A ideia do terceiro dia de bate-papo do Modos de Existir foi ouvir de cada um dos coletivos ali presentes um resumo do seu modo de produção. Que mecanismos fazem girar as engrenagens da dança hoje? Que renovação possível há nesses fazeres artísticos? Nesses encontros de “escala humana”?

Em foco estava Eduardo Severino, bailarino e coreógrafo da Eduardo Severino Cia de Dança, e integrante da Sala 209, em Porto Alegre. O espaço nascido em 2007 dentro do Projeto Usina das Artes, no Centro Cultural Usina do Gasômetro, abriga artistas e grupos independentes que o utilizam livremente. “A sala surgiu do desejo e da necessidade de termos um território de dança em Porto Alegre”, disse Eduardo. “A partir de projetos de intercâmbio, Dia da Dança e parcerias com universidades locais criamos um público de dança contemporânea que também pertence a essa sala”, complementou a pesquisadora e criadora Eva Schul.

Micheline Torres, artista do Sweet & Tender Collaborations desde 2008, contou que o foco do projeto internacional é no intercâmbio de modos de produção. “O que mais me estimula é a invenção da autogestão. Aprendo a estar aberta a novos modos de produção e a sustentar as diferenças do meu contexto geográfico”, disse. Que lugar é esse do artista no Brasil? Autogestão é uma situação precária? Até onde estar em coletivo significa ser um “faz-tudo”?

“Eu não quero vender cocada para poder fazer o bolo”, disse Izabelle Frota, do Núcleo do Dirceu, referindo-se à sua especificidade enquanto criadora-intérprete da plataforma. Ellen Mello, produtora do grupo de Salvador (BA), conta que o Dimenti nasceu há catorze anos sem edital e com integrantes assalariados. “Desde o início não recebemos a mesma quantia pois temos em mente que as pessoas colaboram de formas diferentes”, disse.

Além de grupo, o Dimenti é produtora cultural e organiza o festival Interação e Conectividade na capital baiana. “O Dimenti é uma autogestão, e, ainda assim, acreditamos na importância de estabelecer funções no nosso grupo”, acrescentou Jorge Alencar, diretor artístico do Dimenti.

“Partimos do princípio que esse nome ‘coletivo’ agrupa o diferente”, diz Nirvana Marinho, que enfatizou a importância da autogestão e da cadeia produtiva nos modos de fazer artísticos em dança. “Estamos aqui para expor as especificidades de cada um enquanto coletivo. Não é receita (de bolo?), é se expor e dialogar sobre as diferenças”, acrescentou Conrado Falbo, do coletivo Lugar Comum.

Pode um encontro de coletivos heterogêneos no SESC Santo Amaro desarticular automatismos da dança? Como inventar um modo de dizer igualmente libertador? Já pegou a sua fatia de bolo hoje? Degustar é preciso…