por Carlinhos Santos, 2016

 

A terceira mesa do Modos de Existir 6Comunicação em Rede: Publicação Digital – reuniu artistas e pesquisadores que coordenam publicações digitais de dança: Ivani Santana, da Revista Eletrônica MAPA D2[1], da Bahia; Gustavo Bitencourt, do portal idança.net, do Rio de Janeiro; Rodrigo Monteiro, da plataforma 7X7, de São Paulo; Rodrigo Andreolli, um dos curadores da plataforma on line Modos de Existir, de São Paulo; e Sidênia Freire, representante do SescTV, também de São Paulo. A mediação e provocação foi da curadora do Modos de Existir, Sigrid Nora.

Uma das questões que moveu as conversas foi a seguinte: ”como a dança pode ocupar um lugar virtual?”. Rodrigo Monteiro, do 7X7, trouxe referências do projeto artístico que, segundo ele, é sobre e para a dança. A ideia para a criação do 7×7 surgiu em 2009, no Festival Contemporâneo de Dança, em São Paulo com concepção da artista Sheila Ribeiro. Interessava a produção de textos fora dos modelos acadêmicos e jornalísticos, buscando outro jeito de escrever dança. No primeiro 7X7, sete artistas escolheram sete trabalhos como foco de sete textos finais, posteriormente publicados no portal idança.net.[2]

Desde então, o 7X7 busca reorganizar suas metodologias e estratégias de permanência, visibilidade e pertinência. Hoje o espaço virtual se mantém através de contribuições de artistas, pesquisadores e outros interessados em abordar a dança. O diálogo é aberto à publicações em outras áreas e em outros portais. A meta é desenvolver pensamento digital para falar em dança. No ambiente do 7X7, ressaltou Rodrigo Monteiro, busca-se outros parâmetros, outras interlocuções, com o foco nos artistas da dança e suas obras. O lugar da escrita, nesse contexto, é poroso: o texto pode ser elogioso, questionador ou um conectivo poético. Na conversa emergiu a seguinte questão: como o 7X7 edita, dialoga; como dá visibilidade aos textos e às propostas recebidas? Na perspectiva, deleuziana, que é da mediação compositiva, busca-se afirmar a abrangência dos textos, na perspectiva de “uma dramaturgia do texto”.

Ivani Santana instaurou sua fala a partir das articulações em rede que a Revista Eletrônica MAPA D2 e o Programa de Artes em Dança (e Performance) Digital focam: são ambientes de reflexão, investigação e produção de obras com recursos tecnológicos. Trata-se da dança com mediação tecnológica, para difusão. Busca aproximar artistas e academia para tentar equacionar situações recorrentes, sintetizadas em perguntas-desafios: como falar para o aluno que não tem referências? Como saber o que acontece com línguas próximas à nossa? Onde estão os outros? As respostas às indagações exigem a aproximação da dança das plataformas tecnológicas, ou seja, a dança com mediação tecnológica.

As pesquisas impulsionadas a partir do conceito de “arte em rede” evidenciaram realidades próximas no contexto ibero-americano. A deriva foi, então, a aproximação desses universos, garantindo a possibilidade de uma perspectiva de estudo específico, assegurando a informação do ponto de vista acadêmico. É também nesse contexto que foi criado o site do grupo de pesquisa da Universidade Federal da Bahia, espaço que contempla periódico acadêmico, levantamento bibliográfico, mapeamento de lugares, festivais e centros de pesquisa, além de eixos curatoriais em vídeodança. O desafio, moto-contínuo, é estabelecer formas de falar sobre esse material, jeitos e modos de dizer.

Com publicação bimestral e edição bilíngue (português e inglês), a Revista Eletrônica MAPA D2 busca ser um referencial de rede, afirmando que, mais do que um modelo de escrita, ela tem um potencial estratégico para a dança em vários sentidos: potencial de alcance, potencial de articulação e de partilha. Sobretudo, tratam-se de estratégias de conexão com seus percursos e potências. Na terceira edição, a MAPA D2 tematizou corpo, tecnologia e conexão a partir de parâmetros acadêmicos. Reforçou assim a troca de informação de caráter assumidamente acadêmico, incluindo também registros de processos de criação e reunindo obras criadas por outras sete universidades. A revista afirma-se como facilitadora para o contexto de um país continental. Outras ações destacadas por Ivani Santana foi a existência do grupo interdisciplinar de estudos e um grupo de pesquisa acadêmica, o GT Poético, lugar de fricção entre a universidade e o mundo cultural.

Na explanação sobre as atuações da Sesc TV, de São Paulo, deu-se destaque para a atuação do Canal Cultural da Regional São Paulo, que tem distribuição pelo Canal 38, da Oi TV. Trata-se de uma produtora de conteúdo que atua com produtoras independentes. Existem séries que integram o acervo do Sesc Regional SP e que podem ser disponibilizadas para instituições educativas e culturais. A identidade do canal se faz através da possibilidade de documentação audiovisual com obras de caráter curatorial e com eixos temáticos. Na área da dança contemporânea há uma série que estreou em vinte de maio de 2009. O foco é fazer uma espécie de mapeamento da diversidade de grupos e pesquisas. O que vai ao ar são versões editadas das obras. A organização da Sesc TV inclui curadorias internas e externas, além de consultorias. A meta é a mediação com o público, visando o atendimento e o aumento de público para a dança. O formato dos programas veiculados inclui entrevistas com coreógrafos, bailarinos e cenógrafos que falam sobre os espetáculos e seus conceitos artísticos.

Em setembro de 2015, o site da Sesc TV contabilizava um acervo com registros de 38 companhias e 40 obras. Há um empenho em manter contato com universidades para hospedar o site, bem como promover a disponibilização e difusão através das outras unidades do Sistema S. Há, sobretudo, a vontade e o objetivo constante de promover conexões e trabalhos em rede com os profissionais da dança.

Rodrigo Andreolli, um dos articuladores do site Modos de Existir[3], plataforma on-line que funciona como uma acervo de dança, destacou que o pensamento curatorial para a plataforma consiste na construção de um outro modo de olhar para os materiais textuais existentes. Uma das ações durante a sexta edição do Modos de Existir, foi a organização de uma editora que disponibilizou o material produzido nas edições anteriores do Modos de Existir em forma de coleção impressa. O site permite que cada um crie sua própria coleção: “o site vai além da memória, tem o potencial de uma rede de criação de conteúdos para a dança. A ideia da coleção contempla o que se pode mostrar e o que está invisível.”

Há dez anos no ar, o portal idança.net criado e coordenado pela jornalista Nayse Lopez abriga, dentre outros ambientes, o movimento.org[4], que articula artistas e pesquisadores latino-americanos; o idança.txt[5], com textos e artigos da área e o idança.doc[6], com registros audiovisuais em torno de coreógrafos brasileiros.

Representando o idança.net, Gustavo Bittencourt destacou que o momento do portal é movido por uma indagação: em que os artistas estão interessados? Destacou que, diariamente, o idança recebe de trinta a quarenta sugestões de pauta vindas, principalmente, do Rio de Janeiro e de São Paulo. O desafio é ampliar a abrangência e o alcance. O impasse é, também, de manutenção financeira das atividades. Destacou que, do edital de R$ 200 mil recebido pelo programa O Boticário na Dança, só foram recebidos R$ 100 mil. Portanto, os rumos da plataforma são incertos. Ou, no mínimo, desafiadores.

Três perguntas para Rodrigo Andreolli:

Qual o conceito/proposta do site Modos de Existir?

O site sure da necessidade de criar uma nova composição a partir do conteúdo textual produzido durante o Modos de Existir ao longo de seus módulos. Esses textos, hospedados até então em um blog temporário, ganham uma nova configuração, com uma nova possibilidade de navegação através do site. Agora os textos estão organizados a partir das relações existentes entre eles e cada acesso gera um mapa que apresenta as ligações entre os diferentes títulos, seus assuntos, temas, recortes curatoriais, artistas envolvidos, citados ou referenciados.

Assim, é possível ter uma visualização geral do conteúdo e navegar por ele através de diferentes rotas. A proposta de ativação desse material em plataforma online aponta para a criação de um banco de dados, um arquivo vivo, que pode se desdobrar ao longo das próximas edições do Modos de Existir. Novos textos e mais conexões internas e externas, mapeiam a produção da escrita desse contexto ampliando assim sua possibilidade de fluidez.

O site, bem como o volume impresso – montado e distribuído durante a semana do evento no Sesc Santo Amaro – é uma reflexão “in action” do tema Publicação em Dança. Pensar o texto enquanto matéria coreográfica; o papel, a impressora, a tinta ou a luz da tela de um computador enquanto elementos determinantes do trânsito de informação no corpo e da sedimentação do conhecimento.

O quê se vê online gera relações de outra natureza quando se acessa a materialidade do papel, ainda que se trate do mesmo conteúdo. Portanto, experimentar essas diferentes texturas me parece algo que interessa ao campo da dança. Ambas as organizações do material, impresso e online, geram camadas performáticas que expõem suas estruturas de composição para serem reconfiguradas a partir das escolhas de quem por elas navega. O índice propõe um jogo em que, a presença ou a possibilidade de acesso a uma parte do material revela a existência do todo.

Quais as operações que você considera mais bacanas dele?

O site possui uma ferramenta bastante interessante que permite que o navegante crie sua própria coleção de textos e gere um arquivo em pdf para download ou impressão. Essa ideia de coleção abre espaço para uma relação mais direta e pessoal do leitor, que seleciona o conteúdo e exercita a variação das composições do material. A página também elabora mapas de acordo com os assuntos selecionados. Esses mapas têm uma plasticidade visual que convida à contemplação de uma espécie de dança virtual.

No que a rede de relações que o site estabelece contribui para a dança e seus envolvidos?

Difícil dizer de que maneira o site poderá contribuir para “a dança e seus envolvidos”, já que isso depende da ação do conjunto; mas de maneira geral, a rede de relações cria canais de acesso e troca de informação de um modo visual e fluido, além de permitir a construção de um espaço comum para abrigar conteúdos afins. O fato de ser uma plataforma que poderá se ampliar no tempo, com a inclusão de outros textos, imagens e áudios, é um ponto importante pois indica a continuidade da produção, infinita e indeterminável, desse campo de pensamento. Estabelecer os parâmetros para a construção dessa publicação, em todas as suas etapas de desenvolvimento, é um exercício coreográfico; sua elaboração e desdobramento carregam em si as formas de contribuição que são ativadas pelo uso.

Entrevista com Ivani Santana:

Como a experiência do MAPA D2 implementa efetivamente a ideia de rede?

O projeto MAPA D2 – Mapa e Programa de Artes em Dança (e performance) Digital emergiu da necessidade sentida desde minha chegada à Bahia em 2003.

A falta de intercâmbio de informação consistente no campo da dança existia tanto internamente no Brasil (pois a preponderância do fluxo de informação permanecia entre o eixo Rio/SP), como também entre os países ibero-americanos. Iniciado em 2009 como uma plataforma que pretendia abrigar um espaço dinâmico para a relação entre artistas, pesquisadores acadêmicos e estudantes no campo da dança com mediação tecnológica, o projeto MAPA D2 conseguiu realizar uma série de ações que realmente colocou em sinergia os países de língua portuguesa e espanhola. Por essa trajetória, conseguimos estabelecer uma rede de contatos entre vários profissionais e estudantes desse campo.

Em 2014, o projeto MAPA D2 é redefinido tornando-se então um periódico acadêmico bilíngue (português/inglês) que continua promovendo o intercâmbio de informação e dá visibilidade para a produção dos pesquisadores ibero-americanos, mas também promove a troca com as demais partes do mundo. Sendo assim, a Revista Eletrônica MAPA D2, como um periódico acadêmico, pretende propiciar um espaço para difusão do conhecimento no campo da dança com mediação tecnológica que carece de informação principalmente para os países da América Latina. Nosso objetivo é tornar a Revista Eletrônica MAPA D2 uma publicação especializada nesse campo e espaço de referência que, tanto traga artigos com rigor acadêmico das distintas partes do mundo para o conhecimento da Ibero-América, como também divulgue as nossas próprias pesquisas para eles.

Quais são as conquistas experimentadas a partir do duo entre tecnologia e dança?

Investigar outras possibilidades do aparato sensório-motor e, assim, poder explorar a percepção (de quem atua e de quem assiste/participa) criando novas estéticas. A percepção humana é responsável por determinar como apreendemos o mundo, sendo assim, está implicada em como discutimos, transgredimos e refletimos sobre o meio que habitamos e tudo o que há nele. A Arte tem o poder de impulsionar o mundo uma vez que traz perguntas sobre ele (o mundo) e sobre quem pergunta (nós mesmos).

Que caminhos potentes se anunciam a partir da experiência da revista e que caminhos ela tem pela frente?

Nosso futuro, como para todas as outras coisas, depende de conseguir verba para melhorar as condições de produção da revista, ainda possível pelo empenho voluntário de muitos. A pertinência entre as parcerias de rede tecnológica e colaborativa ainda precisam ser acolhidas na academia com mais credibilidade. Como afirmar e fortalecer isso?

Temos uma rede acadêmica com grande potencial e com muitos serviços disponíveis. A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa[7] é responsável pela gerência desse conjunto, além de dar um enorme suporte aos pesquisadores. Acredito que o campo das artes poderia se apropriar mais desse potencial para tentar minimizar a falta de intercâmbio entre os pesquisadores e mesmo entre o mercado cultural de cada região e estado brasileiros. Somos um país de dimensões continentais com grande custo para locomoção interna. O potencial da rede acadêmica poderia auxiliar a todos favorecendo a difusão e distribuição do conhecimento artístico e acadêmico entre todos.

[1] A Revista Eletrônica MAPA D2 – Mapa e Programa de Artes em Dança (e Performance) Digital é uma iniciativa do Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas em parceria com o Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. “A publicação tem como foco abrigar a produção de conhecimento das experiências acadêmicas e artísticas do campo da dança e da performance que atuam nas fronteiras da arte-ciência-tecnologia” referência:

https://portalseer.ufba.br/index.php/mapad2

[2] www.idanca.net
[3] ( http://modosdeexistir.sescsp.org.br/ )
[4] Rede social criada em parceria com a Red Sudamericana de Danza:
( http://idanca.net/quem-somos/ )
[5] Reúne uma série de publicações disponibilizadas .pdf As publicações têm o apoio da Fundação Prince Claus da Holanda ( http://idanca.net/idanca-txt/ )
[6] ( http://idanca.net/idanca-doc/ )
[7] “A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) provê a integração global e a colaboração apoiada em tecnologias de informação e comunicação para a geração do conhecimento e a excelência da educação e da pesquisa” trecho retirado do site da RNP: www.rnp.br