página do facebook. O que acontece é que a Lamira vibra, atualmente, é o conceito de “grupo”, ou seja, as pessoas se reúnem, vibram em torno de um ideal, compartilham as ideias, discutem e assumem seus papéis. Claro que também existem artistas convidados que agregam o grupo; a estrutura organizacional de companhia não nos é possível, e o pensamento agregador do grupo tem sido o mais viável. Assim sendo, vamos à primeira pergunta: a Lamira surgiu após a montagem de um espetáculo aqui em Palmas que fez muito sucesso. Quando vimos, já estávamos sendo solicitados para festivais, para mostras, reescrevendo para editais federais e tendo que abrir um CNPJ. A partir desse momento sentimos também a responsabilidade de continuar a produzir espetáculos de qualidade artística ímpar, de maneira a, inclusive, servir como referência ao público da nova capital Palmas, de apenas 25 anos, e nossa nova cidade. E então, é o que vem acontecendo. De lá pra cá, já são quatro montagens e muita circulação (dezesseis estados, só em 2013). Cada vez mais profissionais aparecem na Lamira para as mais diferentes áreas (produção, fotografia, iluminação, cenografia etc.) e são aproveitados no próprio “mercado” palmense. Da mesma maneira, a Lamira tem se tornado não apenas referência artística para a cidade, mas também cresce no cenário nacional. Vem se ocupando não apenas nas montagens e circulação de espetáculos, mas também na formação dos artistas palmenses de dentro e fora do grupo, formando alianças com outros grupos e áreas. Aliás, quem disse que a Lamira é apenas de dança? Pelo contrário, a mescla com o teatro e o circo chega cada vez mais forte e vem impregnando a estética e o pensamento do grupo, principalmente no que tange à pesquisa da interseção das diferentes linguagens a partir da fisicalidade. Vamos agora a segunda pergunta: tomarei a pergunta, substituindo a palavra “companhia”, por “grupo”, ok?! Vamos lá. É verdade que cada vez mais artistas independentes se juntam para produzir nas mais diversas áreas. Graças aos apoios financeiros e regras gerais de contratação e manutenção de elenco, fica cada vez mais prático produzir temporariamente e, em seguida, finalizar um projeto para iniciar outro. Da mesma forma, vemos companhias sobreviverem apenas por possuírem um aporte financeiro de grandes patrocinadores que garantem sua manutenção. Em nosso caso, em particular, contratar artistas temporários, apenas por projetos, é uma possibilidade, mas não é a solução. Isso porque, em Palmas, sofremos de carência de mão de obra especializada, onde torna-se mais que necessário que a Lamira tenha que formar seus profissionais e garantir a “sobrevida” deles, de maneira a garantir, a esses profissionais, um lugar em Palmas, no Norte do Brasil, onde possam exercer sua profissão e caminhar com a Lamira. Ou seja, novamente o conceito de grupo torna-se mais adaptável à nossa realidade, já que devemos investir na formação e manutenção de uma “turma” que possibilite a garantia de uma qualidade técnica e estética para nosso trabalho. De nada valeria, por exemplo, contratar pessoas de fora sem a preocupação em formar o profissional dentro da cidade. Em suma, num lugar onde não se tem a mão de obra, mister se faz produzi-la, já que importá-la ficaria cada vez mais cara e não geraria potências para a própria cidade e, consequentemente, para a própria Lamira.

Como foi escolhido o nome da companhia? Por que Lamira?

João Vicente: O nome da companhia seguiu a partir de dois requisitos: 1. tinha de ser um nome curto e feminino (alguém nos disse que era melhor); 2. não deveria ter o nome de ninguém, já que “Fulano Cia. de Dança” era demasiadamente egocêntrico para o que pretendíamos. Então surgiu a palavra Lamira que significa…? Isso é um segredo federal, uma surpresa! Na verdade, brevemente, quando fizermos aniversário de grupo, realizaremos um concurso para quem criar o melhor significado para Lamira. Por enquanto, Lamira é o que se deseje dizer sobre, com o significado que melhor convier, e talvez sempre será. Por enquanto, plagiando os mineiros: Lamira é Lamira, uai!

Como a escolha de se organizar como uma companhia aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos da Lamira?

João Vicente: Organizar-se como um grupo repercute da seguinte forma, no processo criativo: em resumo, todo mundo mete o bedelho, dá pitaco, propõe, sugere, mas as palavras finais ficam com dois, o diretor artístico (João Vicente) e aquele que está assinando a parte específica (iluminação, cenário, figurino etc.). Exemplo: quando a equipe técnica de um espetáculo se reúne para discutir sobre o figurino, todo mundo pode falar sobre ele. O iluminador dará seu ponto de vista, o elenco dará sua visão, o cenógrafo poderá propor mudanças etc., mas, no final, quem vai peneirar o que foi falado será o figurinista, junto com o diretor artístico. Temos notado que isso faz com que a equipe toda se aproprie do espetáculo, se sinta mais dentro e atuante. E, ao mesmo tempo, ideias novas, mais agregadoras tem surgido. São momentos delicados, em que é preciso muito respeito e carinho para falar do trabalho do outro, mas tem dado resultados positivos e educativos para todos. Esse processo, sem dúvida, interfere no resultado dos espetáculos, já que faz com que ele tenha um pouquinho de todos e esteja em constante estado de mudança.

Como a questão da autoria é discutida na Lamira? A opção de ser uma companhia possui alguma relevância nesse sentido?

João Vicente: Na Lamira, a autoria será sempre daquele que é convidado para assinar a função. A coreografia será sempre do coreógrafo, mesmo que todos do elenco auxiliem e componham trechos ou sequências coreográficas; a iluminação será sempre do iluminador, mesmo que o cenógrafo proponha novos desenhos, cores etc., e assim por diante. Isso para nós é bem tranquilo e, às vezes, faz com que a ficha técnica fique repleta de nomes. Bem que gostaríamos de colocar a assinatura do coletivo, mas os próprios meios legais exigem a praticidade de “um” autor. Quanto à música, ela é um capítulo a parte. Para nós, tem sido cada vez maior a preocupação em produzir espetáculos com músicas autorais ou que não precisem pagar o Ecad. Isso porque o valor estipulado para o pagamento torna inviável a produção de espetáculos cênicos destinados a preços populares, que é o caso da Lamira. Não somos contrários ao pagamento, é claro, mas produzir um espetáculo que cobre R$ 10,00 para sua plateia (num país onde lotar salas de espetáculo tem sido cada vez mais raro) não pode ter a mesma taxa do Ecad que um evento que cobre R$ 500,00 por mesa para uma determinada apresentação. Reflitamos.

Como a Lamira percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como uma companhia interfere nesse aspecto?

João Vicente: Novamente responderei a essa pergunta, como as anteriores, tomando a palavra “companhia” por “grupo”. A Lamira, graças à hibridez de seus trabalhos, consegue transitar em diversas oportunidades criadas para a dança e para o teatro. No entanto, percebemos que o teatro tem produzido mais possibilidades artísticas de mostras que a própria dança. Da mesma forma, sua preocupação (a do teatro) tem sido mais a de compartilhar entre os grupos do que promover a competição em festivais. O mercado de dança tem nos parecido cada vez mais setorizado, cartesiano, ao invés de cada vez mais compartilhador e holístico. Naturalmente, num país onde se faz distinção entre dançarino e bailarino, seria impossível negar a herança histórica de uma arte que se preocupou em separar o “primeiro bailarino” do convívio com o “corpo de baile”. Mas acreditamos que exista, na atualidade, a necessidade de quebrar tabus, superar divergências e apostar nos diversos rumos que a dança pode tomar. Isso é mais claro, por exemplo, quando falamos nas políticas públicas. Temos percebido que a dança necessita cada vez mais de se politizar (como faz o teatro). Não apenas São Paulo, Minas ou outro estado do sudeste, mas todo o Brasil. É preciso que o dançarino saia da sala de aula e ganhe seu lugar na pólis, participe das discussões, construa redes de relacionamentos nacionais e se engaje na política de sua cidade. Particularmente em Palmas, a Lamira tem a oportunidade de estar numa cidade onde se tem apenas cerca de 230 mil pessoas, permitindo que o seu vizinho seja o secretário público ou você consiga encontrar o prefeito no shopping center. Mesmo assim não descartamos o fato de também passarmos por dificuldades na construção de novas políticas agregadoras. Esse é um desafio nacional, portanto, a articulação da dança também assim deve ser.

Como a Lamira vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho da companhia reverbera na cidade e vice-versa? 

João Vicente: A Lamira é genuinamente palmense. E se orgulha por demais disso. Nasceu em Palmas, emprega artistas desta cidade, representa-a em circulações de espetáculos, dialoga sobre a cidade, por onde passa. A Lamira é, atualmente, o grupo de artistas palmenses que mais viaja representando a cidade e o estado. Aliás, muita gente tem conhecido sobre Palmas através da Lamira. Isso faz com que nossa responsabilidade seja cada vez maior. Primeiro porque os espetáculos têm de ser de mérito artístico para representar o estado Brasil afora; segundo porque a Lamira tem se tornado referência, em artes cênicas, para todos os artistas palmenses. É o único grupo que paga mensalmente seus funcionários, garantindo uma empregabilidade, enquanto artista cênico. É comum, por exemplo, encontrarmos pessoas de diferentes áreas artísticas nos espetáculos da Lamira. Também é comum que os profissionais que assinam a ficha técnica dos espetáculos “lamirianos” sejam convidados para trabalhar com outros grupos e/ou em outros locais. Da mesma forma, a Lamira se engaja na formação artística, e, constantemente, estabelece parcerias com a Universidade Federal do Tocantins para levar pensadores, professores, diretores etc. Seus projetos, quase sempre, englobam a formação profissional, de seus integrantes e de outros artistas. Nesse sentido a Lamira encara seu compromisso de caminhar juntamente com a cidade. Isto é, crescer e formar sua jovem plateia; formar futuros profissionais; manter parcerias com escolas de dança e teatro pela cidade; aliar a academia universitária com a prática de grupos; formar alianças com outros grupos pelo Brasil; divulgar a cidade; estimular a circulação de espetáculos por Palmas. Enfim, a Lamira tem reverberado pela cidade na construção da identidade e da estima palmense.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

João Vicente: Havíamos dito antes da necessidade da dança tornar-se menos cartesiana e mais política. Ora, um excelente começo está no diálogo. Conversar sobre os diversos modos de produção faz com que o próprio Brasil dançante se conheça. Saber das diferenças, encontrar parceiros nas dificuldades, propor soluções e contornar os problemas iniciam-se a partir do diálogo. Conhecer  outrem é provocar primeiramente o estranhamento antropológico para, em seguida, reconhecer-se também estranho. Mas quem disse que é necessário encontrar um caminho. São tantos os caminhos com dificuldades diferentes. O interessante é o diálogo entre os que trilham esses diferentes caminhos para que, a partir daí, compartilhem soluções e alegrias. Dançar junto poderia ser isso, reconhecer as diversas necessidades e encontrar as múltiplas oportunidades de desenvolver todas elas. Não acredito que isso seja uma utopia.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.