“Para Começo de Conversa” consiste em uma série de entrevistas realizadas com as companhias, grupos e núcleos que participam do terceiro módulo do Modos de Existir, realizado na unidade Santo Amaro do SESC–SP entre os meses de outubro e novembro de 2013. Nestas entrevistas poderemos tangenciar como cada companhia, grupo ou núcleo tem se colocado diante das questões que nortearão as seis conversas que irão compor o grupo de estudos: Outros Modos de Existir Conversando. Abaixo você poderá acompanhar um começo de conversa com o Núcleo Artístico Luis Ferron (SP) realizada via e-mail em outubro de 2013.

Entendo núcleo como um aglutinado de artistas voltados para o desenvolvimento de um projeto específico.

(Entrevista concedida por Luis Ferron, em outubro de 2013)

Como surgiu o Núcleo Artístico Luis Ferron? Por que permanecer como um núcleo no contexto da dança hoje?

Luis Ferron: No meu caso entendo núcleo como um aglutinado de artistas voltados para o desenvolvimento de um projeto específico. Utilizo essa terminologia nesse sentido, pois minha característica como criador é justamente trabalhar com a diversidade corporal e cultural. Nesse sentido meus projetos se estabelecem a partir da união de pessoas específicas para desenvolvê-los, fato que estabelece um outro tipo de organização que não das nomeadas companhias de dança. Ou seja, para falar do mestre-sala convido mestre-sala, para falar de tambores convido batuqueiros e assim por diante.

Como foi escolhido o nome do núcleo? Por que Luis Ferron?

Luis Ferron: Pensei e ainda penso em mudar esse título. Entretanto faço parte de um tempo e espaço em que as obras estão vinculadas ao nome do diretor, proponente, coreógrafo. Há tempos atrás vivi a época dos grupos de dança onde companhias eram as mesmas até hoje conhecidas no contexto paulistano e nacional, exemplo: Cisne Negro, Balé da Cidade, Stagium, Corpo e por aí vai. Entretanto, paralelo a essas, existíamos e fazíamos dança como qualquer uma delas, no entanto, com uma diferença a considerar: não éramos subvencionados financeiramente por nenhuma instituição, seja ela pública ou privada, portanto um modo artesanal de fazer. Vivíamos de dar aulas, de coreografar e de pequenos cachês oriundos de algumas apresentações em lugares outros como eventos, filmes comerciais, boates etc. Com o advento da Lei de Fomento da cidade de São Paulo, muitos desses artistas, incluso eu, deveríamos comprovar uma trajetória × como núcleo artístico constituído e com isso, no meu caso, utilizei essa denominação para justificar minha trajetória “solitária” já que não possuía um grupo fixo ou companhia, mas sim companheiros de trabalhos.

Como a escolha de se organizar como um núcleo aparece no processo criativo de vocês? Essa escolha tem alguma visibilidade nos espetáculos do Núcleo Artístico Luis Ferron?

Luis Ferron: Não entendi muito bem a segunda questão, o que queres dizer com visibilidade nos espetáculos? A primeira questão já está respondida na questão de número um, mas reforço: o meu processo de criação sempre está vinculado ao tema inicial do projeto e, como disse, meus projetos trabalham com diversidades corporais e culturais e por sua vez organizo o núcleo sempre a partir do tema, pessoas e perfis destinados à coesão temática. Nesse sentido não só aparece, mas fica explícito isso nos meus processos.

Como a questão da autoria é discutida no Núcleo Artístico Luis Ferron? A opção de ser um núcleo possui alguma relevância nesse sentido?

Luis Ferron: De qual autoria você está falando? Corporal, musical, letras, textos, vídeos, organização cênica? Nos meus trabalhos me alimento das memórias do elenco do momento, já que trabalho com artistas escolhidos de acordo com o seu perfil em coesão com a temática proposta, consequentemente penso que todos são autores, e minha função, ainda, é organizar esses materiais e tentar gerar algum sentido também coeso ao tema.

Como Núcleo Artístico Luis Ferron percebe sua relação com o dito mercado de dança e com as políticas públicas para a dança? A decisão de se constituir como um núcleo interfere nesse aspecto?

Luis Ferron: Sim, percebo a minha relação desde os primórdios de 1983 e posso afirmar que a minha maneira de estar como artista permanece, de alguma maneira, a mesma quando me refiro à integridade com que me relaciono ao meu fazer. Mesmo vivendo sob os mecanismos e suas conhecidas labutas, assim como a maioria dos artistas que fazem dança cênica nesse país. Entenda, a minha decisão de chancelar o meu fazer através dessa denominação de núcleo está totalmente atrelada à Lei de Fomento, uma solicitação da Secretaria de Cultura para justificar o meu percurso artístico. No entanto, hoje entendo que essa denominação faz sentido quando penso na minha maneira de estabelecer parcerias para novas concepções, ou seja, formamos um núcleo de pesquisa para discutir determinado assunto específico, e eu não conseguiria discutir samba com quem não fosse do samba, assim como não discutiria um corpo deformado sem a presença desses corpos e por aí vai. Um modelo de companhia, como conhecemos, costuma trabalhar com um elenco estável, e eu não acredito que o mesmo elenco possa discutir qualquer assunto. Note, o fato de utilizar essa denominação não garante salários contínuos como as companhias mencionadas anteriormente e, por sua vez, entendo a migração de tantos artistas que pulam de núcleo em núcleo na busca de uma continuidade do seu fazer. Isso tudo só permite que façamos um determinado projeto pautado pelo tempo e finanças que o poder público estabelece. Portanto, a questão do aprofundamento, mesmo preconizado pelo próprio edital, quando se diz fomentar a continuidade de pesquisa, fica comprometido. Para a minha continuidade busco em outras parcerias essa possibilidade através de envolvimento com seus projetos e de alguma maneira vou refletindo o meu fazer, mas sinto muita falta de poder aprofundar um determinado projeto com o mesmo elenco por mais tempo. Quando consegui fazer isso, como foi o caso de Sapatos Brancos, foi através de outras instituições, como o próprio SESC, que permitiu a longevidade e aprofundamento da obra. Com isso, posso dizer que a denominação núcleo serviu para justificar minha trajetória perante uma instituição pública, ou seja, com ou sem essa denominação meus projetos teriam sido desenvolvidos desde que eu tivesse o aporte financeiro para tal.

Como o Núcleo Artístico Luis Ferron vê sua relação com sua cidade de origem? Como o trabalho do núcleo reverbera na cidade e vice-versa?

Luis Ferron: Sou paulistano e amo estar nessa cidade, e por sua vez minhas relações são sempre iniciadas aqui e a partir daqui. Quando decidi falar do carnaval, foi a partir do carnaval paulista e, sobretudo, o paulistano. Nasci e cresci aqui, devo tudo que sei e tenho a São Paulo. Minhas fontes inspiradoras nascem a partir daqui, entenda, sou paulistano roxo. Tenho muito orgulho de produzir nessa cidade e em partilhar com ela. Não posso dimensionar o quanto o núcleo reverbera ou reverberou, mas sei que desde que atuo e com a nomeação do tal núcleo, sempre me preocupei em estabelecer um diálogo com a cidade nos mais variados setores de atuação. Penso que essa preocupação também gerou caminhos nesse sentido.

Esta entrevista é uma ignição para os Outros Modos de Existir Conversando. Há quem diga que a conversa é uma via privilegiada pela qual o comum ganha forma.[^1] Nessa perspectiva, qual a importância de conversar sobre os modos de produção em dança hoje? Afinal, dançamos juntos?

Luis Ferron: Não, ainda não dançamos juntos. Vivemos uma sociedade setorizada a qual, mesmo no mesmo nicho, discute assuntos de suma importância no que se refere à complementariedade do outro nos seus próprios guetos. Vejo os artistas, cada qual na sua busca e, sobretudo, de sobrevivência, à mercê dos agenciamentos aí implícitos; a produção de outros conhecimentos de outro lado; pequenos grupos discutindo políticas públicas, enfim considero, como sempre considerei, importante o trânsito entre os assuntos pertinentes ao nicho. Mas entendo que pelo próprio status quo como engrenagem da produção nacional e local, cada qual está buscando a sua maneira de permanecer vivo e atuante. Não julgo isso, mas entendo sim a necessidade de criarmos mecanismos que favoreçam os encontros entre a classe.

Baderna Zona Sul, Núcleo Luis Ferron (SP)

A coreo-instalação Baderna Zona Sul é o resultado da  primeira etapa do Projeto Baderna – Reverberações Antropofágicas, contemplado pelo 13º Edital de Fomento à Dança na cidade de São Paulo (2012), o qual tem como proposta promover a criação a partir de uma rede de variáveis que abarque a diversidade cultural e corporal da região na qual ele se instala. Nesta etapa, o Núcleo Luis Ferron utilizou o Ninho Sansacroma como sede da sua residência e agregou artistas da região do Capão Redondo com o desejo de gerar criações inéditas a partir de aspectos culturais ímpares e pertinentes a essa região. Dessa forma, o Projeto Baderna faz dos deslocamentos a sua mobilidade, e nessa direção assume a instabilidade como território de potência e inéditos.

[^1]: GIELEN, Pascal; LAVAERT, Sonja. Art and common: a conversation with Antonio Negri.