Na abertura da mesa de hoje, Maíra Spanghero propôs conceitos-chave: práticas de acolhimento e de generosidade; abrir a possibilidade para o outro; apaziguamento do ego; práticas de humor e alegria. E ainda, lidar com o território em exercícios de empoderamento para si e para o outro. Essas foram boas conexões com o que aconteceu durante todo o encontro. Em uma troca honesta, os participantes trouxeram experiências, questionamentos e modos de existir diversos que foram forma e conteúdo da convivência e do intercâmbio de vivências.

Neste post de encerramento, comentários, além do encontro provocativo, sobre Episódico, com o Projeto DR, e o espetáculo Drifting/Em Deriva, com Gustavo Ciríaco e António Pedro Lopes.

Para falar sobre o tema “Por um exercício político em tempo real”, Sílvia Soter, professora da UFRJ e pesquisadora em dança; a coreógrafa Lia Rodrigues; Tiago Ribeiro, que ministrou a Residência Composição do Comum; e Thiago Costa, responsável pelo Bureau Deambulante.

Vamos ao derradeiro texto desta maratona de formas de ver/fazer a dança, com novos teores trazidos pelos participantes de hoje.

Olhando para o outro lado do muro ou sobre sair da bolha

Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho. Os homens se libertam em comunhão.

(Paulo Freire)

Sílvia abre a conversa contando como seu interesse na emergência de projetos sociais em dança levou-a a fazer um mapeamento das ações que estavam ocorrendo no Rio de Janeiro. Com isso, chegou a um projeto na Favela da Maré e convidou Lia Rodrigues, com  experiência em formação continuada na área, para agregar potência e conhecimento à ação. Lia, então, resolveu transferir o trabalho de sua companhia para a favela, estabelecendo residência em um galpão de um dos bairros da Maré. Hoje, fazem parte do eixo de Arte e Cultura da Redes da Maré, que agrega projetos para o desenvolvimento da Maré. O projeto do Centro das Artes está voltado para a Difusão, Criação e Formação em Arte. Sílvia e Lia trazem, dessa experiência na favela da Maré, vários apontamentos sobre a convivência do parco, do difícil, contrastado com o estar a serviço de algo que parece ser realmente importante. Mais extraordinário do que o sucesso de uma coreografia, a dimensão da realidade do lugar onde estão as estimula a ser mais criativas nas maneiras de produzir e se relacionar. E isso brilha nos olhos. A recusa em viver na bolha da fábula da Cidade Maravilhosa, delimitada à zona sul do Rio, levou-as a intercâmbios que não as tornam operárias de um modo de fazer, mas subvertem o convívio de realidades diferentes. A diferença é notada e discutida. Tem gente que tem cara de rica! Isso já aponta muitas coisas. E por que a rica está aqui?

Não há garantias de nada. Mas a precariedade das relações aponta novas configurações. Atualmente, o desafio está em aprender a ensinar. Nessa experiência pioneira em que há o deslocamento para dentro de uma situação não favorável de aprendizado, um centro de difusão em arte, que visa à formação e criação, está submetido a parcerias para lidar com as realidades do território dividido entre comandos e milícias. Mas elas não estão naquele lugar para viver os problemas. Tampouco para reproduzir modelos. Talvez, trabalhando lá, promovam alguma forma de apaziguamento, no sentido de se relacionar de modos mais pacíficos/artísticos? Estão comprometidas em promover um local de encontro, no mínimo. Só a dimensão do que podem proporcionar em relação ao espaço físico do galpão, que é imenso, por exemplo, já diferencia vivências e ações. Nesse trabalho, que exige um exercício de escuta e de eterna vigilância, Lia conta que vive em conflito permanente com as próprias escolhas. Não vê possibilidades de apaziguamento interno. Sua necessidade em fazer aquilo é maior do que alguma remota certeza de que possa mudar as coisas na favela. Em permanente esforço de estar, apesar de não pertencer àquela realidade, sente que lá é seu lugar. A situação de instabilidade, o conflito a interessam. Na prática, interessa-se por como a obra é afetada pelo estilo de vida e militância.

Tiago Costa nos conta, então, como uma vivência política, através da arte, aconteceu em uma comunidade machista em um bairro de Pernambuco. Ao mudarem para lá, ele e um grupo de artistas tentaram achar uma configuração possível de coexistência. Decidiram-se por uma novela em tempo real e a encenaram, pelos becos da localidade. O conflito foi inevitável, pois, inicialmente, a comunidade sentiu-se ofendida com a proposição. Apesar disso, no desenrolar da encenação, a população se entregou à proposta e participou ativamente. A realização da novela mudou a aceitação da presença deles e tornou possível a convivência com o “diferente”.

Qual o papel da arte? O que ou quem a valida como tal? Entre apresentar a mesma obra em um teatro de Paris e na favela, quais as influências do lugar e do público sobre a obra? Onde a arte está sendo veiculada? Para quem? Quem são os consumidores de um mercado ainda a existir? Quem esteve, consumiu arte/dança no evento Modos de Existir da Dança é intrinsecamente relacionado ao que se produziu. Estamos fazendo arte para nós mesmos? E a ilusão dos fomentos e afins? Como lidar com isso?

Entre pares, também se potencializam dúvidas.

Thiago Costa fala de seu trabalho/vida/arte, Bureau Deambulante, como uma forma de expor dentro e fora da bolha. Perceber a circunvizinhança. Ele vai mudando de tática durante a performance e, nas falhas, também vislumbra estratégias. Não vê como separar arte da vida.

Sílvia se diz pessimista no diagnóstico, mas otimista na ação. Ela pertence a um projeto que está criando um chão para a arte. Um chão sobre a água, literalmente. Favela da Maré não é um nome à toa. Penso nas “ilhas flutuantes”, de Eugenio Barba, diretor do Odin Teatret e fundador da Antropologia Teatral: “é o terreno incerto que pode se perder embaixo dos pés, mas que pode permitir o encontro, a superação dos limites pessoais”. Há construtores de palcos sobres as águas. E os princípios ético-estéticos são sua base. Sílvia propõe que o mundo seja menos desigual. Não quer se tornar uma operária, mas não vai esperar editais para agir e criar para si o que acredita. Semear sobre a água requer coragem para abandonar as seguranças da terra firme. Mas na união entre pessoas que, mesmo na precariedade, acreditam na possibilidade de brotar, um terreno fértil se configura.

Espetáculos

Episódicos resumiu, quase didaticamente, muitos pontos do encontro. Traz modos de existir do artista e promove o exercício político em tempo real. Procedimentos são a própria cena e bancam o espetáculo. As artistas se expõem e se relacionam na arena, entre elas e com o público. Criticam-se e procuram o “estado” real. Deu? Quando está bom, quando passa ou não chega ao ponto? Assumem as cenas em uma avaliação final. No reconhecimento de procedimentos adotados por quem faz teatro-dança, como “exaustão”, “coach de ator e de voz” o que me devia confortar, só instiga mais. Autofagia, metalinguagem… Exibir procedimentos, escancarar modos de fazer. Desconstrução seletiva que revela-se em estratégias. O DR é um grupo dotado de talentos que consegue envolver o espectador, ao final, em uma discussão, ponto a ponto, sobre a nota para cada cena apresentada. Uma plenária se estabelece. As notas são sempre arredondadas para cima, com anuência da plateia que reconhece, no suor de Aline Bonamin, Priscila Maia, Sheila Arêas e Tarina Quelho, os décimos que faltam à exatidão dos números. Os porquês são destacados. Ao meu lado, uma menina defende seu ponto de vista sobre uma nota polêmica. Isso é vida pulsante e atuante. E discutindo as relações, também se faz arte.

Drifting/Em Deriva

O último espetáculo encerrou a programação envolvendo a todos em sua rede. A dança dos corpos de Antonio Pedro e Gustavo trazem jeitos e trejeitos do cotidiano. Às vezes exacerbados ou desconstruídos, os movimentos repetidos vêm para a cena em apropriações que remetem a convenções gestuais e personagens do dia a dia de uma cidade. Enquanto isso, todos cantamos Sampa com eles. Com vidas resumidas em frases, mais histórias logo nos são contadas. As realidades têm caráter poético, enquanto fitas brilhantes, de repente, ventam embaralhando os princípios e os fins. Há estouros, sons sobrepostos e chuva de brilho! A plateia, enredada como pontos equidistantes em um mapa da cidade, discute qual é a melhor localização para o ponto seguinte em relação um ao outro.  Conectados, temos que nos mover juntos, a convite dos artistas, invadindo o palco e, bem de perto, negociar movimentos para, finalmente, descansar uns nos outros. Mas o descanso é breve, pois uma festa nos aguarda! Somos servidos (e ajudamos a servir) com gostosuras que favorecem o brinde, o abraço, a celebração. Um espetáculo que fechou com chave de ouro a convivência de dias tão intensos em que fomos o que somos: artistas. Com a oportunidade de nos encontrar para falar/fazer/ser arte juntos.

À deriva estamos todos, basta nos deixar levar…

Encerramento

Em Modos de Existir da Dança 2013, fomos levados em parcerias e colaborações pela curadoria certeira de Marcos Villas e Maíra Spanguero .

Como guardiã e narradora das memórias do encontro espero ter honrado com as falas e apresentações de cada participante. Por minha vez, sinto-me privilegiada em expor meu ponto de vista e anseio por, de alguma forma, ter englobado outros.

Que as sutilezas não se percam em palavras registradas, mas antes, nas entrelinhas, remetam à preciosidade do que é conviver, pois alternativa não há. Que sejam potentes os ecos do encontro. Em mim, esses ecos não estão fora, mas ressoando dentro, pelo convívio, e me transformam, atualizam o que sou. Agradeço a cada um a marca deixada.