Tipo 7×7 sobre a intervenção Despacho, da Cia. Ltda, dançarino Jorge Schutze.

A “buniteza” de Despacho acontece no entre. Entre quem dança e o outro, por meio e com a dança, no que gera nos dois simultaneamente, naquele que dança e naquele que presencia a dança do outro. Buniteza sim, agora sem aspas mesmo, em vez de beleza, para ver se esse último termo aí, tão conhecido, descansa um pouco de tanto uso e des-significação. Ainda mais quando se fala de dança… Buniteza para além de uma palavra grafada lida com um sotaque conhecido, na verdade é um esforço da vontade de dizer mais com as palavras sobre a natureza do que Jorge Schutze fez brotar bem no meio do meu peito, em plena rua no calçadão de Santo Amaro, em São Paulo, durante o projeto Modos de Exisitir – Intervenções. Buniteza, então, pois é mais simples, mais perto, mais real, menos cosmético, menos Boticário, menos conceitual, menos espetacular, menos idealizado ou inatingível. Bunito de doer a existência!

Com uma roupa comum, mas toda azul, Jorge Schutze, da Cia. Ltda, não se destaca da multidão a não ser pelos seus movimentos e sua proposição-pedido para dançar para alguém. Na rua, local dos “não lugares”, do “de ninguém”, do medo, do sujo, do áspero, da pressa, do anônimo, da objetividade, da compra e da venda, esse homem de meia-idade, quase como outro qualquer, se move fora do padrão. Ao ser notado, estabelece contato e propõe dançar para outro. A partir da resposta do outro, Jorge fala, move, conversa, dança tudo ao mesmo tempo.

Sol na cara, pés e mãos no chão, suor, poeira, olho no olho e batidinha nas costas.

Movimentos grandes, calçada, músculo e degrau da entrada de uma loja. Deixa, por que não?

Estranhezas, sorrisos presos, calor, indiferença, narizes torcidos e caretas, quadris e camelôs.

Balançadas de cabeça negativas, afetos, olhares, pernas grandes, bueiro, “chega pra lás” machistas, comparações com o demo e jogo de cintura.

Eu vim lá de Alagoas pra dançar pra você e você diz que eu sou o diabo? Diabo é outra coisa! Gentileza, braços fluidos e pernas flexíveis, gritos vendendo e comprando ouro e piadinhas sobre virilidade.

Grades, duetos alegres eventuais, uma capoeira, risadas, espanto, uma aperto de mão, conselhos e conversas-comentários.

Salve, Jorge! Schutze! Sua dança é um redemoinho bem no meio da rua que remexe e levanta tudo que ali já estava, mas se mantinha inerte, mudo ou calado. Um rastro fica, a intervenção perdura, um eco de reações, comentários, sensações e outras performances se sucedem! A rua em toda intervenção urbana mostra toda a generosidade e crueldade da cultura! O Brasil mostra sua cara! Se ouve de tudo durante e depois das performances. Diferente dos silêncios institucionalizados, as pessoas narram, comentam, xingam, mostram e dizem o que pensam no espaço público da cidade! Jorge, recebe, embala, contorna, não deixa escapar, nem foge, nem finge, sua gentileza transforma e dá de volta sem agressividade! Mas a força e a verdade de seu pensamento estão lá intactas, no exato momento.

Gesto tão simples, iniciativa tão sem sentido… Afinal pra que serve dançar pra alguém que você nem conhece? É louco? Drogrado? Vagabundo? Está vendendo o quê? Está me distraindo pra me roubar? Está querendo algo comigo? Ou como disse uma mulher: “Está no cio?” Em nenhum momento ouvi reconhecerem Jorge como artista. Não pode ser, é tão igual a todos nós, é tão um homem comum! E é aí que mora uma das maiores forças de sua performance. A que aproxima, permite um acontecimento, uma experiência!

Sai da representação, cai no afeto. É uma dança-relação, seu virtuosismo está na sua técnica que não oprime nem desiguala, não hierarquiza, na medida certa para o diálogo, para um dueto. No seu intuito. O um, assim, pode encontrar o outro. A dança do corpo de Jorge em Despacho exala a vontade de ser dança, estar dança, viver nesse mundo, buscar alternativas. Essa dança, feita assim, abre uma fissura no conhecido, instaura outro nível de realidade e como uma janela pro infinito, abre o futuro para as possibilidades, para as potências,* para a alegria,* para bons e maus encontros,* para a vida,*

Todos os * de acordo com Spinoza, graças a Fuganti e Ferracini!